segunda-feira, 24 de junho de 2013

RESISTÊNCIA AO GOLPE

Hoje participei de um debate com professores secundaristas, em uma escola estadual exclusivamente destinada ao ensino médio e em período integral, cuja audiência foi formada pelos estudantes de 16/17 anos, dos 2.° e 3° anos. Reforcei minhas convicções acerca de quem compõem o grosso dos protestos: os alunos que se identificaram como partícipes das marchas são providos das famigeradas boas intenções, daquelas das quais o inferno está cheio, são motivados pelo senso de manada e por uma espantosa ignorância política. Passei o vídeo do PC Siqueira diferenciando em termos elementares direita e esquerda, e depois ainda tive que esclarecer que a Globo é de direita! Ninguém realmente sabe o que é a PEC 37, e quando o debate direcionou-se para esse assunto virou uma espécie de aula ampla: disse que se eu fosse a contra a PEC 37 não sairia às ruas para defender esse ponto de vista, pois esse é o ponto de vista da Globo, e agindo assim eu estaria sendo feito de boneco de marionete, igualzinho a Globo pretendia. Na falta de profundidade ideológica, a aversão à Globo serviu-me como tábua de salvação.
Eu não passo um segundo sem me culpar por essa falta de cultura política que assola o país. Não que me sinta o portador de uma mensagem superior, mas tenho a consciência de fazer parte de uma geração que vestiu a carapuça capitalista com ardor e assumiu o cinismo de ignorar/odiar a política como atitude louvável.
Os militantes do facebook, entre outras vicissitudes, são a-históricos. O mundinho deles começou mês passado, e todas as mazelas do Brasil são culpa do atual governo, e no fim das contas, do PT. No vácuo cerebral, os movimentos sociais dos trabalhadores e setores oprimidos são apenas os legitimadores do governo petista. Dá engulhos ver como são suscetíveis às mentiras e hoaxes propalados na internet. Não tem um imbecil que cheque a veracidade dos fatos! São piores que os amentais que formam seus juízos via grande mídia, porque além de não compreenderem lhufas do contexto em que vivem são a versão acabada da maria-vai-com-as outras. Orgulhosos, se julgam os donos de uma nova realidade, que suplanta tudo que foi feito até então, e cria o novo por geração espontânea.
E o mais grave é a falta de discernimento da maioria dos professores. Um professor de história se disse "confuso" e nada mais acrescentou ao debate. Outros criticam a falta de rumo dos protestos mas não esclarecem nenhuma vírgula ao pobres estudantes. Lembrei-me da etimologia de aluno ( do latim a-lumni, o sem luz). Há ainda os que incitam os discentes a irem para os protestos, desde que bem fundamentados. Raros são os pontos fora da curva, que têm acúmulo teórico para orientar com bom senso pessoas em formação sob sua responsabilidade.





À tarde, a presidente falou novamente à nação.





O roteiro do golpe continua escancarado: tumultos, turbulência, clima de insegurança entre as pessoas. É óbvio que haverá reflexos econômicos. Pululam denúncia de abuso das forças policiais. Nesse cenário de instabilidade, as brechas jurídicas surgirão. Em condições normais, aplicaria-se o princípio da insignificância jurídica, mas no caos, o procurador-geral oferecerá denúncia e o Supremo votará o impeachment da presidenta. Filme repetido, segue os mesmo passos que vimos em Honduras e no Paraguai.
Para evitar esse desfecho já programado,  a saída republicana foi oferecida hoje: primeiro, um plebiscito autorizativo para convocar uma Constituinte com a finalidade de fazer a reforma política e eleitoral.
Os novos constituintes terão que ser eleitos, por exemplo, segundos as regras da OAB: empresas não poderão financiar políticos e pessoas físicas só poderão contribuir para um candidato até um salário mínimo. Se os constituintes forem eleitos pelas regras atuais, farão uma Constituição como se fossem pilotos de Fórmula 1: chegarão no Congresso cobertos de adesivos de seus patrocinadores. Caso contrário, a maior bancada será a da Globo (de novo). O poder emana do povo e é exercido diretamente por ele, que convoca a Constituinte. Pela fala de hoje, percebemos que é uma Constituinte unicameral: não tem distinção entre Senado e Câmara. A decisão é por maioria absoluta, simplificando o rito, e concluindo seus trabalhos no prazo de um ano, com promulgação legimitada em referendo popular.

domingo, 23 de junho de 2013

DEIXA A POEIRA BAIXAR

Não sou a pitonisa destes dias conturbados, e não tenho essa pretensão. Me interesso - e faço - política muito antes de existir facebook, e mesmo antes da internet ocupar o espaço atual. Mas aprendi intuitivamente logo de início que lutamos por causas. Por ter essa visão de mundo, minha leitura dos tumultos recentes é bastante crítica. Estivemos na iminência de um golpe coxinha, apoiado numa massa de celerados e ensandecidos que queriam (e querem) reclamar, mas não sabem do quê. Reflexo dos tempos atuais, da mentalidade egocêntrica e individualista, cada um achou que passando na Globo suas faixas, iria transformar a realidade que o cerca, mas que não compreende.

É inegável que essa coisa disforme perdeu força. Minha apreensão diminuiu na exata proporção da ausência do televisão nos últimos dois dias. E vejo à distância ao menos quatro fases diferentes  de protestos à medida em que as passeatas iam acontecendo: nas primeiras, contra o aumento das passagens, o foco principal foi São Paulo e a cobertura midiática extremamente adversa. O aparato policial do Estado reagiu com brutalidade e truculência (como sempre), e isso acendeu a fagulha de simpatia das mais distintas pessoas (pensei em escrever setores, mas não foram segmentos organizados da sociedade que reagiram à violência policial e sim indivíduos atomizados típicos de uma sociedade capitalista, do cada um por si). 

O segundo momento, que é o mais difícil de entender foi quando as pessoas saíram às ruas em solidariedade ao MPL, mas cada qual puxando a sardinha para sua brasa e também marcou o ponto de inflexão da imprensa: antes contra, passou a endossar todas as bandeiras que viam (exceto as contra a Globo). Esse momento foi o do Cansei!, versão 2013, e teria morrido por aí se não fosse turbinado pela mídia, que de helicóptero instaurou um clima pré revolucionário no país, apavorando o cidadão médio, que se informa através dos canais de comunicação disponíveis e tradicionais.

O terceiro ato é quando fica claro o viés direitista encampado pelas ruas. De uma micareta patrocinada pela Rede Globo, involuímos a um louvorzão fascista. Tivemos claro que a demência coletiva, se não controlada, terminaria em golpe de Estado. Mas não nos modelos conhecidos, até porque o "movimento" não era do tipo conhecido. Não eram os militares tirando seus pijamas e calçando novamente os coturnos. Até então a direita que faz oposição institucional ao governo federal tinha espasmos orgásticos de prazer. As falhas e o desgaste da administração petista eram explorados até a medula. Porém, quando eles viram os militantes partidários sendo espancados na rua, e queima das bandeiras a la Alemanha hitleriana, a luz de alerta acendeu: eles também tinham perdido o trem da história e seriam esmagados por uma torrente sem direção. Pipocaram na imprensa colunistas e editoriais lembrando a uns, e ensinando a maioria, que quem suprime a possibilidade de um partido se manifestar, de qualquer espectro ideológico, caminha a passos largos para uma ditadura.

Para mim, o que doeu foi ver as flâmulas do MST ardendo em chamas. Um movimento de trabalhadores de verdade, que sempre esteve às margens de qualquer poder constituído, que reúne a escória que o poder econômico despreza, que conta única e exclusivamente com a abnegação dos mais simples e genuínos cidadãos brasileiros, foi colocado no mesmo balaio dos traidores e corruptos da pátria. A ignorância política mostrou que não tem limites. É como disse o socialista Einstein: "duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana". Não adianta nem os chamar de quinta-coluna, que eles não entenderão. Também ironizou outro socialista, Geroge Bernard Shaw: "A única coisa bem distribuída no mundo é a burrice".

