sábado, 13 de setembro de 2014

O FANTÁSTICO MUNDO DE BOBBY DIREITISTA

Nunca antes na história desse país se fez tanta pesquisa eleitoral. Passaram a ser diárias, repetidas, matutinas e noturnas, segmentadas conforme o interesse de quem as faz. Pesquisas frenéticas, as quais nem os mais atentos leitores conseguem acompanhar, denunciam o desespero. 

Afinal de contas, qual é a importância das pesquisas. Não têm valor científico, nem como informação terciária ao leitor. Somente objetivam INFLUENCIAR  o eleitor a votar conforme quem as publica. E quem banca essa profusão de pesquisas? O Itaú?

Fosse qualquer tipo de trabalho revestido com seriedade acadêmica, seria vergonhoso um instituto desmentir o outro ao mesmo tempo e o tempo todo! Sem contar todos os erros das pesquisas na história, o que confirma e reforça a tese que se trata, quando divulgados à maneira do PIG, de um rasteiro instrumento de manipulação.

Nem mesmo o choque de realidade provocado pela presidenta Dilma Rousseff em sabatina promovida pelo Globo foi capaz de abrir os olhos de certo grupo de celerados. Houve inclusive um pedido do blogueiro Noblat para que a candidata "falasse menos", ao que ela teve que relembrá-lo sobre quem era a sabatinada.

É normal esse tipo de entrevista tirar o entrevistado da zona de conforto. Nesse caso, entretanto, o fenômeno ocorreu com os entrevistadores, tão pouco habituados ao contraditório que acabam tomando como inquestionáveis suas próprias verdades, repetidas como mantras pelos meios de comunicação.

O tópico sobre energia ilustrou muito bem essa situação: TODAS as afirmações dos jornalistas foram contestadas pela atual mandatária sem que qualquer um deles conseguisse formular uma réplica. Por outro lado, as afirmações da presidenta não foram contestadas.



A questão é que a imprensa prefere divulgar uma verdadeira inversão de conceitos convenientes às suas verdades. Ainda que não sejam de própria lavra, optam por afirmar que Chico Mendes era de elite, que Neca Setúbal é "educadora", que são o bastião da liberdade de imprensa e não das empresas que as mantém, que o problema de São Paulo é criacao de ciclovias e não a falta de água; que o BACEN independente é bom povo e ruim para os bancos, e que o choro de Marina é o ápice de uma campanha difamatória cujo algoz é o PT.

Antes que essa nova "verdade" se alastrasse como praga nas mentes influenciáveis pelo padrão PIG de informação, o próprio Lula foi direto ao ponto: “Nunca falei mal da dona Marina e vou morrer sem falar mal da dona Marina. Ela é que tem que explicar por que nasceu, cresceu e ganhou todos os cargos no PT e falou mal do PT essa semana. Eu não tenho que me explicar, eu tenho é a obrigação de falar bem da minha candidata que é Dilma Rousseff".

Nesse contexto, os autistas acham espaço para num luxuoso auditório na Vila Olímpia, lançar o 1° Fórum Liberdade e Democracia de São Paulo, que contou com as presenças de americano Ron Paul, o argentino Ricardo Murphy, o escritor dissente de Cuba Carlos Alberto Montaer, além de dezenas de empresários e jovens empreendedores, com o denominador comum de espumar de raiva ao falar do PT.

Os parceiros do evento estenderam seus cartazes pelos corredores do auditório: IFL (Instituto de Formação de Líderes), Instituto Liberal, Instituto Millenium, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, Capitalismo Consciente, organizações que se fundem em ideias e se interconectam através de associados que se repetem em todas elas, e que poderiam inclusive ser melhores investigadas, visto as polpudas contribuições financeiras que recebem de grupos rentistas e empresariais e rentistas, além aportes estrangeiros.

Depois de toda cantilena liberal, que se replica como as falsas verdades do jornalismo do PIG, o final apoteótico reservou a entrega do "Prêmio Liberdade", segundo a organização do evento, distribuído "pelo ótimo serviço de defesa dos direitos individuais e de defesa da liberdade de imprensa".

Quem era o agraciado?

Danilo Gentili.

O perfeito Bobby, do mundo fantástico em que vivem esses direitista.

sábado, 6 de setembro de 2014

O POVO ENTENDE O QUE MARINA FALA?

Passada a comoção da morte de Eduardo Campos, o que acontece com Marina? Por que, quanto mais ela se torna conhecida, menos intenções de voto ela apresenta?

