terça-feira, 1 de abril de 2014

RE-HISTÓRIA

Por força das atribulações da vida profissional, o blog anda meio às moscas. Os últimos meses foram intensos, na estrada, e me permitiram uma coisa com a qual já sonhei: num curto período de tempo, estive nas cinco regiões brasileiras.

No Sul maravilha, estive apenas a passeio. Pela BR-101, de carro, e pagando pedágios de R$ 1,70, fui até Florianópolis. Amei o que vi, comi como um rei, mas não moraria. Como ponto turístico, é perfeito. Na volta, parei em Joinville. No Centro-Oeste, onde fixei residência há 26 anos, estive em Goiânia e Brasília, que subiram em meu conceito. É que às vezes, santo de casa não faz milagre, mas, se comparadas com outras capitais... Por exemplo, para chegar à Paulicéia desvairada domingo último, de carro, levei de 3 horas para vencer as modernas e amplas rodovias Ayrton Senna e Carvalho Pinto, até o aeroporto de Guarulhos, num percurso de 120km. Conclusão da ópera: perdi o vôo.

Ainda no sudeste, pelo qual passei mais de uma vez, estive em Sorocaba, Campinas, no Vale do Paraíba, e estiquei ate a praia, na belíssima Trindade, município de Paraty, Rio de Janeiro. Nas últimas três semanas, conheci a tenebrosa Santa Luzia, região metropolitana de Belo Horizonte, encostado no distrito de São Benedito e ouvindo alertas sobre o perigo da violência urbana que eu pensava serem adstritos a São Paulo. Como BH enfeiou desde minha última visita (2004). Que trânsito caótico!

Pegando o gancho da mobilidade urbana, conto que aportei em Salvador antes da folia de carnaval. Me decepcionei com o estereótipo de praia, sombra e água (de coco) fresca. Salvador não tem praia e como estava trabalhando na Av. Paralela (curiosidade geométrica: ela não é paralela a nada), que liga o centro ao aeroporto, passando por incontáveis bairros, aluguei um carro, apenas para o trajeto trabalho-hotel-trabalho. E fiquei mais tempo dentro do Celta prata que consegui a R$ 60,00 a diária, preso nos intermináveis engarrafamentos, do que trabalhando efetivamente no que fui fazer. O que ia pagar de táxi, caso não alugasse o carro, não está no gibi.

E eis que agora escrevo de Rio Branco, no Acre, suando em bicas às 19 horas, no fuso local. Experimentando uma sensação ímpar de separatismo. Não como o dos gaúchos, que se julgam superiores aos mestiços e indolentes brasileiros. Mas também um sentimento de raiva, por tanta tempo de esquecimento e exclusão.A cidade sofre no momento com a falta de alguns produtos, por conta da cheia do Rio Madeira, que impede o transito na BR-364, via terrestre que liga o Acre ao resto do Brasil. Por isso, chegam carretas do Peru, via transoceânica, com todo tipo de produto. É inimaginável a histeria das redes de comunicação com o assunto. Trata-se de estado governado pelo PT há 16 anos e o PIG, mesmo o acreano, fica fulo da vida com isso. É um PT mais afeito à etiqueta palaciana, mas que jamais perderá o mérito de ter expurgado do poder bandidos e assassinos, como Orleir Camelli, Ronivon Santiago e Hildebrando Pascoal.

Enfim, essa são as notícias, mas uma data como essa tem que ser permanentemente lembrada, sob pena de repetirmos o erro. O dia que jamais acabou.
Esse texto foi escrito a exatos dez anos. Passávamos então pelos 40 anos da efeméride que marcou nosso futuro. É interessante notar como em 2004 já havia a preocupação com essa interpretação da história revisionista. Um pecado do original é a citação, em inglês. Ainda que seja uma música de "protesto", que lembra o domingo sangrento, e cantada na voz do oprimido o contexto hoje é de abertura dos arquivos norte-americanos. O U2 é irlandês, mas o nome do meio de John Kennedy, que conspirou à distância, fomentando o discurso ameaçador do comunismo, instando as elites à insubordinação e, principalmente, resguardando o aval político ao que os milicos fizeram, também é (Fitzgerald).
Endosso a ideia de um amigo que fiz nessas andanças, paranaense de Campo Largo: assim como já há a substituição de logradouros públicos como Castelo Branco, Costa e Silva, Médici e corriola, que se substitua o nome de todas as ruas, escolas e instituições que hoje ostentam o patromínico do infame ex-presidente dos EUA que apoiou o golpe militar no Brasil. Infame, como quase todos os outros

Real, but sad, Politik


I can't believe the news today
I can't close my eyes and make it go away.
How long...
How long must we sing this song?
How long, how long?*

As imagens de 40 anos atrás continuam vívidas nas íris de todo cidadão brasileiro. São marcas indeléveis no corpo nacional. Feridas que não cicatrizam. O golpe alterou para sempre os destino de todos nós, até mesmo daqueles que sequer existiam.