Hoje, quarta fase, falamos após uma intervenção pública da presidenta da República. A imprensa, que errou na dose de sensacionalismo, vem dizer que isso foi longe demais. Foi longe porque ficaram com medo de respingar neles também. Mas como a maioria que aderiu foi influenciada pela mídia, a tendência é o refluxo, ânimos amainados e, pela total falta de politização, a volta completa da normalidade com mínimas"mudanças".

E agora? As respostas estão sendo buscadas desesperadamente. Quem estava na rua? O Fantástico já prometeu responder isso à noite, logo após o Faustão. Mas me adianto: a princípio, os jovens do MPL. Depois percebi que o povão mesmo, os esquecidos durante 502 anos e que finalmente no governo Lula tiveram acesso ao mínimo necessário não estavam de reboque. Muitos mauricinhos, bombadões e ratos de acadêmia com cérebro equivalente ao do roedor, mas nada dos maltrapinhos, as classes infames a que Decio Freitas se refere. Acredito que o caminho é a esquerda buscar nas periferias a legimitação de um governo voltado para a inclusão social.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

VOCÊ SABE O QUE SIGNIFICA "SEM PARTIDO"?



 Da Primavera Árabe ao Inverno Brasileiro

Espero que as linhas abaixo inspirem um pouco de sabedoria.


A virada da opinião pública se deu no momento em que a mídia convencional percebeu anteontem que podia faturar em cima do Movimento Passe Livre. Com palavras de ordem de apresentadores de programas populares à tarde e uma extensa cobertura telejornalística à noite, o telespectador perplexo começou a achar que o mundo estava acabando.

Fatos isolados tornaram-se "emblemáticos" e teses fascistas ganharam corações e mentes. Neste novo caldo de cultura, as reivindicações iniciais foram dissolvidas. A questão do transporte, a concentração hegemônica e perigosa da mídia nas mãos de poucos grupos, a falência do modelo político atual como agente intermediador das demandas públicas, tudo foi esquecido.

Em 24h o discurso passou a ser contra a corrupção, contra o Executivo e o Legislativo, poupando-se apenas - e por enquanto - o Judiciário, o mais fechado de todos os poderes e não menos corrupto, porque todos são o espelho da nossa sociedade, em que a exploração e o lucro são considerados valores meritórios e de status social. Vale mais quem, na prática, não vale nada.

Mas finalmente vozes de bom senso começam a se levantar e apontar para os riscos da dissolução do sistema, o que seria péssimo. Onde impera a barbárie, reina o vale tudo. Perde-se o juízo. Todos ficam cegos. Relembremos as cenas finais do filme Ensaio sobre a Cegueira (Blind), de Fernando Meirelles, quando todos saqueiam e disputam a tapas e pontapés o pouco do que resta.

Uma metáfora semelhante aO Alienista, de Machado de Assis, quando a "loucura" passa a ser a "razão" e a "razão", ora, foda-se a razão! A cegueira coletiva, alimentada pela elite - que em última instância é quem se beneficia do caos ao impor seu modelo à força - é a pior das armas de protesto coletivo.

Somos um país socialmente desorganizado e profundamente desigual. Portanto, nós do povo, da periferia, dos que lutam honestamente pela ascensão, sem nunca nos esquecermos de onde viemos, não podemos permitir que sejamos transformados em massa de manobra. E é exatamente isso o que está acontecendo.

Vamos dar lugar aos radicais. Deixemos as ruas para eles por enquanto. Desliguemos a TV e façamos um silêncio pacífico e misericordioso. "Eles passarão, nós passarinho."

"Um viva a você que acordou, mas por favor, respeite a quem nunca dormiu! " Adilson Filho

quinta-feira, 20 de junho de 2013

É URGENTE DEFENDER O PAÍS DO GOLPE!

O GOLPE está em marcha.
Qual é a pauta que está na rua?
Pelo que estão invadindo o Itamaraty? A prefeitura de Belém?

É o GOLPE!

Vamos para ruas defender o Brasil!

Ontem eu disse que a discussão sobre a destituição era assunto para outra postagem. Aqui vai: O GOLPE É UMA DESGRAÇA! O golpe é a vitória de um inimigo que sugou nosso sangue por 500 anos! É o fim dos sonhos, das esperanças, da liberdade, de um país que poderia ser mais feliz. E vai se enterrar sob o manto das ideias mais retrógradas e fascistas que permeiam nossa sociedade.

O companheiro Swamy, de Vitória-ES, sintetizou o que se passa: "O que está acontecendo é também uma arregimentação psicológica dos "neoclassemédia", por parte da mídia golpista que sempre quis o atraso e a ignorância política.

Essa exposição demasiada das notícias sobre os protestos, faz com que o "povão", que não tira os olhos da tv Globo, sinta-se inseguro com a situação e acredite que estamos vivendo um pré-caos, graças ao governo do PT.

Essa massa despolitizada é facilmente manobrada pala ultradireita reacionária, porque passou a se sentir confortável com os ganhos obtidos desde que Lula foi levado ao poder. Esse mar de tranquilidade deixou letárgicos muitos daqueles que nos ajudaram nessa vitória contra essas velhas oligarquias. (...)

Agora, pelo que tenho visto, a horda de mauricinhos, patricinhas, dondocas e burguesinhos de todas as ordens, anda assanhada e já falando em "Fora Dilma, fora PT". E o pior, com a simpatia de alguns que passavam fome até 2002. (...)"

O Conversa Afiada nos dá a notícia que a CUT tentou colocar pautas na manifestação como:
Reforma Política
Fim do monopólio da Globo
Contra a terceirização
Pela Reforma Agrária

Foram enxotados como caẽs sarnentos, aos gritos: Ditadura Já! Trabalhadores espancados por Mauricinhos.

É o GOLPE!

Conclamo aos cidadãos de bem que saiamos em defesa da pátria!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

ENTENDENDO

O português é uma língua fascinante. Esse tempo verbal, no qual as coisas estão em processo de acontecimento, o que é diferente do ato instantâneo do presente, é uma preciosidade. Tão massacrado pelo mal uso, o gerúndio merecia um destino mais glorioso que os scripts dos call centers.

Ontem à noite estava tateando sobre quais seriam as consequências dos protestos. Rascunhei uma série de paragráfos sem conexão necessária entre si e garimpei algumas fotos por aí. Sem usar o termo, é óbvio que os ânimos exaltados deixavam poucas opções para o desfecho das mobilizações: ou o nada, tragado pelo dispersão atávica que os tumultos demonstravam, ou o tudo, que nesse caso era uma sublevação completa da ordem. Apesar das contradições, é o PT quem capitanea o status quo vigente. A insurreição é para derrubar o governo do PT. Se isso é bom ou ruim, é matéria para outras reflexões. Por fim, com qualquer resultado, essa centelha de cidadania se apaga e reflui o anseio por debater os problemas políticos urgentes.

Porém, já questionava o caráter ideológico do "movimento" (entre aspas, por que de movimento em sentido tradicional pouco há). Há várias nuances esquerdistas, como a crítica dos gastos públicos com a realização da Copa do Mundo (aí vem o Haddad falar que se congelar a tarifa, o subsídio da prefeitura sobre de R$ 1,2 bi para R$ 2,7 bi, por ano. O estádio em Brasília custou R$ 1,4 bi) mas no geral não enxergava um rumo de esquerda, como a Cynara Menezes, o Leonardo Sakamoto, o Menon e outros que saudavam o povo na rua, o país que acordava de uma suposta letargia (que asneira: nunca se trabalhou tanto!), os filhos deste solo que não fogem à luta. Hoje, resta evidente: é de direita.