 
Alguns entendem que ela atingiu seu objetivo, qual seja, de romper a polarização entre PT e PSDB. O que, na minha opinião, foi salutar, pois deixou claro qual era a polarização existente no cenário político: a que se verifica entre simpatizantes do projeto petista e entre antipetistas empedernidos, servindo qualquer um que se prestasse a esse papel, de acordo com as palavras do próprio FHC. A dos jatinhos ilícitos pousou sobre o do aeroporto ilícito sem qualquer cerimônia.


Outros imaginam ser Marina o produto emergente das passeatas de junho de 2013. Discordo, haja vista não ter conseguido sequer as 500 mil assinaturas que justificassem a criação de seu partido. Na verdade, os 20% de intenção de voto com que Marina “surgiu” no dia seguinte à queda do avião de Campos representavam seu eleitorado garantido entre evangélicos e demais nichos. O que se agregou a essa parcela são advindos da fatia conservadora da sociedade que nunca marcheteou, aquela parcela despolitizada e altamente sugestionável pela mídia. Que por seu caráter volúvel, começa a refluir.


O fato é que, enquanto Marina conseguiu sustentar uma imagem light, mesclando discurso ambientalista e um liberalismo agradável aos setores rentistas, sem abrir a boca, pintou como a possibilidade real de apear o PT do governo. Contudo, a máscara caiu na medida em que deixou de ser um ícone midiático e expôs suas idas e vindas, a falta de clareza de posturas, a ambiguidade entre a defesa do meio ambiente e a adesão ao agronegócio, a rendição aos pastores arrecadadores e a renegação de seu passado causou mais temor do que expectativas com a possibilidade de sua vitória. Ela não se comprometeu com nada, exceto com banqueiros, exigindo do mandato uma carta branca que até faz sentido no fundamentalismo religioso, mas não diz respeito a uma democracia.


Minha opinião é que enquanto o PIG traduziu seu discurso, foi possível vender Marina como alternativa viável. Porém, quando a candidata teve que se apresentar sem filtros, a aparência imaculada ruiu: o povo não entende nada do que ela fala. Não que seja muito complexo, porque para os iniciados também está claro que se trata de um palavratório oco e artificial.

Ou você entende que é preciso preservar a cópula dos bagres, em detrimento da construção das usinas hidrelétricas?

domingo, 31 de agosto de 2014

JOGO DE CENA

É preciso reconhecer a falta de atitude da campanha do PT em face da candidatura da moda. Acostumados à polarização contra o PSDB (que, derrotado, vive seu ocaso), o PT permanece inerte diante dos novos movimentos ocorridos no tabuleiro político.

Pode ser ausência de iniciativa ou excesso de confiança. Ou uma conjunção dos dois fatores, em escala variada. Há relatos das pesquisas internas do PT que desmentem os levantamentos do ibope ou do datafolha. Contudo, mesmo na cúpula do partido já existe a certeza do 2.° turno.

Na verdade, não é isso que interessa para o povo. Também é picuinha a discussão sobre a interferência religiosa no programa apresentado pelo PSB. Posições anticientíficas, união homoafetiva, e demais exigências dos pastores da comitiva marineira têm sua importância para um nicho de pessoas específicas, mas numa escala nacional, três temas são essenciais nesta eleição:

PRÉ-SAL

O Globo anunciou em primeira página que a candidata do PSB, Marina Silva, planeja reduzir a importância do pré-sal na produção de combustíveis. Num encontro com produtores de etanol, na Feira Internacional de Teconologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho, Marina, para foi ovacionada quando disse: “temos que sair da idade do petróleo”. E também quando prometeu disse vai revigorar o álcool, dando incentivo para os produtores do setor.
O governo estima que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo.
Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.
É isso que está em jogo e que incomoda profundamente os falcões americanos. Eles não querem o desenvolvimento do Brasil e muito menos o nosso fortalecimento internacional. Um Brasil forte não interessa aos EUA. Desde sempre.
E por isso, sempre houve pressão para que a extração nas camadas de pré-sal fosse entregue a grandes empresas privadas, se possível americanas. E não fosse realizada pela Petrobras. Os gringos querem o pré-sal para eles.

