sábado, 30 de abril de 2011

REALISMO FANTÁSTICO

Podgarić
A expressão do título se refere a uma escola literária surgida na América Latina no século passado cujo aspecto mais chamativo é a mescla de elementos fantasiosos, mágicos, ao dia a dia dos personagens como se fossem absorvidos no cotidiano com absoluta naturalidade.











Zenica
Outra característica é o tempo, contado de forma totalmente distinta do cronológico. A distorção faz com que o presente pareça repetir o passado e o futuro seja contado com nostalgia.













Sinj
O conterrâneo J. J. Veiga foi uma expressão local dessa maluquice. Seu livro "A Hora dos Ruminantes" foi leitura obrigatória para o Vestibular da UFG quando eu o prestei.
Mas acho que não houve expressão desse movimento na escultura ou na arquitetura.











Nikšić
Já o realismo socialista foi o estilo artístico que marcou a estética dos países do leste europeu, também no século passado. As pinturas de Lênin no parlatório, os cartazes ufanistas, posters celebrando os valores deliberadamente defendidos pelo Estado, além da arquitetura monumental, das habitações coletivas aos prédios públicos.









Sisak
O Realismo Socialista propõe uma arte engajada ideologicamente, feita para o povo e para servir os interesses do povo. Os temas desta arte serão soviéticos, prosperidade dos Kolkhozes, alegria do trabalho coletivo, altos feitos dos heróis militares e civis, etc.










Ostra
Estes temas devem ser expostos de forma acessível á compreensão das massas populares. A paisagem pura e a natureza morta são condenadas bem como toda a arte indiferente à realidade social.












Kamenska
A pintura do Realismo Socialista é uma arte figurativa que tem as suas origens no Realismo Oitocentista iniciado por Courbet. Já a arte tridimensional abusa dos novos materiais, como as estruturas metálicas e o concreto armado.











Brezovica
Não sou crítico de arte, mas também não sou um ignorante contumaz na matéria. Por força das minhas "experiências pregressas" (acho lindo esse pleonasmo) fui obrigado a estudar história da arte com rasa profundidade. Isso não quer dizer nada, desde a primeira aula, onde aprendemos que a obra de arte é objeto de "fruição" dos mais excelsos sentimentos que possamos nutrir.







Mitrovica
Mesmo assim, coloco a teoria de lado para dizer se gosto ou não das manifestações artísticas com as quais me deparo. Muito coisa não me diz porra nenhuma. Acho a arte gestual (Jason Pollock), por exemplo, lixo, esterco cultural. Já essas fotos me falam alto ao coração.











Kadinjača
Assim, apesar do título dessa postagem não ter nada a ver com o conteúdo em si, o escolhi por que senti uma presença inacreditável nas fotos. A aparência de completo abandono dá um tom ainda mais sobrenatural às figuras. É real, mas não parece. Integra o cenário, mas parece montagem.










Kolašin
Sei que muitos dirão que governos, capitalistas ou socialistas, são perdulários quando se propõem a deixar um legado na história. Daí a expressão "obra faraônica". Mas não vou polemizar com os que defendem esse ponto de vista.












Tjentište
Aqui temos 26 monumentos iugoslavos abandonados à própria sorte, como se representassem o futuro que jamais existirá. Talvez falemos do retro-futurismo.












Makljen
Estas estruturas foram encomendadas pelo ex-presidente iugoslavo Josip Broz "Tito" entre 1960 e 70, para rememorar alguns locais de batalhas da Segunda Guerra Mundial (como Tjentište, Kozara e Kadinjača), ou campos de concentração (como Jasenovac e NIS).










Knin
Eles foram concebidos por diferentes escultores (Dušan Džamonja, Vojin Bakic, Miodrag Zivkovic, Jordan e Iskra Grabul, para citar alguns) e arquitetos (Bogdan Bogdanović, Gradimir Medaković ...), transmitindo um impacto visual poderoso, para mostrar a confiança e a força da República Socialista.









Korenica
Na década de 1980, estes monumentos atraíram milhões de visitantes, sobretudo jovens ciosos de sua "educação patriótica". Depois que a Federação de Repúblicas se dissolveu, no início de 1990, eles foram completamente abandonados, e seus significados simbólicos perdidos na eternidade.









Košute
De 2006 a 2009, o fotógrafo Jan Kempenaers excursionou pela ex-Iugoslávia (atual Croácia, Sérvia, Eslovênia, Bósnia e Herzegovina, etc) com a ajuda de um mapa de 1975 de memoriais, trazendo diante de nossos olhos uma série de imagens melancólicas e ainda impressionantes.










Niš
Suas fotos levantam uma questão: esses monumentos continuam a existir como esculturas puras? Por um lado, sua condição física e institucional, dilapidada e negligenciada, refletem uma abordagem geral da fratura social histórica que aquele povo sofreu. Por outro lado, eles ainda são de uma beleza estonteante, sem qualquer significado simbólico.








Sanski Most
Numa interpretação poética da história, para as novas gerações, fica a idéia de que os socialistas foram gigantes que habitaram a terra em tempos imemoriais. Seres miológicos que seguiam a lógica dos criadores de Stonehenge ou Averbury, por exemplo?










Jasenovac
A idéia de marcar a história, de deixar um legado superior à perenidade da vida. Expressividade e solenidade combinadas. Surpreende que ainda tenham tenham sido pano de fundo para algum filme de ficção científica.











Ilirska Bistrica
Já numa interpretação mais materialista, condizente com a conjuntura marxista em que foram criadas, talvez estejam aí apenas cumprindo seu propósito: se deteriorar naturalmente, pois o tempo passa.












Grmeč
É realmente fantástico, pois elas já não servem qualquer declaração política, e acabam por encontrar sua função real: meditar sobre a condição humana. Suscitar a reflexão de que nada detém o trem da história











Kozara
Capas de disco de rock progressivo em potencial, bem ao estilo do The Division Bell, do Pink Floyd, o estado de abandono destes monumentos confere algum charme; afinal, alarmante seria se as pessoas se importassem com eles.











Kruševo
Há uma obra que guarda alguma semelhança visual na Bulgaria. Mas as significações são inteiramente distintas.
http://www.buzludja.com/












Tjentište
Infelizmente, estes pontos permaneceram quase que no anonimato para nós, ocidentais com poucos ou nenhum acesso às coisas do Leste Europeu. Aprendemos simplesmente a temê-los. Estes locais jamais fariam parte de best sellers como "1001 lugares para visitar antes de morrer" ou coisa que o valha.