Os exemplos pipocam, amiúde. Desde a catequese do Rodrigo Vianna e o do Sakamoto (de novo), diretamente aos manifestantes, até ao já alertado desfile de beldades globais, tanto com a cara pintada no ensaio fotográfico em homenagem à mártir das passeatas, a repórter da folha, jornal que exultou a violência policial, quanto com os cartazes artesanais: "Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil".

Desde que foi cooptado pelo maior partido de direita do Brasil, o PIG, cuja derrota é o objetivo precípuo e final deste blog, os protestos se voltaram para o golpismo puro e simples. É o grande risco da organização social dita horizontal: manter o norte quando há tantos tubarões nadando nos mares da hipocrisia chamada neutralidade. E também era a bomba relógio do lulismo: inclusão social sem a contrapartida em politização das agendas públicas. Ou, na linguagem dos manifestantes, falta de instrumentos da democracia direta.

Vários blogueiros, companheiros de viagem perceberam isso, alguns mais rápido que outros. Carlos Motta, Paulo Henrique Amorim, Secco e David (que escrevem no blog do Azenha) e os que comentam as notícias se deram conta que é irreversível o processo de abdução da pauta de redução dos R$ 0,20 da passagem de ônibus para o golpe antipetista, reacionário, burgês, recheado de todos os recalques e sentimentos mesquinhos que movem a patota que não se conforma em ter que largar o osso e não admitem um governo de caráter trabalhista, apesar dos defeitos.


Lula e o PT sacaram que o subproletariado quer o Estado protetor, mas sem ruptura, instabilidade política ou greves, pois é a classe mais desprotegida politicamente. Eles não têm sindicato, não tem em que se apoiar diante de uma instabilidade política aguda.

Desde então, se adota uma política de "reformismo fraco" e "desmobilizador". Isso explica por que se andou mais rápido no aumento da renda dos pobres e mais devagar na redução da desigualdade de renda entre os ricos e os pobres. Lula polarizou o embate político entre "ricos" e "pobres", o que não se prende às categorias clássicas de "direita" e "esquerda".



No meio da multidão não se viam "pobres", muito pelo contrário.


O CAOS


* O Movimento do Passe Livre (MPL) surgiu em 2004, no rescaldo da “revolta da catraca”. As cidades de Salvador e Florianópolis (principalmente) foram os focos de onde emergiu a demanda pelo transporte público gratuito, que honestamente não fazia parte da agenda política nacional, e viram a reversão de um aumento nas passagens de ônibus após violentos confrontos dos estudantes com a polícia.






* Até uns 15 dias atrás, o MPL era um asterisco na dinâmica social brasileira. Ignorado pela esquerda (vá lá, a esquerda institucionalizada, aquela que disputa eleições. Mas, mesmo assim, eles sempre rejeitaram a aproximação - entrismo - do PSOL, PSTU, PCO) e hostilizado pela direita (que sempre os rotulou como baderneiros, bandidos, arruaceiros), jamais teve acesso a mais que alguns segundos na grande mídia. Mesmo na imprensa alternativa, eram pra lá de coadjuvantes.




* É lógico que o que está à baila é muito mais do que os R$ 0,20. A rejeição ao aumento das passagens foi um estopim. Porém, no início, a mídia, falando em nome da classe que representa, tratou de tachar todos de punks, anarquistas e/ou rebeldes sem causa e a PM desceu o cassetete (e balas de borracha também). Não só a mídia, mas, em uníssono, os poderes constituídos. Até o desprezível ministro da justiça endossou a tática de baixar o cacete nos manifestantes.
 



* Num segundo momento, alguns setores (não necessariamente os entristas do PSOL, PSTU e PCO) expuseram cartazes com outras pautas, uma completa geleia geral, mas, entre elas, questionamentos sobre a realização da copa e cobranças ou ataques ao governo federal. A mídia percebeu que se desse uma “empurrãozinho” nesse samba do criolo doido a coisa poderia gerar boas manchetes de acordo com seus interesses. No Rio, artistas globais foram convocados para engrossar fileiras e empunhar cartazes contra a “corrupção e a roubalheira”.


* Houve refração à cobertura da globo, com o manjado slogan do povo, que não é bobo. Será que não? Será que não houve pautas mais relevantes para que saíssem às ruas os inconformados de hoje? Ou é inconciliável exercer a cidadania durante a temporada do Big Brother? Será que a galera que se informa através dos memes do facebook é realmente mais consciente do que os perpétuos alienados pelo padrão global? Queimaram o carro da record, mas tiram fotos com os astros de novela da Vênus platinada.





 * Superando meu comentário, o fato é que a globo foi expulsa do evento. Adotou algumas estratégias, como a cobertura dos acontecimentos à distância, por helicópteros, microfones sem o cubo identificador da emissora, escalação de repórteres desconhecidos em São Paulo, leitura de editoriais em nome do compromisso com a informação, apesar da parcialidade costumeira, e até um suspeitíssimo pedido de desculpas do Arnaldo Jabor.





 * Como já se disse, se o Jabor está posando de revolucionário, temos que ficar de olho. Começou dizendoque os manifestantes não valiam nem os 20 centavos, mas mudou o tom. Hoje ele é a personificação da cúpula global, e sempre tenta desqualificar os movimentos sociais - ataques rasteiros e rancorosos ao MST, ao sindicalismo, à esquerda. Ademais, é assíduo frequentador do Instituto Milleniun, o antro dos barões da mídia e dos ricaços, onde se porta como cabo eleitoral da oposição demotucana.



* Ele até tentou “politizar” a baderna, dizendo ser mais digno lutar contra a PEC 37. Mas depois do que o promotor Zagallo falou, acho pouco provável que angarie qualquer simpatia. Isso dá um indício de como o custus legis está distante dos supostamente defendidos direitos difusos e coletivos, e, indo além, como os órgãos do Estado são alheios à sociedade a qual prestam serviços.


* Impossível dissociar os fatos da cobertura midiática. Para quem não está pulsando ao calor dos fatos, é a versão (única) disponível. E a dicotomia que eles propõem é a seguinte: se a manifestação é pacífica, então é legítima; se há confrontos e violência, perde a razão, vira coisa de desocupados. Literalmente, foda-se o conteúdo dos protestos, desde que a forma dele seja aquela prevista e disponível dentro dos estreitos limites do ordenamento jurídico.




* Imagina na Copa? Uma demanda que estava reprimida (aliás, em Brasília e Belo Horizonte este é o principal mote dos protestos), desde que a FIFA surrupiou a nossa soberania, diante da covarde subserviência do governo federal. O raciocínio é do o embaixador da copa, empresáriode jogadores da seleção e comentarista da globo, Ronaldo: “Está se gastando dinheiro com segurança, saúde, mas sem estádio não se faz Copa. Não se faz Copa com hospital. Tenho certeza que o governo está dividindo os investimentos”.


* O problema é que prometeram uma festa para o povo, mas é mentira. O povo não vai chegar perto dos estádios nem para vender churrasquinho e camisas de time. É um evento ultra elitizado, uma farra que consumiu 30 bilhões de reais para o convescote dos turistas e de uma elite absolutamente insensível ao contexto em que falta o essencial. Acho brilhante a sacada das escolas e hospitais com “padrão FIFA”.





* Outra lenda que cai por terra, na opinião deste escriba, é o dos movimentos “apartidários”. Quando a “minoria radical” promove quebra-quebra, saques e depredações, ninguém assume a paternidade do movimento. Quando é para aparecer na TV, velhas raposas oportunistas da oposição se arvoram a capacidade de “entender a linguagem das ruas”. Isso é balela. Ou você toma partido, e explica o que quer (é só os R$ 0,20 mesmo?) ou a diarreia mental provoca a confusão que certamente agrada determinados partidos. Para vários interesses escusos, quanto pior, melhor.
Mais imbecil ainda é a ideia do apolítico. O que eles fazem? Esporte? Terapia?