BANCOS PRIVADOS

Com Marina, os bancos privados ganharão mercado, hoje dominados pelos bancos públicos. O programa de governo de Marina Silva (PSB) à Presidência defenderá mudança na política de crédito do governo federal, criando mecanismos para que os bancos privados possam aumentar sua participação em relação aos bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Os principais pontos do programa foram antecipados por Maria Alice Setúbal, a Neca, herdeira do Itaú, e Mauricio Rands, ambos responsáveis pela coordenação do plano de governo de Marina. "Queremos ampliar o mercado de crédito criando mecanismos para que os bancos privados possam participar mais percentualmente", afirmou Rands, no comitê de campanha de Marina, em São Paulo.

BANCO CENTRAL
 
Atualmente, o Banco Central não tem autonomia formal, já que seu gestor é escolhido pelo presidente da República, autoridade máxima do país, eleito democraticamente pelo povo. Por extensão, podemos dizer, então, que o gerente do Banco Central representa as necessidades do povo e atua em consonância com o governo eleito por ele e que, por sua vez, luta por políticas (dentre elas a econômica) que beneficiem a população que o elegeu. O BC tem, hoje, autonomia operacional para atingir as metas determinadas pelo governo. Dar ao Banco Central autonomia formal seria dar independência aos diretores do banco, que passariam a ter mandatos soberanos. Essa independência se daria em relação às autoridades que expressam a soberania popular.
A autonomia do Banco Central é uma medida fundamentalmente neoliberal. Os adeptos dessa teoria acreditam que o salário e o emprego se mantêm estáveis pela autorregulação do mercado, portanto é desnecessária (e eles acreditam ser prejudicial) a interferência do Estado nas questões econômicas. A crise econômica por que passou – e ainda passa – grande parte das nações, que sofrem com os efeitos devastadores de uma política neoliberal que causou o desemprego de 60 milhões de pessoas por todo o mundo é a prova de que o neoliberalismo econômico é nocivo, mesmo em um sistema capitalista.


Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, sugestivamente intitulado “A era dos bancos centrais independentes está chegando ao fim”, o economista chefe do HSBC, Stephen King, aponta nesta direção ao dizer que “não se pode seguir falando de independência dos bancos porque eles criam ganhadores e perdedores”.
King não é uma exceção. O ex-assessor da Reserva Federal de Nova York, Zoltan Pozsar, e o economista que cunhou o termo “banca nas sombras”, Paul Mc Culley, sugeriram em um artigo sobre a emissão de dinheiro eletrônico ou aceleração quantitativa, que os bancos centrais devem trabalhar seguindo as ordens dos ministérios de finanças para coordenar medidas fiscais e monetárias que ajudem a lidar com a crise atual.
O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, arrematou este debate dizendo que, na verdade, tratava-se de um equívoco, uma ilusão ou um engano deliberado. “Não há realmente instituições independentes. Todas têm que prestar contas. A questão é para quem”, disse Stiglitz em uma conferência na Índia neste mês de janeiro.

sábado, 23 de agosto de 2014

A CANDIDATA DO ITAÚ

À época em que Lula exercia "apenas" o cargo de presidente nacional do PT, não havia um dia sem a pergunta: quem o banca? Como consequência, vinha a mentira canalha de que ele se mutilou, cortando o próprio dedo para receber pensão.

Pois bem. Alguns anos depois Marina Silva emerge como nova musa de uma elite decrépita. Com todos os dedos e nenhum emprego, proponho a mesma indagação: do que vive Marina?

É sabido que seu marido, Fábio Vaz de Lima, ocupou até semana passada o cargo de secretário adjunto do Estado do Acre, governado por Tião Viana, do PT. Apesar das pressões para que saísse do governo petista, Fábio relutou até o último instante em abrir mão de emolumentos de R$ 18.200,00.

Um bom salário para sustentar a família, sem dúvida, ainda que num cargo de confiança dum mandato do ex-partido de sua esposa, agora espinafrado a cada vez que um microfone aparece. Mas nem de longe suficiente para patrocinar as idas e vindas da mulher. E irrisório para os voos de uma candidatura presidenciável.

A bem da verdade, cumpre informar que Marina Silva tem dois aportes econômicos de peso.

O primeiro é do grupo Natura de cosméticos cujo fundador e maior acionista, Guilherme Peirão Leal, foi candidato a vice-presidência em 2010. Há grande identificação entre o marketing da empresa e a ideologia eco-liberal da candidata. Na campanha passada, o grupo foi o grande doador da campanha, com valores oficiais de R$ 12 milhões.