Kosmaj
Uma imagem vale mil palavras - Confúcio















Petrova Gora
A grana que ergue e destrói coisas belas. O irônico é que esse exemplar hoje abriga uma torre de celular em seu cume.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

CAVALEIRO DA ESPERANÇA

Nessa fase da minha vida, procuro por coisas que façam sentido. Viver uma vida inteira e depois se perguntar: “Pra quê?”, é um destino vil, inglório, que não desejo para ninguém. Nesse mar tormentoso, nesse universo de cegos, talvez o exemplo possa nos guiar. E escolho como exemplo alguém que desde sempre admirei.
A vida de Prestes é icônica em termos de vontade, fibra moral, princípios e coerência. Será que ainda se fazem homens como antigamente? Natural de Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro em tenra idade. Órfão de pai, foi criado pelo esforço e suor da mãe. Adolescente sem recursos ingressou na gratuita Escola Militar do Realengo. Ao fim do curso, eleito o melhor da classe, torna-se tenente. E depois capitão, aos 23 anos. O mais jovem da história do Exército Brasileiro. Foi transferido para Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, onde aflorou sua indignação com a situação do povo, e do país, governado por Arthur Bernardes.
Em 1924, aos 26 anos, pede demissão do Exército. Pediu demissão, sem exigir indenização ou aceitar qualquer recompensa. Em ato vingativo e torpe, que maculou ainda mais uma vez sua história, o Exército publicou a sua expulsão. É lógico que no arquivo da instituição já constava a demissão a pedido do capitão. Logo, o Exército estava expulsando alguém que não poderia ser expulso, pois já se revertera, voluntariamente, à condição de civil.
Nesse interregno, lá no Sul, forma um grupo de militares que compactuava com suas ideias. Obtém o apoio de outras regiões. De 1924 a 1926 lidera a mítica Coluna Prestes, que combatia a República Velha e, entre outras bandeiras, defendia reformas sociais, como o ensino público universal, e políticas, como o fim do voto de cabresto.
Em dois anos percorreram 25 mil quilômetros do nosso território. A marcha inspirou tempos depois Mao Tsé-tung, pois seu intento era revolucionar a nação a partir do interior. Em cada localidade, denunciavam a miséria da população e o poder opressor das oligarquias locais. Recebeu a patente popular que o acompanharia dali em diante: Cavaleiro da Esperança. Contudo, o apoio popular não foi suficiente. Diante do cerco do Exército, parte da Coluna se exilou na Bolívia. Entre eles, Prestes, que lá começaria a estudar com profundidade o marxismo.
Em 1930, Siqueira Campos e João Alberto, foram a Montevidéu (onde Prestes morava, depois do exílio boliviano), convidá-lo a chefiar a “Revolução de 30”, que já era favas contadas. Prestes poderia ter comandado a Revolução, assumido o Poder, e nessas condições, mudado os rumos do país. Mas ele indagou aos perplexos ex-companheiros da brava Coluna: “A Revolução é comunista?” A dita revolução não era nada disso; na verdade era burguesa, aristocrática e reacionária, e por isso ele recusou. Sequer admitiu a hipótese, considerava traição. Em resposta à plataforma varguista, e suas concessões ao voto secreto e avanços socias, lançou o Manifesto Comunista em 29 de maio de 1930. Não só rompia com seus ex-companheiros da Coluna que haviam aderido a Getúlio como, além de rotular o programa como "anódino", denunciou-o como uma manobra neo-oligárquica.
Em 1931, foi à União Soviética. Voltou em 1935, trazendo Olga Benário, uma judia alemã tão doce quanto revolucionária e que foi o grande amor da sua vida. Integrou-se definitivamente ao PCB, e tornou-se líder da ANL, que reunia a esquerda oposicionista a Vargas.
Após conflitos no Nordeste, Prestes ordena que a revolta se propague pelo País. Combates eclodem no Rio e no Recife, num episódio que entrou para a história como a Intentona Comunista. Quixotesca, sem recursos, praticamente existindo apenas no interior da Paraíba, Rio Grande do Norte e no Rio, no 3º RI (Onde hoje existe um monumento, na Praia Vermelha).
O governo age com extrema violência para combater os revoltosos. Capturados pela polícia, Prestes e Olga descobrem que terão um filho. Ainda assim, Getulio envia Olga para a Alemanha, onde encerra seus dias no campo de concentração. A criança, batizada Anita Leocádia, sobreviveu e foi criada por sua avó paterna.
Já Prestes foi levado para a Polícia Central, onde ficou sob jugo do antigo companheiro de coluna, Filinto Muller. Foi um dos brasileiros mais torturados de todos os tempos, ficando num vão de escada até 1940. (Só saía para os julgamentos no Tribunal de Segurança Nacional). Nesse ano, graças à adesão do Brasil às forças aliadas, o governo soviético solicitou ao Brasil a libertação dele. Vargas não atendeu, mas o transferiu para a Penitenciária Frei Caneca, onde ficou até 1945.
Após nove anos de cárcere, Prestes deixa a prisão, época em que o PCB desfrutou um breve período de legalidade. Em comemoração, o partido organizou um grande evento no Pacaembu, em São Paulo. Cem mil pessoas se acotovelaram para ouvir o discurso do líder recém-liberto. “Organizemos as grandes massas trabalhadoras da cidade e do campo, fazendo uso das armas da democracia: livre discussão, livre associação de ideias e sufrágio universal”, clamou a um público hipnotizado.

Entre os presentes, meu avô (que já foi tema de uns posts atrás) e o poeta chileno Pablo Neruda, que leu um histórico poema em sua homenagem.
Pouco depois, Prestes elege-se senador da república (o mais votado do país), dividindo a bancada com outros 14 comunistas, entre os quais Jorge Amado, Carlos Marighella e João Amazonas. É atuante e influencia a Constituição de 1946, tida como a mais progressista da história.
Em Janeiro de 1950, Getulio Vargas pede apoio a Prestes para sua candidatura à presidência. Apesar dos anos passados, era o mesmo político que o havia mandado à prisão, proibido a existência de seu partido e, mais grave, enviado seu único amor ao holocausto. A resposta surpreendeu a companheiros e inimigos: “Não posso colocar os meus dramas pessoais acima dos interesses do partido. Aceito apoiá-lo.”
Após o golpe militar de 1964, Prestes tem os direitos civis novamente revogados. Parte novamente para a União Soviética, onde fica até 1979. Na volta, encontra um país mudado. Inclusive os próprios companheiros. A cúpula do PCB não o reconhecia mais como líder. Achava suas ideias atrasadas. Numa entrevista, disparou: “O partido comunista não é mais comunista. De comunista só tem o nome.” Laconicamente, é afastado do partidão e encontra guarida no PDT, de Leonel Brizola.
Em 1989, mostrando mais uma vez a firmeza de seu caráter, apóia a candidatura de Lula. Me levam às lágrimas, mesmo enquanto escrevo esse arremedo de biografia, a lembrança da imagem daquele senhor, já quase centenário, com o microfone em punho, conclamando seus concidadãos a se darem uma chance de finalmente exercer o poder, luta pela qual ele dedicou sua vida inteira.

