domingo, 31 de agosto de 2014

JOGO DE CENA

É preciso reconhecer a falta de atitude da campanha do PT em face da candidatura da moda. Acostumados à polarização contra o PSDB (que, derrotado, vive seu ocaso), o PT permanece inerte diante dos novos movimentos ocorridos no tabuleiro político.

Pode ser ausência de iniciativa ou excesso de confiança. Ou uma conjunção dos dois fatores, em escala variada. Há relatos das pesquisas internas do PT que desmentem os levantamentos do ibope ou do datafolha. Contudo, mesmo na cúpula do partido já existe a certeza do 2.° turno.

Na verdade, não é isso que interessa para o povo. Também é picuinha a discussão sobre a interferência religiosa no programa apresentado pelo PSB. Posições anticientíficas, união homoafetiva, e demais exigências dos pastores da comitiva marineira têm sua importância para um nicho de pessoas específicas, mas numa escala nacional, três temas são essenciais nesta eleição:

PRÉ-SAL

O Globo anunciou em primeira página que a candidata do PSB, Marina Silva, planeja reduzir a importância do pré-sal na produção de combustíveis. Num encontro com produtores de etanol, na Feira Internacional de Teconologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho, Marina, para foi ovacionada quando disse: “temos que sair da idade do petróleo”. E também quando prometeu disse vai revigorar o álcool, dando incentivo para os produtores do setor.
O governo estima que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo.
Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.
É isso que está em jogo e que incomoda profundamente os falcões americanos. Eles não querem o desenvolvimento do Brasil e muito menos o nosso fortalecimento internacional. Um Brasil forte não interessa aos EUA. Desde sempre.
E por isso, sempre houve pressão para que a extração nas camadas de pré-sal fosse entregue a grandes empresas privadas, se possível americanas. E não fosse realizada pela Petrobras. Os gringos querem o pré-sal para eles.

BANCOS PRIVADOS

Com Marina, os bancos privados ganharão mercado, hoje dominados pelos bancos públicos. O programa de governo de Marina Silva (PSB) à Presidência defenderá mudança na política de crédito do governo federal, criando mecanismos para que os bancos privados possam aumentar sua participação em relação aos bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Os principais pontos do programa foram antecipados por Maria Alice Setúbal, a Neca, herdeira do Itaú, e Mauricio Rands, ambos responsáveis pela coordenação do plano de governo de Marina. "Queremos ampliar o mercado de crédito criando mecanismos para que os bancos privados possam participar mais percentualmente", afirmou Rands, no comitê de campanha de Marina, em São Paulo.

BANCO CENTRAL
 
Atualmente, o Banco Central não tem autonomia formal, já que seu gestor é escolhido pelo presidente da República, autoridade máxima do país, eleito democraticamente pelo povo. Por extensão, podemos dizer, então, que o gerente do Banco Central representa as necessidades do povo e atua em consonância com o governo eleito por ele e que, por sua vez, luta por políticas (dentre elas a econômica) que beneficiem a população que o elegeu. O BC tem, hoje, autonomia operacional para atingir as metas determinadas pelo governo. Dar ao Banco Central autonomia formal seria dar independência aos diretores do banco, que passariam a ter mandatos soberanos. Essa independência se daria em relação às autoridades que expressam a soberania popular.
A autonomia do Banco Central é uma medida fundamentalmente neoliberal. Os adeptos dessa teoria acreditam que o salário e o emprego se mantêm estáveis pela autorregulação do mercado, portanto é desnecessária (e eles acreditam ser prejudicial) a interferência do Estado nas questões econômicas. A crise econômica por que passou – e ainda passa – grande parte das nações, que sofrem com os efeitos devastadores de uma política neoliberal que causou o desemprego de 60 milhões de pessoas por todo o mundo é a prova de que o neoliberalismo econômico é nocivo, mesmo em um sistema capitalista.


Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, sugestivamente intitulado “A era dos bancos centrais independentes está chegando ao fim”, o economista chefe do HSBC, Stephen King, aponta nesta direção ao dizer que “não se pode seguir falando de independência dos bancos porque eles criam ganhadores e perdedores”.
King não é uma exceção. O ex-assessor da Reserva Federal de Nova York, Zoltan Pozsar, e o economista que cunhou o termo “banca nas sombras”, Paul Mc Culley, sugeriram em um artigo sobre a emissão de dinheiro eletrônico ou aceleração quantitativa, que os bancos centrais devem trabalhar seguindo as ordens dos ministérios de finanças para coordenar medidas fiscais e monetárias que ajudem a lidar com a crise atual.
O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, arrematou este debate dizendo que, na verdade, tratava-se de um equívoco, uma ilusão ou um engano deliberado. “Não há realmente instituições independentes. Todas têm que prestar contas. A questão é para quem”, disse Stiglitz em uma conferência na Índia neste mês de janeiro.

sábado, 23 de agosto de 2014

A CANDIDATA DO ITAÚ

À época em que Lula exercia "apenas" o cargo de presidente nacional do PT, não havia um dia sem a pergunta: quem o banca? Como consequência, vinha a mentira canalha de que ele se mutilou, cortando o próprio dedo para receber pensão.

Pois bem. Alguns anos depois Marina Silva emerge como nova musa de uma elite decrépita. Com todos os dedos e nenhum emprego, proponho a mesma indagação: do que vive Marina?

É sabido que seu marido, Fábio Vaz de Lima, ocupou até semana passada o cargo de secretário adjunto do Estado do Acre, governado por Tião Viana, do PT. Apesar das pressões para que saísse do governo petista, Fábio relutou até o último instante em abrir mão de emolumentos de R$ 18.200,00.

Um bom salário para sustentar a família, sem dúvida, ainda que num cargo de confiança dum mandato do ex-partido de sua esposa, agora espinafrado a cada vez que um microfone aparece. Mas nem de longe suficiente para patrocinar as idas e vindas da mulher. E irrisório para os voos de uma candidatura presidenciável.

A bem da verdade, cumpre informar que Marina Silva tem dois aportes econômicos de peso.

O primeiro é do grupo Natura de cosméticos cujo fundador e maior acionista, Guilherme Peirão Leal, foi candidato a vice-presidência em 2010. Há grande identificação entre o marketing da empresa e a ideologia eco-liberal da candidata. Na campanha passada, o grupo foi o grande doador da campanha, com valores oficiais de R$ 12 milhões.

O segundo maior doador em 2010, a cada dia assume maior protagonismo na campanha de 2014: Banco Itaú. Antes captadora de recursos para a "Rede Sustentabilidade", na atual temporada, a herdeira Maria Alice "Neca" Setúbal é a coordenadora de programa de governo de Marina Silva. Educadora por profissão e bilionária por herança, um misto de Armínio Fraga e Glória Kalil, Neca não hesita em se apresentar como porta-voz da candidatura.

A fada madrinha da fadinha da floresta vive num conto de fadas

No ponto alto da entrevista concedida à Folha, Neca acena ao mercado e promete autonomia do Banco Central, ponto fundamental da campanha de 2014. A autonomia do BC é a senha para o capital tomar de vez o controle político do Brasil. Em vez de deixar a política econômica em mãos de servidores públicos que respondem a uma autoridade eleita, o que se quer é dar independência aos diretores do banco, que passam a ter mandato e assim por diante. Independência de quem? De autoridades que de uma forma ou outra expressam a soberania popular.

Caso fosse eleita, Marina Silva representaria um enorme retrocesso no desenvolvimento que o país experimenta durante os governos Lula e Dilma. Algo que não incomodava tanto na candidatura de Eduardo Campos, aparentemente um adepto de desenvolvimentismo lulista. A nós, contudo, duas preocupações se sobrepõem às teorias de "não-crescimento", que logo seria rejeitada pelo povo.

Primeiro, o enorme risco de não concluir o mandato, mergulhando o país na incerteza, nos mesmos moldes que Jânio Quadros e Fernando Collor. Na tripartição dos poderes, o poder legislativo é o mais importante. O executivo, como o nome diz, executa as determinações advindas da "vontade geral", representada na Câmara (ou Assembleia, Congresso, etc) e o Judiciário apenas media conflitos entre particulares, entre os poderes e entre particulares e os poderes constituídos. Não há nenhuma possibilidade de sustentação de um governo sem respaldo no Congresso. No Brasil temos dois exemplos. Pelo mundo afora, são inúmeros. O que viria depois é muito difícil prever, mas tenho minhas suspeitas sobre a quem interessaria o clima de instabilidade.

Segundo, a política econômica, com o Itaú assumindo o Banco Central e ditando as regras, permitindo ao sistema financeiro recuperar o controle absoluto da política econômica, definindo a taxa de juros conforme análises e projeções de instituições privadas que atuam no mercado. As consequências aos setores produtivos, à infra-estrutura em formação seriam desastrosas. Os EUA voltariam a nos ver como eterno dependente de seus recursos e como paraíso do capital especulativo.