* Por fim, eu gostaria de enxergar a pauta esquerdista que viu a Cynara Menezes, diferenciando estes atos do Cansei! e semelhantes. Quando o Haddad assume que é possível rever o reajuste, fica claro que o aumento foi enfiado goela abaixo, em clara defesa do lucro dos empresários do ramo. O PT perdeu contato com a realidade, com a sua própria realidade de partido que representa (ou deveria) os trabalhadores. O projeto da tarifa zero, diga-se de passagem, era da gestão petista de Erundina.
Essa indistinção, bem ao estilo dos porcos com os homens do epílogo da Revolução dos Bichos, de George Orwell, é a causa de uma parte do amorfismo dos protestos, mas que pode conduzir a desfechos completamente díspares: tudo ou nada. Ao fim e ao cabo, nos dois extremos, jazem a cidadania e a política.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

DEPORTAÇÃO

Nesse dias de protestos, há que se separar o joio do trigo. Apesar de não compreender os meandros do "movimento", me alegro em perceber que saímos do maniqueísmo na questão do transporte público. Pauta do governo petista quando da gestão Erundina, com o avanço do poder econômico, a gratuidade da locomoção foi relegada à utopia pelo próprio Fernando Haddad. Tristes tempos, mas ainda tempo de luta.
Não misturando alhos com bugalhos, não poderia deixar de homenagear o estúpido abaixo. E sugerir a imediata deportação do boçal.



Por Davis Sena Filho
13/06/2013, às 08:22

Depois de ler a revista Veja, a Folha de S. Paulo e O Globo no decorrer de toda sua vida e ter assistido ao Jornal Nacional, a partir da hora que nasceu, o imbecil completo, alvo constante de lavagem cerebral da mídia entreguista e colonizada, resolveu sair de casa para fazer o seu "protesto" durante as manifestações estudantis em São Paulo, sem qualquer noção de ridículo e um pouco de sabedoria.
O recente movimento de estudantes acontecido em São Paulo, como todo mundo sabe, foi infiltrado por grupos oportunistas e fascistas, que efetivam suas atividades historicamente em terras bandeirantes e paulistanas, o que acarretou em mais violência da polícia tucana e oportunismo da imprensa conservadora para criticar eloquentemente os protestos dos estudantes contra o aumento no preço das passagens dos ônibus.
O idiota da foto é mais do que um completo beócio, neófito ou um bestalhão colonizado e despido de quaisquer noção da realidade e sentimento de brasilidade. Ele não passa de um pulha, o exemplo fidedigno da classe média lacerdista, egoísta, individualista, violenta e racista, que, para a desgraça dela, nunca vai ser rica e sempre vai ser barrada na porta do baile dos ricos, apesar de imitá-los, ridiculamente, em seus valores e princípios.
Verme asqueroso
Esse paspalho é tão panaca e mentalmente obtuso que ele mesmo não sabe que tem uma visão colonizada do mundo, que para o "protestante" deve se resumir a Miami e Orlando. Culturalmente servil e portador de um incomensurável e inenarrável complexo de vira-lata, o mentecapto representa, exemplarmente, o reacionário moderno e "mauricinho", que odeia e despreza o Brasil e o grande povo brasileiro — o maior responsável por este poderoso País ter abraçado o seu destino e futuro, bem como luta, incessantemente, por sua autonomia e independência.
Tal troglodita de direita entregaria, se necessário, a sua própria mãe e os seus amigos em prol de causas alienígenas ou externas. Bobalhão e ignaro por essência, além de ser imbecil por opção, o energúmeno demonstra a sua "revolta" de butique da forma mais alienada e mequetrefe possível, mas, porém, contudo, todavia, e, entretanto, tal persona não passa de um ser desprezível, ignorante e babaca, que, por via das dúvidas, preferiu esconder o rosto, pois direitista covarde enfiou a cara em um capuz. É isso aí.

domingo, 16 de junho de 2013

DUAS MANEIRAS

Há infinitos modos de apresentar um argumento. Sempre quis escrever algo sobre este assunto, mas me faltava inspiração. Agora, de uma tacada, duas visões privilegiadas sobre o tema que envolve hipocrisia, teleologia estatal (para que o Estado serve), ideologia, luta de classes, retórica... enfim, é um prato cheio para discussão.

Comecemos, pois, com o Tijolaço, agora capitaneado pelo jornalista Fernando Brito, cuja epígrafe é sensacional: "A política, sem polêmicas, é a arma das elites"
Duas maneiras de poluir a atmosfera




A RICO, INCENTIVO; A POBRE, POPULISMO


Quando o caro amigo ou a cara amiga ler ou ouvir a palavra populismo, cuidado.
Em geral, é um adjetivo usado para desqualificar o que é bom para o povo.
Hoje, em editorial, o Estadão diz que o crédito facilitado para que os beneficiários do programa “Minha Casa, Minha Vida” comprem móveis e eletrodomésticos é “um ato populista”.
Porque “o Tesouro terá de subsidiar o novo programa de estímulo ao consumo”.
Curioso é que esse argumento não vale quando quem é estimulado é o capital, não o consumo.
Não há preocupação com quanto sai do Tesouro para bancar a elevação da taxa de juros. Nem com quanto deixa de entrar com o fim do IOF sobre investimentos estrangeiros.
Exigem superávits cada vez maiores, a qualquer preço, no Brasil. Mas os europeus, os EUA, o Japão, todos eles têm déficits astronômicos e ninguém os chama de populistas.
Quando Lula, em 2009, tirou o IPI de uma série de produtos para enfrentar a crise européia também não faltaram críticas deste tipo: populista, irresponsável, eleitoreiro.
E, se não fosse isso, a marolinha teria sido mesmo um tsunami.
O financiamento oferecido ao público do Minha Casa, Minha Vida, além do benefício imensurável que traz à vida doméstica de milhões de brasileiros de baixa renda, tem outros méritos.
Inclusive no combate à inflação.
Ao fixar valores máximos para os produtos elegíveis para a compra, a linha de crédito contribuirá para segurar os preços de várias linhas de consumo. Que empresa desejará, por alguns reais, deixar seus produtos fora dos limites do que pode ser financiado? Além disso, com a alta do dólar, o que é produzido aqui, com custos em real, será mais competitivo, certamente.
A roda da economia vai girar e é isso o que mantém a bicicleta equilibrada.
A finalidade das políticas econômicas é produzir bem estar, não superávits a qualquer custo social.
Isso não é populismo. Isso é considerar a economia um bem de todo o povo, não a economia para os bens de uns poucos.

Duas maneiras de ter vizinhos inconvenientes


Clap, clap, clap. Agora, uma outra versão do mesmo tema. Mais sucinta e, me atrevo a dizer, espirituosa. O autor da frase é o finado George Carlin.

Uma maneira de ser sarcástico. E honesto.



"Os conservadores dizem que se você não der aos ricos mais dinheiro, eles vão perder o incentivo para investir. Quanto ao pobre, eles nos dizem que perderam todo incentivo, porque nós lhes demos muito dinheiro. "

 

sábado, 15 de junho de 2013

CHUPA DATENA!


Tentou manipular telespectador e se deu mal

A expectativa da resposta, pelo perfil do programa, não comportava o resultado apresentado. A imagem diz tudo: uma pergunta totalmente despropositada e a resposta de quem se sentiu ofendido pela desonestidade. 