Durante mais de 60 anos, Luís Carlos Prestes doou sua energia aos ideais em que acreditava. Comprometeu-se até a raiz com o sentido de justiça e igualdade que conheceu durante a vida e compreendeu após estudar com todo afinco as causas da desigualdade. Em uma de suas últimas entrevistas, em 1986, um jornalista perguntou se não se sentia frustrado por ter devotado tanto tempo a um ideal, ter sido preso, exilado, e não ter visto mudanças significativas no País. “Absolutamente. A transformação é um processo demorado, um processo longo. Leva tempo para convencer a classe operária que ela deve assumir um papel dirigente na luta por uma nova sociedade.”
Mais interessante que os elogios, são as críticas que Prestes recebeu durante sua trajetória política, confirmando a tenacidade e perseverança com que defendeu seus ideais. Nessa passagem, Voltaire Schilling avalia seu comportamento no episódio de 1930 (o convite para chefiar a revolução): “Para Prestes, num dos seus tantos abismais erros políticos, Washington Luís ou Vargas, dava na mesma. Não passava de "uma mudança de homens". Somente uma "verdadeira insurreição generalizada"..."das mais vastas massas", aferrou-se o Cavaleiro da Esperança, é que daria fim ao domínio dos proprietários fundiários e do imperialismo. Propôs então, a lá soviética, "um governo de todos os trabalhadores...baseado nos conselhos de trabalhadores...soldados e marinheiros...". Enquanto isso Vargas, depois de chefe vitorioso do Movimento 3 de Outubro de 1930, era confirmado como presidente constitucional em 1934.”
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2004/08/26/001.htm
Já Hélio Fernandes se refere a ele dessa forma: Luiz Carlos Prestes pode sofrer críticas, mas nada em matéria pessoal (...) errou em todas as posições políticas ou em atos que dependiam exclusivamente de sua vontade, mas errou CONTRA ELE MESMO, não se beneficiou de coisa alguma. Ele sempre disse: “Os interesses pessoais não podem prevalecer acima de qualquer coisa, e prejudicar a coletividade” E cumpriu na prática o que pregava na teoria. E sobre o apoio dado a Getulio, depois de ter sido seviciado de todas formas, Hélio Fernandes diz: Nesse ano, a ditadura ameaçadíssima, Vargas soltou Prestes. E este assombrosamente, passou a defender a CONSTITUINTE COM VARGAS. Um disparate completo, Prestes ERRAVA TOTALMENTE, mas por convicção. Logo depois de solto, outra violenta contradição de Prestes, mas como sempre coerente com suas idéias. Foi fazer um comício no Estádio do Vasco, (ainda não existia o Maracanã), uma multidão foi ouvi-lo e saiu de lá chorando. Prestes criticou o próprio povo, afirmou: “Vocês estão se aburguesando, só pensam num rádio novo e mais potente ou em geladeira”. (Textual)
http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=6412
O Cavaleiro da Esperança morreu em 7 de março de 1990 no Rio. No mesmo dia, um de seus sonhos foi realizado: a Justiça Eleitoral concedeu o registro definitivo ao PCB.


O Poema “Mensagem”, de Pablo Neruda
http://www.fmauriciograbois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=53&id_noticia=1722

Quantas coisas quisera hoje dizer, brasileiros,
quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias,
que levei anos e anos no coração para dizer-vos, pensamentos
e saudações. Saudações das neves andinas,
saudações do Oceano Pacífico, palavras que me disseram
ao passar os operários, os mineiros, os pedreiros, todos
os povoadores de minha pátria longínqua.
Que me disse a neve, a nuvem, a bandeira?
Que segredo me disse o marinheiro?
Que me disse a menina pequenina dando-me espigas?

Uma mensagem tinham. Era: Cumprimenta Prestes.
Procura-o, me diziam, na selva ou no rio.
Aparta suas prisões, procura sua cela, chama.
E se não te deixam falar-lhe, olha-o até cansar-te
e nos conta amanhã o que viste.

Hoje estou orgulhoso de vê-lo rodeado
por um mar de corações vitoriosos.
Vou dizer ao Chile: Eu o saudei na viração
das bandeiras livres de seu povo.

Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite
falei à multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha Republicana, para o povo em sua luta.
A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.
Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe
e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha lutam, morrem,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América, são irmãos
de Bolívar, de O' Higgins, de San Martín, de Prestes.
E quando disse o nome de Prestes foi como um rumor imenso.
no ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de olhos úmidos
olhavam para o futuro do Brasil e para a Espanha.

Vou contar-vos outra pequena história.

Junto às grandes minas de carvão, que avançam sob o mar,
no Chile, no frio porto de Talcahuano,
chegou uma vez, faz tempos, um cargueiro soviético.
Quando a noite chegou
vieram aos milhares os mineiros, das grandes minas,
homens, mulheres, meninos, e das colinas,
com suas pequenas lâmpadas mineiras,
a noite toda fizeram sinais, acendendo e apagando,
para o navio que vinha dos portos soviéticos.

Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas, as lâmpadas do povo.
Também hoje, de todos os rincões
da nossa América, do México livre, do Peru sedento,
de Cuba, da Argentina populosa,
do Uruguai, refúgio de irmãos asilados,
o povo te saúda, Prestes, com suas pequenas lâmpadas
em que brilham as altas esperanças do homem.
Por isso me mandaram, pelo vento da América,
para que te olhasse e logo lhes contasse
como eras, que dizia o seu capitão calado
por tantos anos duros de solidão e sombra.

Vou dizer-lhe que não guardas ódio.
Que só desejas que a tua pátria viva.
E que a liberdade cresça no fundo
do Brasil como árvore eterna.

Eu quisera contar-te, Brasil, muitas coisas caladas,
carregadas por estes anos entre a pele e a alma,
sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer
o poeta e o povo: fica para outra vez, um dia.