Parafraseando Paulo Moreira Leite (que por sua vez parafraseou Paulo Francis): chega de intermediários! Itaú para presidente!

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

QUEM TEM MEDO DE MARINA SILVA?

No rescaldo do passamento do candidato Eduardo Campos, que figurava nas pesquisas eleitorais com algo em torno de 8 ou 9%, o PIG se assanhou em o substituir por Marina Silva. Antes tão critica quando ministra do governo Lula, se tornou a redentora da elite contra o projeto democrático e popular. O sonho (ou delírio) de uma direita que se diagnosticou como sem líderes, mas que na verdade, se ressente da falta de um projeto para o Brasil.

Os comedores de carniça desconsideram que Marina Silva não tem partido. No frigir dos ovos sua "Rede" buscou guarida no PSB, mas com data certa para debandar: assim que consigam atender aos requisitos formais da legislação eleitoral.

Candidatos sem partido, ou pior, alocados em legendas de aluguel, nos trazem à memória Fernando Collor e, dos mais experientes, Jânio Quadros. Figuras metidas à salvadores da pátria, sem lastro ou qualquer base de sustentação, cujo destino é previsível. Repetir o mesmo erro pela terceira vez parece uma burrice inominável, mas no PIG sempre há espaço para quem quer tumultar o ambiente político.

O arautos da candidatura Marina, necrofágos num macabro episódio da sociedade do espetáculo, soam as primeiras trombetas contra a política de alianças do PT que, em nome da governabilidade, se aliou ao PTB de Roberto Jeferson e ao PMDB do José Sarney. Pois bem: com quem Marina governaria num hipotético mandato? Com os anjos? Com o PSDB? Com o DEM? Cartas à redação, por favor.

Deixando de lado a excitação mórbida dos analista e indo para as ruas, quem vota em Marina? É quem não vota no PT. Logo, Marina poderá herdar o eleitor de Eduardo Campos que o via como 3.ª via, além de adentrar pesado no eleitorado retrógrado que está desconfiado de Aécio, um dândi de modos injustificáveis, além do "case" Pastor Everaldo.

O eleitorado da Dilma é diferente. Nele,  Marina não tem penetração. É composto basicamente por petistas históricos e eleitores que o PT angariou depois de três sucessivas adminstrações vitoriosas. É um tipo de eleitor "conservador", que se exprime na máxima: "em time que está ganhando não se mexe". Ademais, há aqueles com a consciência de que a vida material dos brasileiros melhorou muito nos últimos doze anos. 

A essa conclusão se pode chegar por corporativismo de classe ou testemunho próprio. Sob hipótese alguma pelas manchetes dos jornais ou da televisão. Estes, que formam o PIG, não merecem mais o apelido dos porquinhos. Estão mais para hienas ou vultures (abutres).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A DIMENSÃO HISTÓRICA DE EDUARDO CAMPOS

Morreu hoje, aos 49 anos, Eduardo Campos. Ainda estou chocado. E, na falta de melhores adjetivos, estarrecido com a repercussão da tragédia. Tempos de facebook, whatsupp, twitter, que faz o ultrapassado jornalismo marrom parecer pueril, coisa de uma era romântica, que não volta mais.

Não assisto televisão, exceto alguns jogos de futebol. Logo, não estou dando à mínima para as comentadas entrevistas no Jornal Nacional. Pouco me importa como os candidatos estão se saindo perante o Bonner e a Patrícia Poeta, dois péssimos auxiliares para qualquer eleitor.

Mas o fato é que não me incluirei entre os que fazem homenagens fúnebres hipócritas, discursos laudatórios como se a passagem para o mundo espiritual fosse a redenção de todos os deslizes terrenos. Penso que a forma mais sincera de respeito é manter as ideias e moderar as palavras, e o momento requer reflexão e meditação

Muito menos me ajuntarei ao coro de hienas que fazem troça de um drama familiar, como se fosse mais um capítulo do stand-up seguido com fervor. Ou ainda, dos calhordas que estão confabulando em como tirar vantagem política da morte do pernambucano.

Sempre achei péssimo que, no Brasil, a 3.ª via seja uma candidatura de centro. E nas últimas três eleições, esse campo político representa o eleitor que tem vergonha de votar nos tucanos, por tudo que fizeram enquanto mandatários, mas não tem coragem de votar no PT, seja pelo preconceito incutido desde longa data, seja por comprarem fácil o discurso midiático antipetista.