Personagens heróicos, dados a voluntariedade, a retidão de caráter, a fibra e a defesa de ideais, caçados como animais e empalados em praça pública, de forma exemplar. Personagens infames, metendo o coturno na cara da sociedade, com todo escárnio e desprezo pela humanidade, com o escopo de manter a ordem e acelerar o progresso. Infelizmente, milhares de outros personagens, hoje em dia tratados como heróicos ou infames, graças às circunstâncias criadas nesse purgatório terrestre.

Uma ínfima parcela da sociedade conhecia os fundamentos do comunismo. (aliás, nesse aspecto, pouco coisa mudou!). Pois os golpistas utilizaram a velha artimanha de instigar o pavor ao desconhecido para tentar alguma adesão, algum respaldo. Ao invés de levar luz onde há trevas, conhecimento onde há ignorância, leva-se o medo, e mantém-se a dominação, intelectual e física. A grande massa, circunstancialmente covarde, se omitiu.

Mesmo assim, foram repudiados pelo povo. Jamais houve uma manifestação popular tem apoio ao regime de exceção. Os desfiles de 7 de setembro lembravam o totalitarismo nazi-fascista. Vaquinhas de presépio, acuadas, aplaudiam comedidamente o passar dos tanques, que por qualquer motivo, poderiam esmagá-los instantes depois. Multidão reunida? Só pelas diretas...

Não menos culpados foram os “intelectuais” que tentaram dar um quê de racionalidade naquela estupidez. Bob Fields, Mário Henrique Simonssen, Delfim Netto. Jamais se aproximaram dos porões da ditadura. Jamais sujaram seus belos ternos, cortes impecáveis, com o sangue dos inocentes. Porém cometeram, não uma, mas várias vezes, o crime de lesa-pátria. Tornaram o FGTS um regime obrigatório, esfaqueando o suado salário do trabalhador. Revogaram a lei de remessa de lucros. Engessaram a reforma agrária, revertendo nosso campo para a exportação. Construíram obras faraônicas com o dinheiro público, e enriqueceram construtores, empreiteiros, conglomerados de mídia. Tornaram a corrupção uma instituição... Atrelaram definitivamente nossas vida à dívida externa. E ao FMI.

Um grande monumento à bestialidade humana. O autoritarismo, a tortura, a violência, o tacão dos tacanhos. DOI-CODI, Dops, as diversas tecnologias criadas para extrair confissões, e para retirar dignidade. Atentados contra civis, cavalos pisando homens. Arapongas, traidores, infiltrados. Repressão, mordaça, AI-5, truculência. Guerra Civil sob os auspícios de um milagre?! Não, não é para quem tem estômago fraco. É mais macabro que qualquer ficção. É mais mórbido do que qualquer adjetivo possa expressar.

Justificando o injustificável. Nos dias de hoje, os historiadores explicam os acontecimentos passados graças ao “despreparo” de Jango. Apontam um bode expiatório depois de perpetrada a carnificina. Oprimem, como fizeram idos atrás os golpistas, e como fazem hoje os organizadores da divisão social do trabalho, com a reengenharia. Como estes, fundam uma nova “ciência”: a Rehistória.

Ninguém Lê.com.br – Porque temos memória

(*)Eu não posso acreditar nas notícias de hoje
Eu não posso fechar os olhos e fazê-las desaparecer.
Quanto tempo...
Quanto tempo teremos de cantar esta canção?
Quanto tempo, Quanto tempo?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A SABEDORIA DO APEDEUTA

O texto abaixo vem de encontro ao atual propósito do ANTIPIG, qual seja, de superar a mera crítica à distorção em forma de “jornalismo” com que nos deparamos e veicular notícias com um cunho diferente do que está disponível no PIG. Por outro lado, ele fere uma das nossas premissas editorias, que é não reproduzir, e sim produzir nossas postagens.
Como se vê dispõem-se de forma pendular os prós e contras que fundamentam nossa decisão, de publicá-lo. Sem casuísmo, entendemos que é mais relevante o conteúdo do que a forma. Ou seja, ainda que não tenhamos competência para escrever de maneira tão lúcida, endossamos integralmente a idéia de que vivemos um período impar na nossa história, de oportunidades, crescimento e inclusão social.
E essa é uma pequena metáfora da vida. Nossas decisões (racionais) são baseadas nos valores em disputa. Seja o cidadão comum, seja o mais alto dignatário representante do povo no governo, todos estamos sujeitos a essas decisões, e os erros e acertos dela decorrentes. E o que precede a decisão? O conhecimento dos valores. Malemá, falamos de ética.
Quando um veículo de imprensa opta por encampar uma abordagem enviesada, cheia de ódio e ressentimento, também percebemos uma escolha ética. A ética da vantagem pessoal (ou do grupinho do qual faz parte), da segregação, da desigualdade, dos fins (derrubar o governo “adversário”) justificando os meios (qualquer torpeza publicável). Conhecendo os valores, sabendo pelo que prezamos, não faz muito sentido tentar corrigir o incorrigível, o PIG e a sua postura política.
Ademais, é simplesmente delicioso ver um torneiro mecânico, tantas vezes menosprezado pela sua falta de instrução formal, dar uma aula, integrando disciplinas como macroeconomia, geopolítica e gestão pública, além de sua notável sensibilidade, nos acadêmicos da catástrofe.