Peço hoje um grande silêncio de vulcões e rios.
Um grande silêncio peço de terras e varões.
Peço silêncio à América da neve ao pampa.
Silêncio: com a palavra o Capitão do Povo.
Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.

Por fim, a carta daquela sobrevivente do holocausto, Anita Leocádia Prestes, publicada em janeiro de 2010, no auge da celeuma sobre o pagamento de anistias aos perseguidos políticos.
http://prestesaressurgir.blogspot.com/2010/01/carta-de-anita-prestes-o-globo.html

Tendo em vista matéria publicada em “O Globo” de hoje (p.4), intitulada “Comissão aprovará novas indenizações” e na qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, devo esclarecer o seguinte:
Luiz Carlos Prestes sempre se opôs à sua reintegração no Exército brasileiro, tendo duas vezes se demitido e uma vez sido expulso do mesmo. Também nunca aceitou receber qualquer indenização governamental; assim, recusou pensão que lhe fora concedida pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Sr. Saturnino Braga.
A reintegração do meu pai ao Exército no posto de coronel e a concessão de pensão à família constitui, portanto, um desrespeito à sua vontade e à sua memória. Por essa razão, recusei a parte de sua pensão que me caberia.
Da mesma forma, não considerei justo receber a indenização de cem mil reais que me foi concedida pela Comissão de Anistia, quantia que doei publicamente ao Instituto Nacional do Câncer.
Considerando o direito, que a legislação brasileira me confere, de defesa da memória do meu pai, espero que esta carta seja publicada com o mesmo destaque da matéria referida.
Atenciosamente,
Anita Leocádia Prestes

sexta-feira, 1 de abril de 2011

REAL, BUT SAD, POLITIK

I can't believe the news today
I can't close my eyes and make it go away.
How long...
How long must we sing this song?
How long, how long?*

As imagens de 40 anos atrás continuam vívidas nas íris de todo cidadão brasileiro. São marcas indeléveis no corpo nacional. Feridas que não cicatrizam. O golpe alterou para sempre os destino de todos nós, até mesmo daqueles que sequer existiam.
Personagens heróicos, dados a voluntariedade, a retidão de caráter, a fibra e a defesa de ideais, caçados como animais e empalados em praça pública, de forma exemplar.
Personagens infames, metendo o coturno na cara da sociedade, com todo escárnio e desprezo pela humanidade, com o escopo de manter a ordem e acelerar o progresso. Infelizmente, milhares de outros personagens, hoje em dia tratados como heróicos ou infames, graças às circunstâncias criadas nesse purgatório terrestre.
Uma ínfima parcela da sociedade conhecia os fundamentos do comunismo. (aliás, nesse aspecto, pouco coisa mudou!). Pois os golpistas utilizaram a velha artimanha de instigar o pavor ao desconhecido para tentar alguma adesão, algum respaldo. Ao invés de levar luz onde há trevas, conhecimento onde há ignorância, leva-se o medo, e mantém-se a dominação, intelectual e física. A grande massa, circunstancialmente covarde, se omitiu.
Mesmo assim, foram repudiados pelo povo. Jamais houve uma manifestação popular tem apoio ao regime de exceção. Os desfiles de 7 de setembro lembravam o totalitarismo nazi-fascista. Vaquinhas de presépio, acuadas, aplaudiam comedidamente o passar dos tanques, que por qualquer motivo, poderiam esmagá-los instantes depois. Multidão reunida? Só pelas diretas...
Não menos culpados foram os “intelectuais” que tentaram dar um quê de racionalidade naquela estupidez. Bob Fields, Mário Henrique Simonssen, Delfim Netto. Jamais se aproximaram dos porões da ditadura. Jamais sujaram seus belos ternos, cortes impecáveis, com o sangue dos inocentes. Porém cometeram, não uma, mas várias vezes, o crime de lesa-pátria. Tornaram o FGTS um regime obrigatório, esfaqueando o suado salário do trabalhador. Revogaram a lei de remessa de lucros. Engessaram a reforma agrária, revertendo nosso campo para a exportação. Construíram obras faraônicas com o dinheiro público, e enriqueceram construtores, empreiteiros, conglomerados de mídia. Tornaram a corrupção uma instituição... Atrelaram definitivamente nossas vida à dívida externa. E ao FMI.
Um grande monumento à bestialidade humana. O autoritarismo, a tortura, a violência, o tacão dos tacanhos. DOI-CODI, Dops, as diversas tecnologias criadas para extrair confissões, e para retirar dignidade. Atentados contra civis, cavalos pisando homens. Arapongas, traidores, infiltrados. Repressão, mordaça, AI-5, truculência. Guerra Civil sob os auspícios de um milagre?! Não, não é para quem tem estômago fraco. É mais macabro que qualquer ficção. É mais mórbido do que qualquer adjetivo possa expressar.
Justificando o injustificável. Nos dias de hoje, os historiadores explicam os acontecimentos passados graças ao “despreparo” de Jango. Apontam um bode expiatório depois de perpetrada a carnificina. Oprimem, como fizeram idos atrás os golpistas, e como fazem hoje os organizadores da divisão social do trabalho, com a reengenharia. Como estes, fundam uma nova “ciência”: a Rehistória.



Ninguém Lê.com.br – Porque temos memória

(*)
Eu não posso acreditar nas notícias de hoje
Eu não posso fechar os olhos e fazê-las desaparecer.
Quanto tempo...
Quanto tempo teremos de cantar esta canção?
Quanto tempo, Quanto tempo?


Escrito por Holden Caulfield, em 31/03/2004 às 21h43, quando as coisas faziam mais sentido.
http://ninguemle.zip.net/arch2004-03-28_2004-04-03.html

quarta-feira, 9 de março de 2011

SERÁ QUE SOU PETISTA?