Como figura histórica, Eduardo Campos foi o maior expoente da 3.ª via. Neto de Arraes, herdou algumas bandeiras sociais desde o berço, ainda que flertasse com o mercado. Ouvi dizerem: o socialista que gosta de empresários. Já em termos de estatura política, o coloco no mesmo patamar de Marina Silva e Cristóvão Buarque: costelas estirpadas (por vontade própria) do projeto de país oferecido pelo PT, mal tratados na imprensa enquanto governo, ganharam alguns holofotes depois de bandearam para a oposição, para em seguida hibernarem numa espécie de exílio.

Que descanse em paz.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O ANTIPETISMO

Há dois dias, o Conversa Afiada, matou a charada das eleições de 2014: a Dilma não tem concorrentes. Digo no sentido clássico, de haver candidatos oponentes, projetos diferentes, e até um possível (quiçá frutífero) debate de ideias. A eleição é entre o PT, que Dilma e seu principal cabo eleitoral, Lula, representam, e o antiPT, vista ele a máscara de Guy Fawkes ou Aécio Neves.

Um grande amigo sonha em ver no Brasil algo que ocorreu em alguns países europeus. Forças políticas antagônicas deixaram de lado suas desavenças e criaram, em conjunto, políticas de alcance amplo, representativas e que moldaram o tipo de sociedade da qual fazem parte. Cita, com a propriedade de estudioso e viajado que é, a Irlanda e a Suécia para sua utopia.

Contudo, não posso deixar de lembrar que ele é, no mínimo, para conservar a amizade, um ingênuo. O tipo de oposição que é feita no Brasil desde 2002 é covarde, destrutiva e irracional. É aquela que chamou o Bolsa Família de estímulo à vagabundagem, mas que depois quis assumir a paternidade do programa. Ou a que critica o governo quando o dólar cai e depois critica quando o dólar sobre. Ou até mesmo quando permanece estável. Como é pouco significativa entre os populares, é conduzida pelos meios de comunicação, o PIG, que já assumiu esse papel publicamente.

Às vezes, sinto o jornalista Luis Nassif acalentar o mesmo devaneio. Isso ficou patente na sua recusa em fazer parte do Barão de Itararé, para manter sua neutralidade ou imparcialidade. Ele, que cunhou expressões célebres como "cabeças de planilha" e também "assassinato de reputações", entende bem os maneirismos e traquejos do jogo político. Foi muito perseguido pelos "órgãos oficiais da oposição", mas não abre mão do ideal de congraçamento das diversas correntes sociais num projeto de país.

Não rejeito a ideia, pelo contrário. Mas sei que para isso teremos que superar uma chaga alastrada como um cancro pela imprensa: o antipetismo. Não há como dialogar com uma linha de conduta que só tem a destruição em seu horizonte. Para o antipetismo, a terra arrasada, o país bombardeado por forças da OTAN, a guerra civil, qualquer coisa é melhor que sentar para conversar, civilizadamente, com o único partido que tem legitimidade para representar uma parcela do povo brasileiro. Reconhecer isso já se torna insuportável, pois evidencia a irracionalidade da postura.

O antipetismo é a manifestação nacional e tardia do ódio de classe na política. É algo presente desde a Revolução Francesa, quando o governo do povo foi chamado de “terror” pelo PIG da época. O antipetismo é anterior ao PT, e mistura elitismo, falta de conhecimento e doses alopáticas de ódio. No Brasil, é visível lá na formação dos sindicatos, 100 anos atrás. Antes de Lula e o PT, quem mais arcou com esse preconceito foi Luiz Carlos Prestes e o Partido Comunista.

O antipetismo só existe no contexto da polarização esquerda/direita, capitalismo/socialismo, da Guerra Fria, onde o Brasil se postou como satélite cultural dos EUA, o perigo vermelho e a ameaça do Comunismo aos valores que se tornaram tão caros ao Ocidente. André Singer tratou disso em “As raízes sociais e ideológicas do Lulismo”. De como o PT surgiu desse caldo de cultura, como partido alternativo, de luta contra a ditadura, abarcando sindicalistas, religiosos, intelectuais, rebeldes ou gente “descolada”, e passou a ser de fato um partido de massas, o único da nossa história.

A linguagem foi atualizada. Não se fala mais operário ou proletário. Hoje, o politicamente correto diz "colaboradores". Procuram substituir a luta de classes por um quase sempre sem sentido "esforço de integração". Mas a conquista de direitos sociais continua provocando asco e resistência da elite. Para que homens e mulheres, independente da cor ou posição econômica, pudessem votar e serem votados, muito sangue correu e inúmeras barreiras foram derrubadas. Para o antipetismo, a “política” até hoje deveria ser passatempo de dândis enfastiados. Bancar uma eleição não é para "trabalhador", que labuta o sustento do dia a dia, sem reclamar...