Pode ser encontrado em:
http://www.institutolula.org/artigo-de-lula-por-que-o-brasil-e-o-pais-das-oportunidades/#.UwyJuIV9O8A
http://www.valor.com.br/opiniao/3442426/por-que-o-brasil-e-o-pais-das-oportunidades
http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2014/02/25/aula-de-lula-faz-o-pig-chorar-de-raiva/

 

Por que o Brasil é o país das oportunidades

 

Passados cinco anos do início da crise global, o mundo ainda enfrenta suas consequências, mas já se prepara para um novo ciclo de crescimento. As atenções estão voltadas para mercados emergentes como o Brasil. Nosso modelo de desenvolvimento com inclusão social atraiu e continua atraindo investidores de toda parte. É hora de mostrar as grandes oportunidades que o país oferece, num quadro de estabilidade que poucos podem apresentar.
Nos últimos 11 anos, o Brasil deu um grande salto econômico e social. O PIB em dólares cresceu 4,4 vezes e supera US$ 2,2 trilhões. O comércio externo passou de US$ 108 bilhões para US$ 480 bilhões ao ano. O país tornou-se um dos cinco maiores destinos de investimento externo direto. Hoje somos grandes produtores de automóveis, máquinas agrícolas, celulose, alumínio, aviões; líderes mundiais em carnes, soja, café, açúcar, laranja e etanol.
Reduzimos a inflação, de 12,5% em 2002 para 5,9%, e continuamos trabalhando para trazê-la ao centro da meta. Há dez anos consecutivos a inflação está controlada nas margens estabelecidas, num ambiente de crescimento da economia, do consumo e do emprego. Reduzimos a dívida pública líquida praticamente à metade; de 60,4% do PIB para 33,8%. As despesas com pessoal, juros da dívida e financiamento da previdência caíram em relação ao PIB.
Colocamos os mais pobres no centro das políticas econômicas, dinamizando o mercado e reduzindo a desigualdade. Criamos 21 milhões de empregos; 36 milhões de pessoas saíram da extrema pobreza e 42 milhões alcançaram a classe média.
Quantos países conseguiram tanto, em tão pouco tempo, com democracia plena e instituições estáveis?
A novidade é que o Brasil deixou de ser um país vulnerável e tornou-se um competidor global. E isso incomoda; contraria interesses. Não é por outra razão que as contas do país e as ações do governo tornaram-se objeto de avaliações cada vez mais rigorosas e, em certos casos, claramente especulativas. Mas um país robusto não se intimida com as críticas; aprende com elas.
A dívida pública bruta, por exemplo, ganhou relevância nessas análises. Mas em quantos países a dívida bruta se mantém estável em relação ao PIB, com perfil adequado de vencimentos, como ocorre no Brasil? Desde 2008, o país fez superávit primário médio anual de 2,58%, o melhor desempenho entre as grandes economias. E o governo da presidenta Dilma Rousseff acaba de anunciar o esforço fiscal necessário para manter a trajetória de redução da dívida em 2014.
Acumulamos US$ 376 bilhões em reservas: dez vezes mais do que em 2002 e dez vezes maiores que a dívida de curto prazo. Que outro grande país, além da China, tem reservas superiores a 18 meses de importações? Diferentemente do passado, hoje o Brasil pode lidar com flutuações externas, ajustando o câmbio sem artifícios e sem turbulência. Esse ajuste, que é necessário, contribui para fortalecer nosso setor produtivo e vai melhorar o desempenho das contas externas.
O Brasil tem um sistema financeiro sólido e expandiu a oferta de crédito com medidas prudenciais para ampliar a segurança dos empréstimos e o universo de tomadores. Em 11 anos o crédito passou de R$ 380 bilhões para R$ 2,7 trilhões; ou seja, de 24% para 56,5% do PIB. Quantos países fizeram expansão dessa ordem reduzindo a inadimplência?
O investimento do setor público passou de 2,6% do PIB para 4,4%. A taxa de investimento no país cresceu em média 5,7% ao ano. Os depósitos em poupança crescem há 22 meses. É preciso fazer mais: simplificar e desburocratizar a estrutura fiscal, aumentar a competitividade da economia, continuar reduzindo aportes aos bancos públicos, aprofundar a inclusão social que está na base do crescimento. Mas não se pode duvidar de um país que fez tanto em apenas 11 anos.
Que país duplicou a safra e tornou-se uma das economias agrícolas mais modernas e dinâmicas do mundo? Que país duplicou sua produção de veículos? Que país reergueu do zero uma indústria naval que emprega 78 mil pessoas e já é a terceira maior do mundo?