Minha história de vida petista começou muito antes do meu nascimento e do nascimento do Presidente Lula.
Meu pai era um trabalhador (sem barba, porém de bigodes) que liderava os movimentos grevistas na linha da antiga Estrada de Ferro Sorocabana. Ao seu comando a linha parava entre São Paulo e Presidente Epitácio.
Ele deu muito trabalho ao interventor paulista, Ademar de Barros. Tanto que um belo dia foi chamado pelo dito cujo e recebeu uma proposta irrecusável: salário 100 vezes maior do que o de maquinista de trens e cargo de diretoria. Para aceitar a oferta, coincidentemente meu pai apresentou uma pauta de 13 reivindicações. Estas representavam melhorias profissionais de toda sorte para seus companheiros. Após uma semana, meu pai foi novamente chamado e da pauta apresentada o interventor aprovou 11 itens, deixando apenas 2 de fora. Como se tratava de coisas muito significativas para os trabalhadores, meu pai avisou que não abria mão dos pedidos e deixou então de ser diretor com direito a muitas mordomias, voltando a viver entre os companheiros, na luta de cada dia. Liderou muitas passeatas junto com minha mãe, clamando por Assembléia Constituinte.
Na Constituinte de 46 o então Secretário Geral do partidão em São Paulo foi eleito deputado federal. Sofreu então uma grande desilusão. Afinal, meu pai era um trabalhador de poucas letras e seus companheiros de bancada não quiseram aceitar um “analfabeto” na Constituinte.
Meu pai foi convidado a renunciar em favor de seu suplente e xará, Dr. Mario Cayres de Brito, um médico.
Deixou a cena política e voltou-se apenas para a família a partir de então. Seis anos depois eu nasci. Pelo berço que tive, fica claro que política já estava no meu sangue. Mas veio 1964, eu estudante do então 2º grau (ginásio) fui amordaçada e tive que conter todos os meus anseios.
Já no Curso Clássico, a pedido da professora de literatura, um trabalho que implicava em comentar e analisar (sob o aspecto literário) uma notícia de jornal, escolhi a cobertura feita pela então FSP sobre os ataques sofridos pelos estudantes no Mackenzie, sob o comando vociferante do Cel. Erasmo Dias (que o diabo o tenha!).
Fui chamada atenção para não repetir tal ousadia, mas ao mesmo tempo “alguém” me procurou e a partir de então estava engajada no movimento estudantil que agia na surdina, no ABC.
Somente ao encontrar o companheiro que liderava nossa célula, depois de ter sido apanhado e torturado no Dói-Cod (o codinome dele era Ricardo, e vc Ricardo que abriu este tópico tem posicionamentos que lembram dele) fiquei, confesso muito assustada. Eu era uma criança, ainda nem tinha 18 anos.
Os encontros foram se arrefecendo, pois todos se apavoraram, a ditadura recrudesceu. Eram tempos sombrios. Li a obra do Jorge Amado (que fora amigo do meu pai) chamada Os Subterrâneos da Liberdade. Vi a vida que a jovem Mariana enfrentou e recolhi as armas. Éramos poucos e desarmados. Coquetéis molotov feitos no quintal de casa, nunca seriam em quantidade suficiente, até porque não se tinha onde estocar.
O tempo passou. Lá de São Bernardo vinha uma voz que entoava liberdade nas entrelinhas das suas falas. A igreja saiu da moita. Enfim vieram as diretas e tudo o mais é muito recente.
Aquela voz que clamava por liberdade, tinha uma história de vida tão parecida com a de meu pai...
Acabei transferindo para ele tudo o que sentia pelo meu querido pai, já falecido há muitos anos.
Tem sido um amor incondicional.
Sou do time: O Lula é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!
Eu nunca me filiei ao partido, mas voto nele em todas as eleições. Faço campanha, carreata, buzinaço, adesivaço e tudo o mais que o partido promova. Ah! Também fiz dois petistas atuantes nos movimentos sindicais de suas categorias.
Será que eu sou petista?

Norma Scott
(São Paulo, 18/05/1951 - Goiânia, 17/02/2011)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Rendo Minhas Homenagens.

A Nobre mãe dos maiores aglutinadores deste Blog.

Não porque era mãe destes, mas sim porque era mais atuante e questionadora do que eu.

Apesar der ser um dos que incentivaram a idéia do Blog, jamais fui tão comprometido em comentar os POSTs seja os criticado ou os elogiado.

Apesar de lamentar o falecimento da Camarada, desejo que onde estiver continue questionando de forma coerente como sempre o fez.

DESCANSE EM PAZ SEM NUNCA ESQUECER OS COMPANHEIROS.

VIVA A CAMARADA Norma Scoot.

SAUDAÇÕES FRATERNAS A TODOS QUE ACOMPANHA ESTE BLOG.

RELTON LEANDRO.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

VIDA DE GADO

Já deu no saco a reclamação de que eu não tenho acesso à internet. Azar o meu. Mesmo assim, continuarei reclamando. As coisas nem sempre devem ser boas. Ou, como disse o Romário, nem sempre mais é melhor.
Pensei que não viveria para assistir o Partido dos Trabalhadores fazer tanto empenho para limitar o aumento do salário mínimo. E, pior, as desculpas são iguais as que eram usadas tempos atrás, quando 100 mil marchávamos a Brasília para brandir:

"Fora já;
Fora já daqui;
Fora FHC
e o FMI!"

1984, do Orwell, termina com o olhar daqueles que estão excluídos do banquete, mas que o assistem pela janela. E já não conseguem distinguir os homens dos porcos.
Não serei tão impiedoso, pois reconheço os avanços do governo petista. Também não cairei na esparrela de acreditar na nobreza de propósitos da oposição, acenando com a promessa de campanha do Serra, de R$ 600,00.
Vejo o lado das centrais sindicais, que são um arremedo da classe trabalhadora organizada, mas ainda assim a única voz a clamar pelos geradores da riqueza da nação, que calculam R$ 580,00 uma medida plausível. E acordos, concordo, são tratados levando-se em conta as circunstâncias. Lula, como sindicalista, rompeu vários acordos com os patrões.
Não dá para ser complacente com que não tem sequer o tato para arredondar R$ 550,00. É muito economicismo, monetarismo e o caralho de asa para quem se colocou ao lado do povo na hora de pedir votos.
R$ 35,00 de excedente é a possibilidade de progresso para muitas famílias. É a possibilidade de enriquecer de proteína a dieta espartana. Um livro. Contudo, a classe merdia não vê diferença: essa grana não paga o cinema no shopping. E é essa a sensibilidade que guia nossa classe dirigente.

...

Ainda há o Egito, cujo desfecho de sua "revolução", com transição controlada por milicos, me deixou decepcionado.
Em geral, os povos mantêm orgulho de suas tradições gloriosas. Extraí essa regra geral de alguns casos particulares. Nada sacia mais o saudosismo português do que falar das grandes navegações. Os séculos XV e XVI são considerados "de ouro" por nossos patrícios lusos. A melancolia de um português constantando que os tempos áureos não voltarão, é tocante.
Num outro nível, nunca nos sentimos tão brasileiros quando falamos de futebol. Entre os argentinos, isso também fica evidente.
E por aí vai... Asterix é um ídolo francês, a Itália ainda conta os feitos notáveis do Império Romano, gregos citam aforismos de Platão, Aristóteles, além dos clássicos do teatro. No filme Casamento Grego, o pai da noiva consternado diz que os americanos ainda subiam em árvores quando seus ascendentes já faziam filosofia.
Era nessa escala de grandeza histórica que eu imagina a queda de Mubarak e o florescer de uma nova era... Mas não aconteceu, e na falta de palavras, cito algumas copiadas do "Anais Políticos":

...