O segundo maior doador em 2010, a cada dia assume maior protagonismo na campanha de 2014: Banco Itaú. Antes captadora de recursos para a "Rede Sustentabilidade", na atual temporada, a herdeira Maria Alice "Neca" Setúbal é a coordenadora de programa de governo de Marina Silva. Educadora por profissão e bilionária por herança, um misto de Armínio Fraga e Glória Kalil, Neca não hesita em se apresentar como porta-voz da candidatura.

A fada madrinha da fadinha da floresta vive num conto de fadas

No ponto alto da entrevista concedida à Folha, Neca acena ao mercado e promete autonomia do Banco Central, ponto fundamental da campanha de 2014. A autonomia do BC é a senha para o capital tomar de vez o controle político do Brasil. Em vez de deixar a política econômica em mãos de servidores públicos que respondem a uma autoridade eleita, o que se quer é dar independência aos diretores do banco, que passam a ter mandato e assim por diante. Independência de quem? De autoridades que de uma forma ou outra expressam a soberania popular.

Caso fosse eleita, Marina Silva representaria um enorme retrocesso no desenvolvimento que o país experimenta durante os governos Lula e Dilma. Algo que não incomodava tanto na candidatura de Eduardo Campos, aparentemente um adepto de desenvolvimentismo lulista. A nós, contudo, duas preocupações se sobrepõem às teorias de "não-crescimento", que logo seria rejeitada pelo povo.

Primeiro, o enorme risco de não concluir o mandato, mergulhando o país na incerteza, nos mesmos moldes que Jânio Quadros e Fernando Collor. Na tripartição dos poderes, o poder legislativo é o mais importante. O executivo, como o nome diz, executa as determinações advindas da "vontade geral", representada na Câmara (ou Assembleia, Congresso, etc) e o Judiciário apenas media conflitos entre particulares, entre os poderes e entre particulares e os poderes constituídos. Não há nenhuma possibilidade de sustentação de um governo sem respaldo no Congresso. No Brasil temos dois exemplos. Pelo mundo afora, são inúmeros. O que viria depois é muito difícil prever, mas tenho minhas suspeitas sobre a quem interessaria o clima de instabilidade.

Segundo, a política econômica, com o Itaú assumindo o Banco Central e ditando as regras, permitindo ao sistema financeiro recuperar o controle absoluto da política econômica, definindo a taxa de juros conforme análises e projeções de instituições privadas que atuam no mercado. As consequências aos setores produtivos, à infra-estrutura em formação seriam desastrosas. Os EUA voltariam a nos ver como eterno dependente de seus recursos e como paraíso do capital especulativo.

Parafraseando Paulo Moreira Leite (que por sua vez parafraseou Paulo Francis): chega de intermediários! Itaú para presidente!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

QUEM TEM MEDO DE MARINA SILVA?

No rescaldo do passamento do candidato Eduardo Campos, que figurava nas pesquisas eleitorais com algo em torno de 8 ou 9%, o PIG se assanhou em o substituir por Marina Silva. Antes tão critica quando ministra do governo Lula, se tornou a redentora da elite contra o projeto democrático e popular. O sonho (ou delírio) de uma direita que se diagnosticou como sem líderes, mas que na verdade, se ressente da falta de um projeto para o Brasil.

Os comedores de carniça desconsideram que Marina Silva não tem partido. No frigir dos ovos sua "Rede" buscou guarida no PSB, mas com data certa para debandar: assim que consigam atender aos requisitos formais da legislação eleitoral.

Candidatos sem partido, ou pior, alocados em legendas de aluguel, nos trazem à memória Fernando Collor e, dos mais experientes, Jânio Quadros. Figuras metidas à salvadores da pátria, sem lastro ou qualquer base de sustentação, cujo destino é previsível. Repetir o mesmo erro pela terceira vez parece uma burrice inominável, mas no PIG sempre há espaço para quem quer tumultar o ambiente político.

O arautos da candidatura Marina, necrofágos num macabro episódio da sociedade do espetáculo, soam as primeiras trombetas contra a política de alianças do PT que, em nome da governabilidade, se aliou ao PTB de Roberto Jeferson e ao PMDB do José Sarney. Pois bem: com quem Marina governaria num hipotético mandato? Com os anjos? Com o PSDB? Com o DEM? Cartas à redação, por favor.