Datena enche as burras com jornalismo marrom, explorando a violência e a barbárie. É entusiasta das ações truculentas da polícia. Baba colorido em favor da redução da idade penal, como se fosse a panaceia. E coloca a questão da segurança como única na agenda social, resumindo a política a mera intervenção policial no cotidiano das pessoas. Ontem, porém, ele se deu mal: após mostrar cenas dramáticas de confrontos em São Paulo, ele exibiu uma enquete: "Você é a favor deste tipo de protesto?". O "sim" disparou na frente.


Primeira pergunta, cuja resposta contrariou o apresentador
De imediato, ele pediu a sua equipe para alterar a pergunta: "Você é a favor de protesto com baderna?". Para seu desespero, o "sim" aumentou a vantagem (2.179 votos a favor, 915 contra) em apoio à manifestação dos jovens. A cada três espectadores, dois reagiram a um jornalismo que escolhe o lado antes que a história comece. Quando a derrota se mostrou flagrante, apesar dos apelos do apresentador, a Bandeirantes tirou a questão do ar.
Chupa!
A enquete fez com que o apresentador mudasse de ideia. Datena vinha apresentando um discurso defendendo as ações da PM. De repente, passou a pregar a paz entre autoridades e manifestantes. "Fazia muito tempo que não via uma manifestação democrática e pacífica assim. É o povo. O povo está descontente. Eu falei que ninguém queria aumento. Entre bandido e polícia, prefiro a polícia. Entre povo e polícia, prefiro o povo". 
O apresentador sensacionalista mudou de ideia ou ficou com medo da repercussão negativa da sua visível manipulação? Segundo o sítio de entretenimento da Folha, F5, a picaretagem de Datena rapidamente foi parar nos nos trending topics, a lista dos assuntos mais comentados do Twitter, em São Paulo. Ele foi alvo de duras críticas dos internautas, recheadas de muitas chacotas. Chupa Datena!

Fontes:

sexta-feira, 14 de junho de 2013

RESSUCITANDO O ANTIPIG

A volta dos que não foram
Oi.
Alguém ainda vem aqui?

Sem desculpas, quero informar que superamos as dificuldades técnicas e agora o blog pode voltar.

Perdemos muitas notícias. Principalmente as da sessão "obituário". Muita gente boa morreu, além de alguns trastes miseráveis.

Recomeçaremos as postagens, menos autorais, ainda que focadas em coisas absurdas, que não deveriam acontecer nas cntp*. Mas acontecem. E o mundo continua a girar.

Espero que gostem.
Boa leitura.
Se possível, deixe comentários.

* Condições Normais de Temperatura e Pressão

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

MAR DE LAMA: SOBREVIVEMOS!


Depois da mais sombria ofensiva do capital midiático, os primeiros contra-golpes foram desferidos.



Alguns imaginavam que, de tão ferido, o nocaute ao PT (e claro, a Lula) era iminente. Que perdera as forças para reagir. Não contavam com o instinto político do ex-torneiro mecânico, que mais uma vez, quando a direita já se insuflava, volta ao centro da arena política, tomando a iniciativa da luta em irresistível recuperação.

Irônica a expressão “Mar de Lama”: usada e abusada em insignificâncias, só adquire só real acepção quando grasnada pelos corvos da imprensa contra os governos de sustentação popular, no caso, Getúlio e Lula.

As duas personalidades acima citadas, com a dubiedade peculiar aos grandes líderes, se puseram a favor das classes trabalhadoras. Concomitante ao apoio popular que granjearam, tiveram que conviver com a fúria de uma elite mesquinha, não acostumada a dividir sequer as migalhas, e com o tacanho ideário da farinha pouca, meu pirão primeiro. Apesar do espírito amalgamado no povo, a diferença é que o gaúcho era egresso de linhagem tradicional, conquanto o nordestino encarna também na pele o sofrido povo que penou na mão dos senhores que comandaram esse país por 500 anos. Como ele mesmo disse: "Não estou acostumado a ter medo. Durante toda minha vida vivi em crise. Sou de uma terra em que se até 5 anos de idade você não morreu de fome, é um milagre".

Primeiro, li Saul Leblon* descrever uma tática da combater a blitz inimiga: de um lado, os movimentos sociais apartados/cooptados despertarem da letargia burocrática em que se encontram e refletirem sobre a possibilidade – e proximidade – do golpe; de outro, o governo despir-se do economicismo exacerbado, bem como do “alucinado menosprezo ao engajamento político”. Essa contradição no modo petista de governar o país foi avaliada pelo Azenha como um misto de desesperoe comodismo. Não se completa a inclusão cidadã apenas através do consumo.

Mas quem realmente levantou a moral das tropas foi o próprio comandante em chefe. O ponto de inflexão nos rumos da contenda, o corte epistemológico dessa espiral denuncista começou lá em Paris: não comentando as mentiras, Lula deu a entender que retomará ascaravanas da cidadania, travando contato direto com a sua terra e o seu povo, num recinto onde jamais os barões da imprensa puseram os pés.

Sem contar que FHC, recolhido ao ostracismo de sua pequenez política, de onde destila ressentimento, quase cortou os pulsos ao saber que Lula estava escrevendo o capítulo mais importante da história do século XXI: a ruptura do consenso de Washington, o novo rumo da governança em escala planetária, onde a globalização deixa de servir ao rentismo e o respeito à autodeterminação dos povos, sem intermediários, permita a cada país realizar o modelo de sociedade que escolheu.



Enquanto o isso, o PIG chafurdava requentando o falso testemunho de um trambiqueiro rastaquera. Como diria Nassif, um paradoxo da história. Ao qual sobrevivemos, apesar de tudo.

*  tenho certeza que é o alter-ego do Flávio Aguiar

domingo, 9 de dezembro de 2012

REFLEXÕES DEZEMBRINAS

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Dezembro é o mês dos balanços, das retrospectivas, do meu aniversário e dos planos para o ano seguinte. Este dezembro está vazios de planos, pois o mundo talvez acabe dia 21 – planejar o quê?

Sem saber o que farei (se é que farei) o ano que vem, escreverei sobre o que tenho visto acontecer. Rodrigo Vianna apresentou uma tese interessante sobre a estratégia da oposição: o fatiamento.

Mais que nunca, está claro que a oposição é a Globo. Por tabela, a Abril e a Folha. E por uma quimérica necessidade institucional, os instrumentos são os partidos de direita. O fato do candidato ser o Aécio não significa que o PSDB sepultou o Serra, e sim que a Globo tem pressa em colocar os lutadores no octágono. Mostrar para o espectador em quem ele deve votar, depois de esculachar pela milésima vez o PT e Lula.

Primeiro, destruíram o patrimônio ético e moral que restava ao PT. Virou viral tachar o petista, seja o militante, seja o carreirista, de quadrilheiro, mensaleiro e o escambau. Agora, de novo as canhoeiras estão direcionadas ao Lula. Quem disser que a luta de classes acabounão é capaz de fixar a atenção no ódio visceral que as elites deste país têm do sapo barbudo. Depois de tentarem imputá-lo o mensalão, colarem-lhe o rótulo de apedeuta, a bola da vez é a acusação de adúltero, favorecendo sua teúda e manteúda com as benesses de um cargo público onde o tráfico de influências rolava solto. Abatido o batráquio, a terceira e derradeira etapa é o ataque massivo à gerente Dilma.

Bom, esse é o plano da oposição. Me admira muito quantas linhas a imprensa progressista gasta comentando os rumos que a oposição deva ou não tomar. Levar o Aécio mais para o centro, se aproximar do PSB, reconhecer os avanços do lulismo na assistência aos pobres, isso e aquilo. Sem delongas, quero que a oposição se foda. Acho ótimo quando os colonistas* do PIG explicitam seus pensamentos obtusos. Quando o mundo inteiro (e aqui não apenas uma figura de linguagem –é o coletivo de todos os outros países da terra) reconhece os avanços sociais do Brasil nos governos petistas e a nova posição de player (anglicismo ridículo, desculpem) internacional e eles teimam em retorcer a verdade sem disfarçar o complexo de vira-latas. Quando a insignificante oposição parlamentar berra contra o povo, contra o bolsa família, contra as cotas. Quando publicam fotomontagens grosseiras ou fichas falsas do DOPS. Quando são incapazes de homenagear gênios universais como Hobsbawn ou Niemeyer.