"Em outras palavras, o exército cuidará de não mudar nada.
E o povo, massa de manobra como sempre, ainda aplaudirá."

...

"... os governos fazem isso. Colocam uma idéia monstruosa numa embalagem bonita, e empurram goela abaixo do cidadão. Exatamente como os EUA, o Brasil e tantos outros países, fizeram (e fazem) por muito tempo. A América é o caso mais gritante. Vendem 'democracia' como sendo a panacéia, mas o que entregam para o povo é um governo fajuto voltado aos interesses de meia dúzia. Democracia que é bom, nada."

...

"O povo se cansou de Mubarak, mas foi uma daquelas revoluções que nascem de um estopim nada a ver. O povo estava normal até outro dia. e por algum motivo vindo da Tunísia, resolveu subir nas tamancas. Tudo isso significa dizer que o povo do Egito será novamente, engambelado. Só haverá eleição lisa, se houver muito sangue nas ruas. Caso contário, nada feito."

Não vou postar foto, nem vídeo, nem nada que suavize minha amargura ou torne a leitura mais agradável. Nem sempre mais é melhor.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

CAÍ NO MUNDO E NÃO SEI COMO VOLTAR



O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco… Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos, pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis! Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.

Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta. O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades. Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para usar uma só vez. Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!

É mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça. E acontece que em nosso, nem tão longo matrimônio, tivemos mais cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e
trocamos de refrigerador três vezes. Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca, se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar.

Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.



Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? o afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade. Quem tem menos de 30 aos não vai acreditar: quando eu era pequeno, pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de … anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava...

Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor…. É que não é fácil para uma pobre pessoa, que educaram com “guarde e guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa”, mudar para o “compre e jogue fora que já vem um novo modelo”. Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário, és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado…

E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas… por amor de Deus!

Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real. E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma mulher, a mesma e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar).

Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir. Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas? Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos…
Como guardávamos!! Tuuuudo!!! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!! Como, para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette – até partidas ao meio – se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis. Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar. Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de carne!!! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia “esta é um 4 de bastos”.

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo. Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem ‘matá-los’ tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!
E quando nos venderam so rvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em base, e nos disseram: ‘Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora’, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!! Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são
descartáveis; também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objectos com pessoas.

Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer. Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco e ao caduco fizeram eterno.

Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se
discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.
Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à ‘bruxa’, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a ‘bruxa’ me ganhe a mão e seja eu o entregue.







Autoria atribuída a Eduardo Galeano, jornalista uruguaio, escritor de "As veias abertas da América Latina"




domingo, 23 de janeiro de 2011

IDEALISMO NÃO REMUNERADO


por TIMOTHY GARTON ASH
tradução de TEREZINHA MARTINO

A Wikipédia completou dez anos ontem. É o quinto website mais visitado na internet. Mensalmente, cerca de 400 milhões de pessoas utilizam seus dados. Aposto que muitos leitores desta coluna estão entre elas. Você quer checar alguma coisa, entra no Google e, então, com mais frequência ou não, escolhe o link Wikipédia como o melhor caminho para sua pesquisa.
O que é extraordinário nessa enciclopédia livre, que contém hoje mais de 17 milhões de artigos em mais de 270 línguas, é que ela é quase que inteiramente escrita, editada e autorregulamentada por voluntários não pagos. Todos os outros websites também muito visitados são empreendimentos multibilionários. O Facebook, com 100 milhões a mais de usuários, está avaliado em US$ 50 bilhões.
Visite o Google no Vale do Silício e vai se encontrar num vasto complexo de edifícios de escritórios modernos, como a capital de uma superpotência. Ali pode existir ainda algumas peças divertidas de Lego no saguão, mas você terá de assinar um acordo de confidencialidade para passar pela porta de entrada. A linguagem dos executivos do Google gira estranhamente entre a de um secretário-geral da ONU e a de um vendedor de carros. Num momento falam de direitos humanos universais para, em seguida, discutirem o "lançamento de um novo produto".
A Wikipédia, ao contrário, é supervisionada por uma fundação não lucrativa. A Fundação Wikimedia ocupa um andar de um prédio comercial anônimo no centro de San Francisco . Você precisa bater forte na porta para alguém vir abrir. Dentro, a sensação que se tem é exatamente do que ela é: uma modesta organização não governamental internacional.
Se o principal arquiteto da Wikipédia, Jimmy Wales, tivesse escolhido comercializar a empresa, hoje estaria bilionário - como Mark Zuckerberg, do Facebook. Colocar a Wikipédia sob a égide de uma organização não lucrativa foi, disse-me Jimmy, ao mesmo tempo a mais estúpida e a mais inteligente ideia que teve. Mais do que qualquer outro importante site global, a Wikipédia exala o idealismo utópico dos heróis da internet nos seus primeiros dias. Os "wikipédios", como eles se chamam, são homens e mulheres com uma missão. E essa missão está resumida na seguinte frase, que poderia ter sido de John Lennon, mas foi dita pelo homem que todos chamam de Jimmy: "Imagine um mundo em que todas as pessoas do planeta têm livre acesso à soma de todo conhecimento humano".
Achar que este objetivo utópico poderia ser atingido por uma rede mundial de voluntários, trabalhando sem ganhar nada, editando todos os assuntos, com as palavras que digitam se tornando visíveis para o mundo todo, era, naturalmente, uma ideia completamente maluca. Mas este exército maluco avançou extraordinariamente em apenas dez anos.
A Wikipédia ainda tem grandes deficiências. Os artigos variam muito, em termos de qualidade, de um tema para outro e de língua para língua.
Muitos dos artigos sobre personalidades são irregulares e desproporcionais. E isso ocorre porque depende muito de que um ou dois wikipédios sejam genuinamente conhecedores daquele assunto e língua particulares. Eles podem ser surpreendentemente bons em pontos obscuros da cultura popular, e muito fracos em algumas áreas de interesse dominante. Nas versões mais antigas (em inglês e alemão, por exemplo) as comunidades editoriais voluntárias, apoiadas por uma pequena equipe da fundação, melhoraram muito os padrões de confiabilidade e capacidade de comprovação, especialmente insistindo nas notas de rodapé com links para as fontes.
Sei que você ainda deve sempre checar a informação encontrada ali antes de citá-la em algum contexto. Um artigo na New Yorker sobre a enciclopédia fez uma distinção interessante entre conhecimento útil e conhecimento confiável. Um dos maiores desafios da Wikipédia na próxima década é reduzir o máximo possível esse fosso que separa o útil e o confiável.
Outro grande desafio é levar este empreendimento para além do Ocidente pós-iluminista, onde nasceu e continua, na maior parte, alojado. Um especialista disse-me que 80% de tudo o que é editado pela Wikipédia provém do mundo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico da ONU. A meta da fundação é chegar a 680 milhões de usuários em 2015 e espera que grande parte desse crescimento seja em lugares como Índia, Brasil e Oriente Médio.
Mas o enigma não é porque o site ainda tem claras deficiências, mas porque ele tem funcionado tão bem. Os wikipédios dão várias explicações para isso. A Wikipédia chegou relativamente cedo, quando não existia esse número incontável de sites para os usuários da internet passarem o tempo. Uma enciclopédia trata (principalmente) de fatos verificáveis, em vez de trazer meras opiniões - comuns na blogosfera. E, sobretudo, ela teve sorte com suas comunidades de editores colaboradores. Diante da escala do projeto, a equipe de editores regulares é muito pequena.