Deixando de lado a excitação mórbida dos analista e indo para as ruas, quem vota em Marina? É quem não vota no PT. Logo, Marina poderá herdar o eleitor de Eduardo Campos que o via como 3.ª via, além de adentrar pesado no eleitorado retrógrado que está desconfiado de Aécio, um dândi de modos injustificáveis, além do "case" Pastor Everaldo.

O eleitorado da Dilma é diferente. Nele,  Marina não tem penetração. É composto basicamente por petistas históricos e eleitores que o PT angariou depois de três sucessivas adminstrações vitoriosas. É um tipo de eleitor "conservador", que se exprime na máxima: "em time que está ganhando não se mexe". Ademais, há aqueles com a consciência de que a vida material dos brasileiros melhorou muito nos últimos doze anos. 

A essa conclusão se pode chegar por corporativismo de classe ou testemunho próprio. Sob hipótese alguma pelas manchetes dos jornais ou da televisão. Estes, que formam o PIG, não merecem mais o apelido dos porquinhos. Estão mais para hienas ou vultures (abutres).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A DIMENSÃO HISTÓRICA DE EDUARDO CAMPOS

Morreu hoje, aos 49 anos, Eduardo Campos. Ainda estou chocado. E, na falta de melhores adjetivos, estarrecido com a repercussão da tragédia. Tempos de facebook, whatsupp, twitter, que faz o ultrapassado jornalismo marrom parecer pueril, coisa de uma era romântica, que não volta mais.

Não assisto televisão, exceto alguns jogos de futebol. Logo, não estou dando à mínima para as comentadas entrevistas no Jornal Nacional. Pouco me importa como os candidatos estão se saindo perante o Bonner e a Patrícia Poeta, dois péssimos auxiliares para qualquer eleitor.

Mas o fato é que não me incluirei entre os que fazem homenagens fúnebres hipócritas, discursos laudatórios como se a passagem para o mundo espiritual fosse a redenção de todos os deslizes terrenos. Penso que a forma mais sincera de respeito é manter as ideias e moderar as palavras, e o momento requer reflexão e meditação

Muito menos me ajuntarei ao coro de hienas que fazem troça de um drama familiar, como se fosse mais um capítulo do stand-up seguido com fervor. Ou ainda, dos calhordas que estão confabulando em como tirar vantagem política da morte do pernambucano.

Sempre achei péssimo que, no Brasil, a 3.ª via seja uma candidatura de centro. E nas últimas três eleições, esse campo político representa o eleitor que tem vergonha de votar nos tucanos, por tudo que fizeram enquanto mandatários, mas não tem coragem de votar no PT, seja pelo preconceito incutido desde longa data, seja por comprarem fácil o discurso midiático antipetista.

Como figura histórica, Eduardo Campos foi o maior expoente da 3.ª via. Neto de Arraes, herdou algumas bandeiras sociais desde o berço, ainda que flertasse com o mercado. Ouvi dizerem: o socialista que gosta de empresários. Já em termos de estatura política, o coloco no mesmo patamar de Marina Silva e Cristóvão Buarque: costelas estirpadas (por vontade própria) do projeto de país oferecido pelo PT, mal tratados na imprensa enquanto governo, ganharam alguns holofotes depois de bandearam para a oposição, para em seguida hibernarem numa espécie de exílio.

Que descanse em paz.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O ANTIPETISMO

Há dois dias, o Conversa Afiada, matou a charada das eleições de 2014: a Dilma não tem concorrentes. Digo no sentido clássico, de haver candidatos oponentes, projetos diferentes, e até um possível (quiçá frutífero) debate de ideias. A eleição é entre o PT, que Dilma e seu principal cabo eleitoral, Lula, representam, e o antiPT, vista ele a máscara de Guy Fawkes ou Aécio Neves.

Um grande amigo sonha em ver no Brasil algo que ocorreu em alguns países europeus. Forças políticas antagônicas deixaram de lado suas desavenças e criaram, em conjunto, políticas de alcance amplo, representativas e que moldaram o tipo de sociedade da qual fazem parte. Cita, com a propriedade de estudioso e viajado que é, a Irlanda e a Suécia para sua utopia.

Contudo, não posso deixar de lembrar que ele é, no mínimo, para conservar a amizade, um ingênuo. O tipo de oposição que é feita no Brasil desde 2002 é covarde, destrutiva e irracional. É aquela que chamou o Bolsa Família de estímulo à vagabundagem, mas que depois quis assumir a paternidade do programa. Ou a que critica o governo quando o dólar cai e depois critica quando o dólar sobre. Ou até mesmo quando permanece estável. Como é pouco significativa entre os populares, é conduzida pelos meios de comunicação, o PIG, que já assumiu esse papel publicamente.