Um parêntese. Não queria fazer do texto um obituário, mas foi um ano de duríssimas perdas. Mais um. Niemeyer, meio gênio, e a outra metade milagre, prodígio, fenômeno, maravilha e portento, respondeu premonitório ainda em vida: “Nunca me calei. Nunca escondi minha posição de comunista. Os mais compreensíveis que me convocam como arquiteto sabem da minha posição ideológica. Pensam que sou um equivocado e eu penso a mesma coisa deles. Não permito que ideologia nenhuma interfira em minhas amizades.” Lógico a figura que o desacatou nas exéquias não tem envergadura para compartilhar da amizade de alguém para quem esse sentimento tinha tanto significado. Fecha parêntese.

Voltando ao argumento do Rodrigo Vianna, a fragmentação é a forma mais fácil de compreender a totalidade. A ciência atua assim. Raciocinar sobre frações da realidade é mais simples do que as conjecturas que levam em conta infinitas variáveis. Sobre o PT mesmo, tenho me sentido dividido. Me iludi com o garantismo constitucional que aprendi na faculdade e o arrivismo do Paulo Henrique Amorim e do Mino Carta (“quero ver o supremo condenar o Dirceu sem provas”; “o mensalão ainda está por provar-se”). Uma percepção semelhante à de 2003/2004, quando as ilusões sobre a chegada de “um áureo tempo de justiça” ruíam sob Palocci, Meirelles, o próprio Dirceu e a governabilidade.

Fragmentando, em qual PT votar? O que respeita e fortalece instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público ou o que reclama de ser condenado por fazer caixa dois, como de resto, os partidos de direita fazem?

O que denuncia o PIG, como Fernando Ferro, o que propõe com Franklin Martins um novo marco regulatório da comunicações ou o que banca com subvenções públicas via SECOM o golpe da Globo e se cala?

O que pede indiciamento do Carlinhos Cachoeira e expõe a ferida de sua ligação com a Veja – e via de consequência, a Globo – ou o que rasteja por uma entrevista nas páginas amarelas do detrito sólido de maré baixa? Ou o que barganha a pizza na CPI em troca do silêncio sabe se lá em qual falcatrua? Ou o que consta nos caderninhos de pagamento do bicheiro, como Raul Filho e Rubens Otoni?

Mino Carta e Ronaldo Kotscho clamam por postura do partido. A inação permite interpretações dúbias, e quem está entrincheirado defendendo o modelo trabalhista de governo é apedrejado como um bandido de vilarejo. Legal que os dois, com toda vivência que têm ainda acreditem no papel no jornalista como agente de transformação social. Mesmo depois do paparazzi de Nova York que fotografou um homem sendo atropelado pelo metrô sem oferecer ajuda, ou o caso da enfermeira inglesa que recebeu o trote de uma rádio acerca da princesa Kate e, não suportando a humilhação, se suicidou.

A imprensa de uma maneira geral precisaria rever seu espaço no mundo. Mas não fará isso, pois não pode pular sobre sua própria sombra. No máximo, veremos a Globo estrebuchar contra a Argentina colocar o Clarín no seu devido lugar. Nós teremos que fazer. Não há mais necessidade de intermediários. A crise na comunicação em tempos de informação em tempo real é análoga à desconfiança sobre os representantes de Deus na terra – sejam lá de que religião forem – diante dos avanços da ciência que desmistificam a vida.

De minha parte, penso que a realidade se tornou complexa demais para fragmentações. A oposição encaminhará seu golpe com o estratagema confundir para conquistar, caro aos colonialistas. Dividir para conquistar não é um lema inovador, como aliás é a superada oposição brasileira.




Poderia escrever sobre a transformação do significado do natal. Mas aí seriam maus agouros em demasia para, com cinismo, desejar boas festas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O FIM DA POLÍTICA

A manchete abaixo provocou uma interrupção na longa hibernação do blog

HONDURAS PRIVATIZA TRÊS CIDADES

No afã de provar a notícia, imediatamente fui tomado pela desconfiança de que se tratava de mais um daqueles hoaxes que nos ameaçam colar as pálpebras, roubar os rins, raspar a pele do rosto com ancinho, ou mais macabro e próximo, tornar a Amazônia uma área internacional...

Não, não me parece ser pegadinha, haja vista o número sites que repercutem a manchete.

Que se desmascarem os objetivos antes da maquiagem midiática! Um novo tipo de potentado, sem dívida, sem problemas, sem políticos! Sem prestar contas do dinheiro que arrancar às pessoas, sem compromisso com a vida, com a humanidade...

Obviamente não é criação nativa: seria avançado demais para a elite hondurenha*. Assim como a Guatemala foi usada como cobaia para injeção de doses concentradas das bactérias causadora da sífilis nos olhos, no sistema nervoso central e nos genitais dos pacientes**, Honduras funciona como laboratório de testes para a mais nefasta teoria política jamais concebida. Trata-se de um protótipo a ser testado e replicado globalmente, onde e como for interessante.

Da Grécia, ouvimos ecos semelhantes, com a privatização de ilhas para saldar a insolvência bancária do país. Depois de ofertar parte do território, receberam do Banco Central Europeu a “carta a Atenas”, que apesar do nome lembrar uma epístola paulina, se parece mais com um saco de maldades. Em breve, especialistas e analistas da Globo e quejandos exaltarão este "novo modelo que responde às necessidades do mundo contemporâneo".

Tirante o susto inicial, o sentimento foi de consternação. Todo acúmulo da experiência política que a humanidade assomou, reduz-se à lei inexorável do capitalismo: põe preço! As primeiras comunidades, o reino de Israel, o Egito, A Pólis grega, a Civitas romana, o feudo, o burgo, o Estado, o socialismo, a sociedade sem classes da ideologia comunista tornaram-se pó, reminiscências históricas de desajustados sociais que se comportam como ratos de livro.

O problema é que o pensar como manifestação humanizada da existência é contrário à natureza do mercado; em outros termos, quem pensa não é competitivo - para lembrar da quarta palavra que a Dilma agregou ao sustentáculo teórico do seu governo. Para o capitalismo, se você não questionar, tanto melhor. Nunca as idéias foram tão inofensivas como agora. Há 40 ou 50 anos, ainda faziam barulho, mas hoje o som da TV transmitindo novelas, futebol e celebridades encobre qualquer uma que se possa ter.

Vivemos a ressaca das estripulias financeiras de meia dúzia de yuppies vestindo ternos bem cortados e freqüentadores das rodas mais exclusivas do mundo. Peraltices só parecidas com aquelas da década de 1920, mas, naquele tempo, a lambança dos senhores da banca produziram reações com alcance mundial tanto à esquerda quanto à direita; hoje, não passam de notas de 5 minutos no JN e, se tanto, mesas redondas dentro dos departamentos de ciências humanas das universidades públicas.

E como a vida imita a arte, ou parafraseando Marx, a história acontece como tragédia e se repete como farsa, essa proposição remete ao filme Robocop (1987), uma distopia onde Detroit é controlada por uma corporação hegemônica (OCP) a quem interessa apenas a perpetuação do poder, ainda que a vida dos homens tenha se tornado miserável e as máquinas determinem quem continua ou não respirando. No tema das distopias, desde os fundamentais Orwell e Huxley se prevê a morte do espírito, a humanidade bovinamente resignada. O “engano”*** deles foi imaginar motivações políticas, quando na verdade, tudo se faz e se fará em nome do atual deus do mundo: dinheiro, dinheiro, dinheiro!