O PT foi forçado a abrandar sua retórica, para convencer os iludidos com o discurso conservador, pois trabalhadores sabotavam suas próprias necessidades até darem um voto de confiança ao PT. Já o antipetismo, por seu turno, sobe o tom e vive uma escalada de agressividade sem precedentes. É que na prática os governos petistas conciliam interesses: tiraram milhões da pobreza, expandiram a classe média e permitiram os maiores ganhos aos abastados. A esses, a única regalia extraída foi o direito de "exclusividade" em ambiente antes restritos a uma meia-dúzia. O exemplo dos aeroportos é cabal. Isso é insuficiente para um programa de oposição. Todo mundo se deu bem no governo PT. Então, o que faz com que a elite seja contra a reeleição da Dilma?

O elemento irracional do antipetismo é o pânico, que desmancha a sensatez por motivos inexplicáveis. Os neo macartistas deitam e rolam com esse temor. Ao invés de mobilizarem pessoas por "causas", polemizam na internet por "coisas". Vivem num mundo à parte do real, denunciando guerrilheiros cubanos travestidos de médicos que se infiltram no nosso país, a eminente bolchevização da sociedade e a encarnação do mal, antes um leviatã que brandia a foice e o martelo, hoje, um polvo com nove tentáculos que pigarreia discursos com sua voz roufenha, prometendo a bolivarização da economia.

sábado, 2 de agosto de 2014

O QUE É BOM PARA OS BANCOS É BOM PARA O POVO?

Quem fez mais mal ao mundo: a religião ou os bancos? Antonio Abujamra quase sempre lança esta pergunta em suas provocações. O que em si já é surpreendente, haja vista o lapso temporal dos bancos ser muito menor que o das religiões. Já Bertold Brecht dizia que melhor que roubar um banco é fundar um. Essas considerações vêm no esteio do texto que o Banco Santander enviou junto com os extratos advertindo aos clientes que a reeleição da presidenta Dilma Rousseff implicará na piora da economia do Brasil.

O sistema financeiro internacional falando mal do governo brasileiro, primeiro com Lula e agora com Dilma, não são uma novidade propriamente dita. Nem mesmo a descarada campanha eleitoral contra os petistas causa espanto. Em 2002, o Goldman Sachs inventou o "lulômetro", um suposto modelo que vinculava a variação cambial do real às pesquisas eleitorais. Lógico que o resultado dizia que a cada vez o Lula subia, o dólar disparava. A escalada apocalíptica acompanhou os últimos 12 anos, criando o difuso clima de pessimismo já mencionado em discursos oficiais, mas que não encontra eco na realidade. Dilma disse na sabatina do UOL que o mesmo pessimismo pré Copa está direcionado agora para a economia, com a agravante de que a economia é feita de expectativas. Apenas em 2014, citemos o Deutsche Bank, que alertou os investidores sobre o "risco" da eleição de Dilma. Depois, representante do Saxo Bank da Dinamarca disse que a situação macroeconômica do Brasil é a pior dos 35 países que ele visitou, por culpa dos brasileiros que votam errado. Ganham espaço no PIG ainda as consultorias a serviço dos abutres de olho nas nossas empresas públicas. A Humaitá investimentos e a Magliano corretora fizeram prognósticos semelhantes: pesquisas que indiquem queda, seja nas intenções de voto ou no índice de aprovação, os papéis das estatais na Bolsa (Petrobrás, Banco do Brasil, Eletrobrás) sobem. Aos desavisados, esse é o trabalho de gente como Armínio Fraga, da Gávea investimentos.

A Empiricus Consultoria é hors concours no segmento de prometer o caos e oferecer o abrigo. O Brasil vai acabar e estamos ferrados, caso a Dilma seja reeleita, na análise de Felipe Miranda, sócio da empresa. Fazer do horror econômico uma arma de vendas é algo muito próximo da vigarice, na reflexão de Paulo Nogueira, do DCM. E diz mais: com a notoriedade alcançada, apesar das fracas analises e da ética duvidosa (ou talvez por isso mesmo), logo Miranda estampará uma coluna no PIG, seja qual for o tentáculo. Basta falar mal do PT.