Às vezes, sinto o jornalista Luis Nassif acalentar o mesmo devaneio. Isso ficou patente na sua recusa em fazer parte do Barão de Itararé, para manter sua neutralidade ou imparcialidade. Ele, que cunhou expressões célebres como "cabeças de planilha" e também "assassinato de reputações", entende bem os maneirismos e traquejos do jogo político. Foi muito perseguido pelos "órgãos oficiais da oposição", mas não abre mão do ideal de congraçamento das diversas correntes sociais num projeto de país.

Não rejeito a ideia, pelo contrário. Mas sei que para isso teremos que superar uma chaga alastrada como um cancro pela imprensa: o antipetismo. Não há como dialogar com uma linha de conduta que só tem a destruição em seu horizonte. Para o antipetismo, a terra arrasada, o país bombardeado por forças da OTAN, a guerra civil, qualquer coisa é melhor que sentar para conversar, civilizadamente, com o único partido que tem legitimidade para representar uma parcela do povo brasileiro. Reconhecer isso já se torna insuportável, pois evidencia a irracionalidade da postura.

O antipetismo é a manifestação nacional e tardia do ódio de classe na política. É algo presente desde a Revolução Francesa, quando o governo do povo foi chamado de “terror” pelo PIG da época. O antipetismo é anterior ao PT, e mistura elitismo, falta de conhecimento e doses alopáticas de ódio. No Brasil, é visível lá na formação dos sindicatos, 100 anos atrás. Antes de Lula e o PT, quem mais arcou com esse preconceito foi Luiz Carlos Prestes e o Partido Comunista.

O antipetismo só existe no contexto da polarização esquerda/direita, capitalismo/socialismo, da Guerra Fria, onde o Brasil se postou como satélite cultural dos EUA, o perigo vermelho e a ameaça do Comunismo aos valores que se tornaram tão caros ao Ocidente. André Singer tratou disso em “As raízes sociais e ideológicas do Lulismo”. De como o PT surgiu desse caldo de cultura, como partido alternativo, de luta contra a ditadura, abarcando sindicalistas, religiosos, intelectuais, rebeldes ou gente “descolada”, e passou a ser de fato um partido de massas, o único da nossa história.

A linguagem foi atualizada. Não se fala mais operário ou proletário. Hoje, o politicamente correto diz "colaboradores". Procuram substituir a luta de classes por um quase sempre sem sentido "esforço de integração". Mas a conquista de direitos sociais continua provocando asco e resistência da elite. Para que homens e mulheres, independente da cor ou posição econômica, pudessem votar e serem votados, muito sangue correu e inúmeras barreiras foram derrubadas. Para o antipetismo, a “política” até hoje deveria ser passatempo de dândis enfastiados. Bancar uma eleição não é para "trabalhador", que labuta o sustento do dia a dia, sem reclamar...

O PT foi forçado a abrandar sua retórica, para convencer os iludidos com o discurso conservador, pois trabalhadores sabotavam suas próprias necessidades até darem um voto de confiança ao PT. Já o antipetismo, por seu turno, sobe o tom e vive uma escalada de agressividade sem precedentes. É que na prática os governos petistas conciliam interesses: tiraram milhões da pobreza, expandiram a classe média e permitiram os maiores ganhos aos abastados. A esses, a única regalia extraída foi o direito de "exclusividade" em ambiente antes restritos a uma meia-dúzia. O exemplo dos aeroportos é cabal. Isso é insuficiente para um programa de oposição. Todo mundo se deu bem no governo PT. Então, o que faz com que a elite seja contra a reeleição da Dilma?

O elemento irracional do antipetismo é o pânico, que desmancha a sensatez por motivos inexplicáveis. Os neo macartistas deitam e rolam com esse temor. Ao invés de mobilizarem pessoas por "causas", polemizam na internet por "coisas". Vivem num mundo à parte do real, denunciando guerrilheiros cubanos travestidos de médicos que se infiltram no nosso país, a eminente bolchevização da sociedade e a encarnação do mal, antes um leviatã que brandia a foice e o martelo, hoje, um polvo com nove tentáculos que pigarreia discursos com sua voz roufenha, prometendo a bolivarização da economia.