O máximo que se formula nos dias de hoje é uma estanha utopia, o misticismo consorciado com a informática, a ideologia californiana de Silicon Valley, a terra prometida onde teríamos uma estapafúrdia combinação do mais alto grau de robotização das máquinas com a vida rústica e frugal, alta tecnologia industrial com comuna tribal - de cidadãos/usuários vestidos de camurça indo para a colheita depois de checar no notebook em tempo real a cotação dos derivativos da Nasdaq.

A ironia/estupidez dessa tecno-utopia reside na sua absoluta despolitização e/ou alto grau de ingenuidade.

No caso dos gregos, sempre perguntei o seguinte: quando todos estavam reunidos em hasta pública deliberando sobre os assuntos da cidade, quem limpava as latrinas? No caso atual, fica claro que o hardware para toda essa revolução software (a criação de uma espécie de Woodstock cibernética) seria montado em placas e chips da IBM, circularia através das linhas telefônicas da AT&T, Telefónica, e dependeria dos lançamentos espaciais do Pentágono, fazendo orbitar satélites de comunicações fabricados pela Westinghouse, entre um míssil teleguiado e um reator nuclear (esclarecendo: a Westinghouse é uma dos maiores fabricantes de armamentos do mundo e a maior fornecedora da USArmy).

Dias atrás, li uma notícia de que uma mãe na Índia vendera três filhas por 6 dólares, ou euros, ou rúpias, ou qualquer dinheiro. Resta a premonição de que nossa geração, senão como indivíduo, como espécie, ainda verá a volta da escravidão.


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* É bom lembrar que o limite dessa burguesia provincial foi aplicar um golpe de Estado, substituindo o presidente eleito Manuel Zelaya por uma junta diretiva que hoje patrocina a atrocidade. Golpe com anuência de quase todo mundo civilizado (excetua-se o Brasil).

** A macabra experiência norte-americana com pelo menos 1.300 pessoas guatemaltecas veio à tona em meados de 2011. No mínimo, 83 pessoas morreram. É comparável às experiências nazistas nos campos de concentração. Não se ouviu grande alarde, mas a notícia existiu, conforme link:
http://www1.folha.uol.com.br/bbc/968965-medico-compara-testes-medicos-dos-eua-na-guatemala-aos-do-nazismo.shtml

*** Só é válido se falar em engano se lermos os livros escritos em 1931 e 1948 com os olhos atuais. À época, de fato, o poder econômico não se sobrepunha de forma tão drástica ao poder político. De antanho ao porvir, a cultura monetária se estabeleceu de forma totalitária no mundo. E a ameaça que representou um dia o poder político se converteu em esperança ante o capital.

Agradeço ao Márcio, que instigou a realização do artigo me encaminhando a notícia. E também ao meu pai, Rogério, Patrick e meu tio Cleison que deram valiosas contribuições.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

As relações ambíguas do governo com a mídia

Enquanto seus apoiadores acusam a mídia de ser golpista, governo prestigia e destina farta publicidade aos grandes meios de comunicação. Uma única edição de Veja teria recebido cerca de R$ 1,5 milhão em anúncios oficiais. É preciso regular e democratizar as comunicações. Mas também é necessário deixar mais claro os interesses de cada setor nessa disputa

No espaço de pouco menos de dois meses, dois ministros do governo Dilma foram fulminados por denúncias de atividades obscuras. Os demitidos foram os titulares do Esporte, Orlando Silva, e do Trabalho, Carlos Lupi. Os ataques partiram da grande imprensa, mais exatamente da revista Veja e dos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Logo as matérias ganhariam o espaço avassalador das telas de TV, com destaque para o Jornal Nacional, da Rede Globo. No mesmo período, mas dois membros do primeiro escalão entraram na linha de tiro da mídia. São eles Mario Negromonte (Cidades) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento).

Aliados do governo tentaram desqualificar não apenas as denúncias, mas os veiculos que as difundem. Volta o debate de que estaríamos diante de uma mídia golpista, que não se conforma com a mudança de rumos operada no país desde 2003, que quer inviabilizar o governo etc. etc. Em parte têm razão.

A grande imprensa, por sua vez viciou-se em acusar todos os que discordam de seus métodos de clamarem pela volta da censura. Há muita fumaça e pouco fogo nisso tudo, mas faz parte do show. Disputa política é assim mesmo.

Maniqueísmo

É preciso colocar racionalidade no debate sobre os meios de comunicação no país, para que não deslizemos para maniqueísmos estéreis. Vamos antes enunciar um pressuposto.

A grande imprensa brasileira está concentrada em poucas mãos. Oito empresas – Globo, Bandeirantes, Record, SBT, Abril, Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Rede Brasil Sul (RBS) – produzem e distribuem a maior parte da informação consumida no Brasil.

As corporações existentes há cinco décadas – Globo, Estado, Folha e Abril – apoiaram abertamente o golpe de 1964. Até hoje não explicaram à sociedade brasileira como realizam a proeza de falar em democracia tendo este feito em sua história.

Entre todos os meios, a revista Veja se sobressai como o produto mais truculento e parcial da imprensa brasileira.

Sobre golpismo, é bom ser claro. As classes dominantes brasileiras não se pautam pelas boas maneiras na defesa de seus interesses. Sempre que precisaram, acabaram com o regime democrático. Usaram para isso, à farta, seus meios de comunicação.

A imprensa é golpista?

No entanto, até agora não se sabe ao certo porque esta mídia daria um golpe nos dias que correm. O sistema financeiro colhe aqui lucros exorbitantes. A reforma agrária emperrou. Grandes empresários possuem assento em postos proeminentes do Estado – caso de Jorge Gerdau Johannpeter – ou têm seus interesses mantidos intocados.

Algumas peças não se encaixam na acusação de golpismo da mídia. Voltemos à revista Veja. Os apoiadores do governo precisam explicar porque a administração pública forra a publicação com vultosas verbas publicitárias, além de sempre prestigiarem suas iniciativas. Vamos conferir, pois está tudo na internet.

Veja tem uma tiragem de 1.198.884 exemplares, auditados pelo IVC. Alega ter um total de 8.669.000 leitores. Por conta disso, os preços de seus espaços publicitários são os mais altos entre a imprensa escrita. Veicular um reclame em uma página determinada sai por R$ 330.460. Já em uma página indeterminada, a dolorosa fica por R$ 242.200.

Quem anuncia em Veja? Bancos, a indústria automobilística, gigantes da informática, monopólios do varejo e… o governo federal. Peguemos um exemplar recente para verificar isso.

Na edição de 12 de outubro – que noticiou a morte de Steve Jobs – havia cinco inserções do governo federal. Os anúncios eram do Banco do Brasil (página dupla), do BNDES, do Ministério da Justiça, da Agência Nacional de Saúde e da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Supondo-se que as propagandas não foram destinadas a páginas determinadas e que os preços de tabela foram efetivamente cobrados, teremos um total de R$ 1.525.200.

Exato: em uma semana apenas, o governo federal destinou R$ 1,5 milhão ao semanário dos Civita, a quem seus aliados chamam de “golpista”.

Prestígio político

Há também o prestígio político que o governo confere ao informativo. Prova disso foi o comparecimento maciço de ministros de Estado e parlamentares governistas à festa de quarenta anos de Veja, em setembro de 2008. Nas comemorações, estiveram presentes o então vice-presidente da República, José Alencar, o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, o ex-ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o ex-ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, o ministro da Educação, Fernando Haddad e a senadora Marta Suplicy (confiram em http://veja.abril.com.br/veja_40anos/40anos.html).