Colaboração. Cerca de 100 mil pessoas colaboram em mais de 5 edições no mês, mas as grandes Wikipédias, mais antigas, como aquelas em inglês, alemão, francês ou polonês, são apoiadas por um grupo minúsculo de talvez 15 mil pessoas, cada uma oferecendo mais de 100 colaborações por mês. Na maior parte são jovens, solteiros e muito instruídos.
Como muitos dos sites globais conhecidos, a Wikipédia tem a vantagem de estar sediada no que o seu conselheiro Mike Godwin descreve como "o oásis da liberdade de expressão chamado EUA". Todas as enciclopédias em línguas diferentes, não importa onde seus editores vivem e trabalham, são fisicamente hospedadas nos servidores da fundação nos EUA. E têm as proteções legais oferecidas pelas leis americanas de liberdade de expressão.
Civilidade é um dos cinco pilares da Wikipédia. Desde o início, Jimmy diz que deve ser possível combinar honestidade com boas maneiras. Indivíduos mal-educados são contatados e o problema é debatido com eles. Depois, eles são advertidos antes de, caso persistam, serem banidos. Se uma comunidade de uma língua for além da conta, a fundação tem poder para eliminar seus disparates do servidor. (A Wikipédia é uma marca protegida legalmente, enquanto que os Wiki alguma coisa não o são; é o caso do WikiLeaks, que não tem nada a ver com a Wikipédia nem é um wiki).
Não sabemos se o ataque a tiros em Tucson, Arizona, foi diretamente um produto da incivilidade corrosiva do discurso político americano, como ouvimos nas entrevistas de rádio e TV. Um louco pode ser simplesmente louco. Mas essa virulência política diária que observamos nos EUA é um fato inegável.
Diante desse pano de fundo deprimente, é bom comemorar uma invenção americana que, apesar de todas as suas falhas, tenta difundir pelo mundo uma combinação de idealismo não remunerado, conhecimento e uma obstinada civilidade.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110116/not_imp666844,0.php

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ALDEIA GAULESA CELEBRA 80 ANOS DE COMUNISMO

Estamos no ano 2011 depois de Cristo. Toda a França foi tomada por governos não comunistas. Toda? Não! Um município governado por irredutíveis comunistas ainda resiste. A comuna de Ivry-sur-Seine, apenas cinco quilômetros ao norte de Paris e parte da região metropolitana da capital francesa, resiste ao enfraquecimento do comunismo como força política na Europa e ao encolhimento do próprio PCF (Partido Comunista Francês) – ao qual são filiados os prefeitos da cidade desde os anos 1920.

Naquela época, quando os efeitos da Primeira Guerra Mundial ainda eram sentidos, mais de 20 municípios da periferia parisiense aderiram ao comunismo. Formando um entorno sobre a capital da França, essas cidades seriam historicamente conhecidas como “cinturão vermelho” ou “periferia vermelha”. E Ivry, particularmente, é hoje uma das gestões comunistas mais antigas e duradouras do mundo, interrompida apenas pela presença nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Alguns dos elementos para compreender essa longa trajetória comunista se encontram já nas primeiras gestões munícipais. Os fenômenos de transformação urbana e as metamorfoses das comunas que cresciam ao redor de Paris eram uma questão fundamental e exigiam uma resposta administrativa nova na vida política francesa. Para o historiador Emmanuel Bellanger, pesquisador do Centro de História Social do Século XX, ligado à Sorbonne, o fenômeno “contribuiu para radicalizar a expressão política francesa e, em particular, reforçar uma nova radicalidade na periferia de Paris”.

Em 1925, o relojoeiro George Marrane, membro do PCF, assumiu pela primeira vez a prefeitura de Ivry. Na época, ele já era membro da central sindical CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) e fazia parte do conselho de administração do jornal comunista L’Humanité. Foi prefeito da cidade desde então até 1965, menos no período de 1939 a 1945 – quando, em função da ocupação alemã na França, o Partido foi proibido no país. Antes de ser prefeito, Marrane já tinha combatido na Primeira Guerra quando assumiu e foi da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra.

Segundo Michèle Rault, chefe do serviço de documentação da prefeitura de Ivry, “Marrane deu prioridade aos principais temas da periferia e, em particular, à questão da habitação, que é importante até hoje”. Um bom exemplo dessa intervenção foi a criação do primeiro conjunto de moradias com aluguel moderado (HLM, na sigla em francês), em 1927, política que se tornou símbolo maior da administração comunista.

Crescimento

Na França, a atividade municipal se intensificou durante as duas guerras, os anos de ocupação nazista e desenvolveu toda sua potencialidade nos chamados “30 anos gloriosos” (1945-1974), período de grande crescimento econômico para a França. Com a libertação e o prestígio adquirido na Resistência, o PCF tornou-se uma grande força por muitas décadas. Como explica Rault, “as atividades para a infância, como as colônias de férias, as atividades esportivas, a educação e o conjunto dos serviços públicos constituem o centro das políticas desenvolvidas em Ivry, no pós-guerra”.

Outro fator que explica a continuidade dos mandatos comunistas em Ivry é a boa transição entre as gerações de políticos. Durante todo esse período, a cidade contou com apenas três prefeitos. Após Marrane, foi a vez do torneiro-mecânico Jacques Laloë assumir, em 1965. Ele participara da gestão de Marrane como o mais jovem político da França. Laloë exerceu suas funções por seis mandatos, até 1998, quando passou o cargo para Pierre Gosnat, o atual prefeito.