Bob Fernandes sintetizou bem essa linha de raciocínio: o “mercado” não quer Dilma. E diariamente o PIG dá voz preferencial, quando não única, ao “mercado”, que nada mais é que o sistema de bancos e demais instituições financeiras. No Brasil, apenas 4 dos bancos tiveram lucro líquido de R$ 50 bilhões em 2013, maior que o PIB de 83 países no mesmo ano passado. O resto é conversa mole e disputa pelo Poder.



Do meu lado, fico encucado com a seguinte situação: por que as pessoas teimam em acreditar nesses arautos do desgraça? A Copa acabou a menos de um mês, e todas as previsões negativas quando à realização do evento deram com os burros n'água. Era para ser um momento de total descrédito dos profetas da catástrofe. Contudo, eles reapareceram na maior cara dura repetindo a mesma ladainha! E, o que mais me espanta, os incautos ainda lhes dão ouvidos! 

Só há paralelos - no meu ponto vista - com aquelas previsões de fim dos tempos. Mas aqui estamos falando de uma espécie de "voz religiosa" - e como na pergunta do Abujamra, de novo religião e bancos se confundem. "Há dois mil não chegaríamos" segundo Nostradamus, e eu vivi minha infância e adolescência aterrorizado por causa do futuro que não conheceria. Depois, teve o bug do milênio, a segunda vinda, a grande tribulação, a ruptura pelos terremotos, o Armagedom, o efeito Júpiter, a profecia Maia e continuamos aqui, esperando que um dia o mundo realmente acabe. Aí, eles poderão dizer: tá vendo? Eu avisei!

Mantendo a esperança de um mínimo de objetividade no noticiário político das eleições, recebo com alegria a novidade (para mim) do manchetômetro, um site que acompanhará a eleição de 2014 focado na cobertura que a mídia dará ao evento, principalmente o tripé de jornais do PIG (Folha, Estadão e o Globo), criado e mantido pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Exclui-se da pesquisa, por enquanto, as coberturas por meio de revistas, rádios e emissoras de televisão.

Os gráficos disponíveis até agora são perturbadores. É o mais próximo que conseguimos chegar dos porquês da onda de pessimismo que percebeu nossa presidenta. Sobre a nossa economia, em 2014 foram 109 manchetes negativas contra apenas 4 positivas. Sobre instituições políticas e governança, o quadro é ainda mais desolador: 116 menções negativas e 2 positivas. Nas séries históricas, são reveladas outras situações antes apenas intuídas, como o fogo cerrado contra Lula e a blindagem a FHC. Há pesquisas da eleição de 2010, onde é possível apurar que pouco ou nada mudou no padrão jornalístico do PIG. 

Eles falam para um séquito de escolhidos, o 1%, e não têm medo de se alienar do concreto. Uma vez desmascarados, sem sequer pedir desculpas ou reconhecer seus erros, reiniciam o ciclo de escaramuças contras os forças populares e acobertamento dos interesses da classe que representam. Esse processo só se extinguirá com a criação de um canal de comunicação direto com o povo, que consiga furar o embargo midiático imposto pelo PIG.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

MÁRIO SCOTT, O DOS LOCOMOTIVAS

Trecho extraído do capítulo 7 do livro "Homens e Coisas do Partido Comunista", de Jorge Amado, Ed. Horizonte, Rio de Janeiro, 1946.


Não sei de nada tão triste e perverso quando um destes homens amargados, fracassados da literatura e da vida, possuídos por um complexo de inferioridade, cheios de inveja, que por todas essas condições terminam na traição trotskista. A ambição é o farol da sua vida, a inveja é o seu roteiro. Dão-me sempre a impressão que trazem espuma na boca, espuma de raiva e um dito mesquinho sobre qualquer pessoa decente. Quando encontrardes um homem assim não precisareis perguntar-lhe sua filiação política: se não for trotskista será com certeza fascista o que, no fundo, redunda na mesma suja condição de traidor do povo.

Foi um destes seres míseros que indagou de um companheiro nosso, num encontro casual de rua:

— Quem é esse Mário Scott que vocês inventaram?

Nada é mais doloroso para um trotskista que ver um operário à frente de um movimento de massas, de um partido, de um comitê. Os trotskistas odeiam os operários, odeiam esses homens fortes que marcham para a frente sem penetrar nas sendas dos desvios nascidos do delírio pequeno-burguês desse esquerdismo que é o melhor auxiliar do fascismo. O que falava para o nosso companheiro tentava encobrir com um sorriso de superioridade a raiva de saber dos aplausos com que o proletariado paulista saudara o novo Secretário Estadual.

