domingo, 31 de agosto de 2014

JOGO DE CENA

É preciso reconhecer a falta de atitude da campanha do PT em face da candidatura da moda. Acostumados à polarização contra o PSDB (que, derrotado, vive seu ocaso), o PT permanece inerte diante dos novos movimentos ocorridos no tabuleiro político.

Pode ser ausência de iniciativa ou excesso de confiança. Ou uma conjunção dos dois fatores, em escala variada. Há relatos das pesquisas internas do PT que desmentem os levantamentos do ibope ou do datafolha. Contudo, mesmo na cúpula do partido já existe a certeza do 2.° turno.

Na verdade, não é isso que interessa para o povo. Também é picuinha a discussão sobre a interferência religiosa no programa apresentado pelo PSB. Posições anticientíficas, união homoafetiva, e demais exigências dos pastores da comitiva marineira têm sua importância para um nicho de pessoas específicas, mas numa escala nacional, três temas são essenciais nesta eleição:

PRÉ-SAL

O Globo anunciou em primeira página que a candidata do PSB, Marina Silva, planeja reduzir a importância do pré-sal na produção de combustíveis. Num encontro com produtores de etanol, na Feira Internacional de Teconologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho, Marina, para foi ovacionada quando disse: “temos que sair da idade do petróleo”. E também quando prometeu disse vai revigorar o álcool, dando incentivo para os produtores do setor.
O governo estima que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo.
Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.
É isso que está em jogo e que incomoda profundamente os falcões americanos. Eles não querem o desenvolvimento do Brasil e muito menos o nosso fortalecimento internacional. Um Brasil forte não interessa aos EUA. Desde sempre.
E por isso, sempre houve pressão para que a extração nas camadas de pré-sal fosse entregue a grandes empresas privadas, se possível americanas. E não fosse realizada pela Petrobras. Os gringos querem o pré-sal para eles.

BANCOS PRIVADOS

Com Marina, os bancos privados ganharão mercado, hoje dominados pelos bancos públicos. O programa de governo de Marina Silva (PSB) à Presidência defenderá mudança na política de crédito do governo federal, criando mecanismos para que os bancos privados possam aumentar sua participação em relação aos bancos públicos, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Os principais pontos do programa foram antecipados por Maria Alice Setúbal, a Neca, herdeira do Itaú, e Mauricio Rands, ambos responsáveis pela coordenação do plano de governo de Marina. "Queremos ampliar o mercado de crédito criando mecanismos para que os bancos privados possam participar mais percentualmente", afirmou Rands, no comitê de campanha de Marina, em São Paulo.

BANCO CENTRAL
 
Atualmente, o Banco Central não tem autonomia formal, já que seu gestor é escolhido pelo presidente da República, autoridade máxima do país, eleito democraticamente pelo povo. Por extensão, podemos dizer, então, que o gerente do Banco Central representa as necessidades do povo e atua em consonância com o governo eleito por ele e que, por sua vez, luta por políticas (dentre elas a econômica) que beneficiem a população que o elegeu. O BC tem, hoje, autonomia operacional para atingir as metas determinadas pelo governo. Dar ao Banco Central autonomia formal seria dar independência aos diretores do banco, que passariam a ter mandatos soberanos. Essa independência se daria em relação às autoridades que expressam a soberania popular.
A autonomia do Banco Central é uma medida fundamentalmente neoliberal. Os adeptos dessa teoria acreditam que o salário e o emprego se mantêm estáveis pela autorregulação do mercado, portanto é desnecessária (e eles acreditam ser prejudicial) a interferência do Estado nas questões econômicas. A crise econômica por que passou – e ainda passa – grande parte das nações, que sofrem com os efeitos devastadores de uma política neoliberal que causou o desemprego de 60 milhões de pessoas por todo o mundo é a prova de que o neoliberalismo econômico é nocivo, mesmo em um sistema capitalista.


Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, sugestivamente intitulado “A era dos bancos centrais independentes está chegando ao fim”, o economista chefe do HSBC, Stephen King, aponta nesta direção ao dizer que “não se pode seguir falando de independência dos bancos porque eles criam ganhadores e perdedores”.
King não é uma exceção. O ex-assessor da Reserva Federal de Nova York, Zoltan Pozsar, e o economista que cunhou o termo “banca nas sombras”, Paul Mc Culley, sugeriram em um artigo sobre a emissão de dinheiro eletrônico ou aceleração quantitativa, que os bancos centrais devem trabalhar seguindo as ordens dos ministérios de finanças para coordenar medidas fiscais e monetárias que ajudem a lidar com a crise atual.
O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, arrematou este debate dizendo que, na verdade, tratava-se de um equívoco, uma ilusão ou um engano deliberado. “Não há realmente instituições independentes. Todas têm que prestar contas. A questão é para quem”, disse Stiglitz em uma conferência na Índia neste mês de janeiro.

2 comentários:

Apelido disponível: Sala Fério disse...

Muito boa análise e artigo. Sinto falta dos botões de compartilhamento (TT, G+ e FB, p.ex.) mas vou ver se amanhã jogo no Twitter. Abraço forte e vamos à luta (eleição se ganha nas ruas e nas urnas, no corpo a corpo da disputa e da informação)!

Rogerio Peixoto disse...

Ficou muito bom. Divulgarei na esperanca de reverter essa sensacao de pesadelo que se iniciou na queda do aviao. Queda, alias, que nao credito ao acaso ou fatalidade. De toda forma, depois dessa, se Dilma se reeleger, espero que finalmente entenda a importancia do combate na area das comunicacoes, que sozinha pode colocar tudo a perder.