“Gosnat é filho de antigos militantes comunistas, neto de comunistas que foram eleitos em Ivry. Seu pai foi deputado, seu avô era um prefeito-adjunto já na primeira gestão comunista. A gente tem em Ivry uma coesão muito forte, mais forte que em outros municípios comunistas”, enfatiza Bellanger.

Desindustrialização

No entanto, as mudanças estruturais do país, começando ainda nos anos 1960 e se amplificando nas décadas de 1970 e 1980, foram parte da causa do enfraquecimento do partido.

“Um drama enfrentado pelas cidades foi o processo de desindustrialização. Assistimos a uma terceirização da economia e à passagem industrial para uma economia de serviços. Isso tem efeitos importantes, contribui para a pauperização de classes populares que não são formadas para se adaptar ao emprego terceirizado. Houve uma explosão do desemprego em cidades da periferia vermelha”, completa o pesquisador.

Em 1954, a cidade de Ivry – de perfil industrial desde o início do século XIX – tinha 54% de trabalhadores na indústria. Hoje, o setor acolhe apenas 19% da população economicamente ativa. Mesmo assim, Ivry ainda é um importante núcleo industrial da região metropolitana de Paris.

Invasão burguesa

Outro problema que a gestão comunista em Ivry tem de enfrentar também é o fenômeno de “aburguesamento” (também chamado de “gentrificação”) da região. Michèle Rault destaca “a importância de novos segmentos sociais que se formam com a instalação de pessoas com um poder aquisitivo maior. Essas pessoas não têm a mesma relação com o Partido Comunista”.

Uma parte significativa dessa nova população é composta por parisienses que se deslocam para a periferia próxima da cidade em função da explosão imobiliária da capital. O problema da moradia e sua importância na configuração social continua sendo uma agenda importante para a adminstração comunista. No plano político, segundo o historiador Boullager, “Ivry tem ainda hoje um importante setor popular” e, embora o PCF não tenha mais o monopólio do poder na periferia, o comunismo pode resistir, “nas cidades onde ele faz alianças com forças de esquerda. Eu penso que a unidade de diferentes famílias da esquerda vai ser reforçada pela vontade de barrar Sarkozy nas próximas eleições presidenciais. Essas alianças podem ajudar a reforçar também o comunismo nos municípios”.

Fonte: Opera Mundi
http://operamundi.uol.com.br/reportagens_especiais_ver.php?idConteudo=8631

domingo, 19 de dezembro de 2010

DANÇA DAS CADEIRAS

O mandato da nossa futura presidente, Dilma Rousseff, ainda não se iniciou, mas já enfrenta duras batalhas. Esse artigo, da lavra de Paulo Henrique Amorim, demonstra a falta que quadros como Márcio Pochmann e Samuel Guimarães irão fazer. Eu inclusive, fiz concurso para o IPEA, na virada de 2008, entusiasmado com a nova gestão do Instituto, mas não passei. Tudo isso para acomodar o PMDB, a "cota pessoal do Temer", e, o pior, o Palocci.

Militantes, da blogosfera ou não: foi para isso que lutamos?

http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/12/18/o-que-significa-a-saida-de-pochman-do-ipea-uma-tragedia/

No Estadão, na pág. A6, confirma-se a escolha de Nelson Johnbim – clique aqui para ler o artigo de Maierovitch sobre Johnbim e a bananeira – para a Defesa e de Wellington Moreira Franco para a Secretaria de Assuntos Estratégicos.
Clique aqui para ler o que este ordinário blog disse recentemente sobre este que o Brizola chamava de “gato angorá da ditadura”.
O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães sai de um posto em que contribuiu para fazer o que ninguém no Brasil faz, com consistência – com exceção da Chevron e da Embaixada americana – com a ajuda do Ministro Johbim.
Ou seja, pensar o Brasil no longo prazo, por um caminho que inclua os pobres e a soberania seja a base.
A saída de Pinheiro Guimarães significará, provavelmente, a saída de Marcio Pochman.
Marcio mudou o IPEA.
Estudou o novo perfil demográfico do país – e seus riscos.
A fragilidade de políticas sociais que não mexem com a distribuição da renda de forma significativa.
O Bolsa Família é ótimo.
Mas, a distribuição de renda muda muito pouco.
Pochman preocupa-se com a perda de poder econômico de São Paulo, que se tornou uma economia produtora de bens primários e produtos financeiros – indústrias que não empregam.
Marcio teme que, a longo prazo, esse seja o caminho do próprio Brasil, caso não se altere a relação de força do Real com o Dólar e, portanto, com a moeda chinesa, ao Dólar atrelada.
O Brasil vende comida à China e compra indústria da China.
Já que, segundo Pochman, o Império Chinês se parece muito com o da Inglaterra.
A Inglaterra também não tinha comida.
Comprava comida e pagava com indústria.
Como se sai dessa ?
Basta fazer um “apertinho” fiscal, que os juros caem e o Real se valoriza ?
Pochman não tem certeza.
De qualquer forma, o IPEA de Pochman foi capaz de entender o Brasil do crescimento-com-integração de Lula e estaria pronto para apontar caminhos numa nova etapa – mais complexa, talvez.
Além de tudo, Pochaman pensou em montar a partir do IPEA uma espécie de “Faculdade” do Serviço Público.
Assim como a Petrobrás faz com seus empregados – e, nisso, gasta R$ 400 milhões por ano.
Quatro vezes mais que o Ministério do Trabalho.
A Receita faz o mesmo com seus fiscais.
E a Policia Federal com seus delegados.
Mas, o Serviço Público não forma quadros técnicos especializados.
E o Brasil de Dilma terá que enfrentar, provavelmente, uma grave escassez de quadros.
Inclusive no Serviço Público.
Samuel Guimarães vai embora.
(Clique aqui para ver a resposta que Guimarães deu a Johnbim, que foi falar mal dele ao Embaixador americano).
Pochman provavelmente voltará à UNICAMP.
E a estratégia do Brasil será entregue a alguém da “cota” do Michel Temer.
A política no Brasil é a arte de engolir o PMDB.
Ou como disse hoje, na pág. 2 da Folha (*), notável colonista (**): “O presidencialismo de coalizão em vigor no Brasil é uma distopia sistêmica”.
“Distopia sistêmica”.
Vai ver que é coisa do Tiririca.