O companheiro sorriu e disse:

— Nós não inventamos Mário Scott. Vá perguntar aos operários quem é ele e ficará sabendo.

Antes de tudo um operário. Essa palavra “operário” significa muita coisa. Tem um conteúdo seu, político. Quer dizer segurança, lealdade, consciência de classe, compreensão do momento, espírito de sacrifício, perspectiva ampla, espírito partidário. As vacilações são próprias da pequena-burguesia inconstante e facilmente desviável, facilmente sectária, facilmente amedrontável. Mário Scott é antes de tudo um operário e essa é a sua primeira qualidade de dirigente. Outra qualidade, não menos importante, é não ter ele perdido sua condição de operário na vida de militante, ter-se conservado um trabalhador.

Mário Scott, quadro feito na ilegalidade partidária, não perdeu jamais sua condição de operário. Nele o operário está em cada palavra, em cada ato, no seu jeitão meio desengonçado mas também na sua firmeza inabalável. Gosto de ouvir suas imagens nos discursos aos operários. Gostaria que meus confrades de literatura, principalmente aqueles que pensam que escrevem de maneira popular, também as ouvissem. Essas, sim, são imagens populares e justas, e o que Mário Scott diz todos eles entendem.

Seu riso é franco e sua figura grande e sã recorda uma árvore do campo. Este é um homem das locomotivas, seu lar é o bojo fumegantes das máquinas arrastando vagões, mas ele lembra a terra, suas mãos são de camponês, sua voz é lenta como a dos tabaréus do interior. Um homem da terra, preso a ela, às suas realidades. Nele a modéstia não chega a ser uma virtude, é-lhe inata, faz parte do seu ser como os dedos das mãos. Também a franqueza, essa franqueza de operário que nunca é ofensiva. Um homem grande, de gestos calmos, alegre e confiante.

Certo pintor moderno muito tempo simpatizante do Partido, ao qual nunca faltara com sua ajuda financeira, estava amedrontado ante as condições de legalidade. Tinha medo que os operários dirigentes do Partido fossem homens duros e pouco compreensivos, incapazes de imaginar e sentir os problemas dos artistas, suas peculiaridades, sua condição especial de criadores. Esses problemas apavoravam o pintor e ele estava em crise, sem saber como se comportar agora ante o Partido, em cujos propósitos humanos confiava e ao qual se sentia ligado pelo mesmo ideal de uma vida melhor, mas ao qual temia. Eu o aconselhei a conversar com Mário Scott:

— Vá ver direito como é um operário dirigente do Partido e como ele recebe seus problemas de pintor e artista...

No outro dia o pintor surgiu radiante no meu apartamento :

— Nunca vi ninguém tão humano e compreensivo...

Não é por acaso que os ferroviários perguntam por ele em cada estação de cada estrada de ferro deste país de São Paulo:

— E o Mário Scott, como vai?

Falam com entusiasmo. Ouvi essa pergunta em dezenas de lugares. Em Piracicaba e em Sorocaba, em Barretos e em Três Lagoas. Ele se fez homem junto à fumegante caldeira das máquinas. Fala sobre elas com ternura na voz. Foi foguista e maquinista e no leito das ferrovias se desenvolveu sua vida de militante. Tenho sua autobiografia aqui ao meu lado. Ele a escreveu, com sua letra desigual, quando foi eleito para o cargo de Secretário Estadual da região de São Paulo. Pode ser que alguém vos pergunte, como perguntaram ao nosso companheiro, quem é esse Mário Scott, do Partido Comunista. Ouvi o que ele diz sobre ele mesmo:
“Nasci numa fazenda de café onde meu pai era trabalhador rural. Lembro-me da geada de 1917. Eu tinha seis anos e estava já trabalhando ao lado de meu pai, com uma enxadinha. Meu pai teve que fazer uma fogueira para nela esquentarmos as ferramentas. Aos dez anos mudamo-nos para a cidade e entrei para o grupo escolar que frequentei durante seis meses. Foi esse todo o tempo de estudo que tive até ficar homem. Só muito depois, no Partido, voltei a estudar. Deixei o grupo para acompanhar meu pai que então era mascate, ganhando a vida de fazenda em fazenda. Nessas peregrinações pude observar a vida das famílias nas fazendas de café e comecei a sentir a diferença entre a vida do campo e a da cidade. Com 12 anos vim, com minha família, para Sorocaba. Entrei logo para a Fábrica de Tecidos Santa Rosália. Fiquei então conhecendo a vida dos operários. Em 1926 entrei para a Estrada de Ferro Sorocabana, como limpador de locomotivas. Eu era nesse tempo quase que o sustentáculo da família pois meu pai, sem profissão certa, ganhava muito pouco. De limpador de locomotivas passei a ajudante de foguista e nesta condição fui ao Rio de Janeiro buscar a locomotiva 606. Esta viagem foi-me muito útil. Foi quando compreendi que o Brasil não era somente Sorocabana e São Paulo e que era necessário pensar em todo o país e não apenas no lugar onde a gente vive.