E entre julho de 2010 e julho de 2011, nada menos que seis integrantes dos altos escalões governamentais concederam entrevista às páginas amarelas da revista. São eles: Dilma Rousseff, Aldo Rebelo, Cândido Vaccarezza, Antonio Patriota, General Enzo Petri e Luciano Coutinho.

Nenhum demonstrou o desprendimento e a sensatez do assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia (então presidente interino do PT). Ao ser convidado para conceder uma entrevista a Diogo Mainardi, em novembro de 2006, deu a seguinte resposta: “Sr. Diogo Mainardi, há alguns anos – da data não me lembro – o senhor dedicou-me uma coluna com fortes críticas. Minha resposta não foi publicada pela Veja, mas sim, a sua resposta à minha resposta, que, aliás, foi republicada em um de seus livros. Desde então decidi não falar com a sua revista. Seu sintomático compromisso em não cortar minhas declarações não é confiável. Meu infinito apreço pela liberdade de imprensa não vai ao ponto de conceder-lhe uma entrevista”.

RBS, Olívio e Lula

As relações ambíguas do governo e dos partidos da chamada base aliada com a grande mídia não se restringem à Veja.

Entraram para a história a campanha de denúncias e desgaste sistemático que os veículos da RBS moveram contra o governo de Olívio Dutra (1999-2003), do PT, no Rio Grande do Sul. Ataques sem provas, calúnias, mentiras e todo tipo de baixaria foi utilizada para inviabilizar uma gestão que buscou inverter prioridades administrativas. No auge dos ataques, em 2000, o jornal Zero Hora, do grupo, fez um ousado lance de marketing. Convidou Luís Inácio Lula da Silva para ser colunista regular. Até a campanha de 2002, o futuro presidente da República escreveu semanalmente no jornal, como se não tivesse relação com as ocorrências locais. Quando abriu mão da colaboração, Lula afirmou que o jornal prejudicava seu companheiro gaúcho. O jornal ganhou muito mais que o ex-metalúrgico nessa parceria. Ficou com a imagem de um veículo plural e tolerante.

No mesmo ano, o ex-Ministro José Dirceu foi entrevistado pelo Pasquim 21, jornal lançado pelo cartunista Ziraldo. Naqueles tempos, as empresas de mídia enfrentavam aguda crise, por terem se endividado em dólares nos anos 1990. Com a quebra do real no final da década, os débitos ficaram impagáveis. Lá pelas tantas, Dirceu afirmou que salvar a Globo seria uma “questão de segurança nacional”.

Comemorando juntos

As boas relações com a grande mídia se mantiveram ainda nas comemorações dos 90 anos da Folha de S. Paulo, em janeiro deste ano. Estiveram presentes à festa a presidente Dilma Rousseff – convidada de honra, que proferiu discurso recheado de elogios ao jornal – a senadora Marta Suplicy, colunista do mesmo, Candido Vaccarezza, líder do governo na Câmara, os ex-Ministros José Dirceu e Marcio Thomaz Bastos e o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. A Folha também recebe farta publicidade governamental, do Banco do Brasil, da Petrobrás, da Caixa Econômica federal, entre outras.

Nos momentos de dificuldade, dirigentes do governo procuram sempre a grande imprensa para exporem suas idéias. Foi o caso de Antonio Pallocci, em 3 de junho último. Acossado por denúncias de enriquecimento ilícito, o ex-Chefe da Casa Civil convocou o Jornal Nacional, para dar suas explicações ao público.

O mesmo Antonio Palocci – colunista da Folha de S. Paulo entre 2009 e 2010 – dividiu mesas com Roberto Civita, Reinaldo Azevedo, Demetrio Magnoli, Arnaldo Jabor, Otavio Frias Filho e outros, em palestra no afamado Instituto Millenium, em março de 2010. A entidade congrega empresários do ramo e seus funcionários e se opõe a qualquer tipo de regulação em suas atividades.

Os casos de proximidade do governo e seus partidos com a imprensa são extensos. Uma das balizas dessas relações é o bolo da publicidade oficial. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a receita publicitária oficial em 2010 foi de R$ 1.628.920.472,60. Incluem-se aí os custos de produção e veiculação de campanhas, tanto da administração direta quanto indireta. Ressalte-se aqui um ponto: é legítimo o governo federal valer-se da publicidade para se comunicar com a população. A maior parte do bolo vai para os grandes grupos do setor.

No caso das compras de livros didáticos feitos pelo MEC, para as escolas públicas, o grande beneficiário é o Grupo Abril, que edita Veja.

Reclamação e democratização

Apesar do PT, partido do governo, ter feito uma moção sobre a democratização das comunicações em seu último Congresso, que gerou um seminário sobre o tema há poucas semanas, e do ex-ministro José Dirceu ter sido injustamente atacado recentemente pela Veja, é difícil saber exatamente que tipo de relação governo e partidos aliados desejam manter com os meios de comunicação. De um lado, como se vê, acusam a mídia de ser go lpista. De outro, lhe dão todo o apoio.

Alguns petistas se especializam também em utilizar o espaço da mídia para suas disputas palacianas. O jornalista Amaury Ribeiro Jr., por exemplo, em seu bombástico A privataria tucana, insinua claramente que o atual presidente do PT, Rui Falcão, teria vazado informações dos bastidores da campanha de Dilma Rousseff, no primeiro semestre de 2010, para nada menos que a revista Veja. Jornalista, Falcão é o mesmo que capitaneou o seminário petista sobre regulação dos meios de comunicação.

Pode ser que petistas e governantes tenham medo da mídia. Mas não se pode é ter um duplo comportamento no caso. Diante da opinião pública falam uma coisa, enquanto agem de forma distinta na prática.

O ex-presidente Lula reclamou muito da imprensa em seu último ano de mandato. No entanto, “Não houve qualquer alteração fundamental no quadro de concentração da propriedade da mídia no Brasil entre 2003 e 2010”. Essa constatação é feita pelo professor Venício Lima em brilhante artigo, publicado no final de 2010.

As resoluções da Conferência Nacional de Comunicação, realizada em 2009, mofam em algum escaninho do Ministério das Comunicações. O Plano Nacional de Banda Larga, que deveria fazer frente ao monopólio das operadoras privadas, acabou incorporando todas as demandas empresariais. O projeto de regulação da mídia elaborado pelo ex-ministro Franklin Martins desapareceu da agenda.

Por fim, vale uma nota. Temerosos com a chegada das gigantes da telefonia produzindo conteúdo televisivo e radiofônico para o mercado doméstico, os grupos Globo, Bandeirantes, Record e SBT fizeram intensa pressão pela aprovação da lei 12.485. O governo cedeu. A nova norma garante uma reserva de mercado para as velhas empresas de comunicação, embora as teles possam atuar da distribuição. O conjunto seguirá como um dos clubes mais fechados do mundo.

Como se pode ver, o governo e seus partidos de sustentação convivem muito bem com a mídia como ela é. Têm muita proximidade e pontos de contato, apesar de existirem vozes isoladas dentro deles, que não compactuam com a visão majoritária.

Nenhum dos lados tem moral para reclamar do outro…

*Gilberto Maringoni é jornalista, doutor em História pela FFLCH-USP e professor da Fundação Casper Líbero. É autor, entre outros, de Ângelo Agostini – A imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal, 1864-1910 (Devir Livraria, 2011)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PARA APRENDER AINDA MAIS

Mais um papa do pensamento filosófico contemporâneo é desafiado: Norberto Bobbio.
Interessante outra idéia adjacente. O Liberalismo é um movimento limitado, cujo propósito era combate o poder teocrático e despótico de então, mas que se torna obsoleto desde a época de Hegel, por não oferecer soluções aos problemas inerentes à própria sociedade que constrói. Fundamentalmente, não há resposta para a questão da miséria a que esse sistema condenou boa parte da população.