Em 1927 minha mãe faleceu. Um tio meu enlouquecera e não nos foi possível conservá-lo num sanatório. Enquanto pudemos pagar sua estadia no hospital, os médicos cuidaram dele, mas quando meu pai foi a São Paulo dizer ao médico que já não podia com as despesas então o médico declarou que meu tio estava curado e deu-lhe um atestado. Já nós sustentávamos a família de meu tio. Este voltou para nossa casa em companhia de meu pai e, mal eles chegaram, compreendemos que a sua saúde não havia melhorado, o atestado do médico era até uma falta de humanidade. Mas, que fazer? Era uma casa pequena e nela, além de minha mãe e meu pai, residiam seis filhos menores. Meu pai recorreu a tudo para conseguir internar meu tio: aos chefes políticos que lhe pediam voto, aos médicos, e tudo sem resultado. Minha mãe trabalhava para a família toda. Um dia, quando voltava da casa de uma vizinha onde fora coser na máquina emprestada umas roupinhas para os filhos, encontrou na porta meu tio louco, com um revólver na mão. Disparou dois tiros. Fiquei com 16 anos e era o responsável pela família pois meu pai entregou-se ao desespero.

E assim fui vivendo, em meio às maiores dificuldades. Alguns anos depois casei-me e vieram para a minha companhia dois irmãos de minha esposa. Já meus irmãos maiores começavam então a trabalhar na fábrica de tecidos. Ao casar-me era foguista e minha companheira era justamente a mulher que eu necessitava; cheia de saúde e coragem, de uma solidariedade a toda prova.

Com a revolução de 30 pensamos que tudo ia melhorar. Eu e o meu amigo Aurélio Sabadi tomamos parte nas comemorações da vitória e estávamos certos que uma vida nova ia começar. Aderimos aos sindicatos que então surgiam mas logo notamos que muitas das coisas que se passavam nos sindicatos não eram feitas com o fim de auxiliar os trabalhadores. Apesar disso eu compreendia que o Sindicato era uma boa organização, um meio do trabalhador defender os seus direitos. A luta sindical despertou em mim o interesse pelas questões sociais. Entrei em contato com diversas organizações e conheci então uns quantos homens — que eram exatamente aqueles mais trabalhadores, bons esposos, bons pais e bons amigos — dos quais se dizia que eram comunistas. Conversei com eles e raciocinei: “Então eu também sou comunista pois sinto a vida como eles”. Finalmente em 1933 eu ingressei no Partido e pela primeira vez tomei parte numa reunião. Fiquei maravilhado com a maneira como aqueles homens se tratavam. Havia um respeito mútuo, a linguagem que ali se falava era a da verdade. Daí em diante abriu-se para mim uma enorme perspectiva. Compreendi muita coisa, aprendi muito. O Partido foi a escola que não tivera antes. Nele comecei a realmente me educar, a me fazer um homem de verdade. Nunca mais deixei de militar no meu Partido, em meio aos meus companheiros de trabalho.


Tenho cinco filhos e acredito que para eles a vida será melhor do que tem sido para mim. Acredito que o mundo marche para uma era de paz e de felicidade. E tudo que desejo, como operário e como militante do Partido, é contribuir com o meu esforço para a construção da unidade nacional do povo brasileiro, caminho para a democracia e o progresso do Brasil”.
Aí está Mário Scott. Esse homem chegado das locomotivas é uma das figuras mais populares do Partido. Todos gostam dele, do seu jeitão desengonçado, da sua voz mansa, e todos sentem que ele é um homem íntegro, desses que se nos assemelham a imagens da terra poderosa e fecunda. Todos gostam dele, mas, mais que todos, os ferroviários. Tenho andado nesses trens paulistas, nessas ferrovias, em cada vagão, os ferroviários perguntam:

— Como vai Mario Scott?

Sorriem e completam:

— Um abraço para ele. Diga-lhe que nós estamos firmes.