Que país ampliou a capacidade instalada de eletricidade de 80 mil para 126 mil MW, e constrói três das maiores hidrelétricas do mundo? Levou eletricidade a 15 milhões de pessoas no campo? Contratou a construção de 3 milhões de moradias populares e já entregou a metade?
Qual o país no mundo, segundo a OCDE, que mais aumentou o investimento em educação? Que triplicou o orçamento federal do setor; ampliou e financiou o acesso ao ensino superior, com o Prouni, o FIES e as cotas, e duplicou para 7 milhões as matrículas nas universidades? Que levou 60 mil jovens a estudar nas melhores universidades do mundo? Abrimos mais escolas técnicas em 11 anos do que se fez em todo o Século XX. O Pronatec qualificou mais de 5 milhões de trabalhadores.
Destinamos 75% dos royalties do petróleo para a educação.
E que país é apontado pela ONU e outros organismos internacionais como exemplo de combate à desigualdade?
O Brasil e outros países poderiam ter alcançado mais, não fossem os impactos da crise sobre o crédito, o câmbio e o comércio global, que se mantém estagnado. A recuperação dos Estados Unidos é uma excelente notícia, mas neste momento a economia mundial reflete a retirada dos estímulos do Fed. E, mesmo nessa conjuntura adversa, o Brasil está entre os oito países do G-20 que tiveram crescimento do PIB maior que 2% em 2013.
O mais notável é que, desde 2008, enquanto o mundo destruía 62 milhões de empregos, segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil criava 10,5 milhões de empregos. O desemprego é o menor da nossa história. Não vejo indicador mais robusto da saúde de uma economia.
Que país atravessou a pior crise de todos os tempos promovendo o pleno emprego e aumentando a renda da população?
Cometemos erros, naturalmente, mas a boa notícia é que os reconhecemos e trabalhamos para corrigi-los. O governo ouviu, por exemplo, as críticas ao modelo de concessões e o tornou mais equilibrado. Resultado: concedemos 4,2 mil quilômetros de rodovias com deságio muito acima do esperado. Houve sucesso nos leilões de petróleo, de seis aeroportos e de 2.100 quilômetros de linhas de transmissão de energia.
O Brasil tem um programa de logística de R$ 305 bilhões. A Petrobras investe US$ 236 bilhões para dobrar a produção até 2020, o que vai nos colocar entre os seis maiores produtores mundiais de petróleo. Quantos países oferecem oportunidades como estas?
A classe média brasileira, que consumiu R$ 1,17 trilhão em 2013, de acordo com a Serasa/Data Popular, continuará crescendo. Quantos países têm mercado consumidor em expansão tão vigorosa?
Recentemente estive com investidores globais no Conselho das Américas, em Nova Iorque, para mostrar como o Brasil se prepara para dar saltos ainda maiores na nova etapa da economia global. Voltei convencido de que eles têm uma visão objetiva do país e do nosso potencial, diferente de versões pessimistas. O povo brasileiro está construindo uma nova era – uma era de oportunidades. Quem continuar acreditando e investindo no Brasil vai ganhar ainda mais e vai crescer junto com o nosso país.

Luiz Inácio Lula da Silva é ex-presidente da República e presidente de honra do PT

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

OSTRACISMO

Nosso tribunal maior, cada vez mais esculachado por alguns de seus próprios membros, que além de não possuírem envergadura moral necessária ao cargo, a chamada conduta ilibada (que advém do latim illibatus, ou seja, puro, nunca tocado) que a muito ficou pelas cucuias, merece ser questionado também por causa do que preceitua o art. 101 da CF/88.

A pergunta vem à tona na resenha da declaração do papalvo que cada vez mais se deslumbra com os holofotes e renega todos os códigos que disciplinam as condutas dos magistrados. Disse que "pessoas condenadas por corrupção devem ficar no ostracismo. Faz parte da pena".

Será que o notável saber jurídico pode surgir numa mente tão rombuda em outras disciplinas? Sim, porque consideremos duas situações: o pacóvio conhece o significado do termo que usou; logo, demonstra uma brutal ignorância política e filosófica, ramos de estudo correlatos ao direito. Porém, se fala sobre o que não domina, só reforça sua incalculável empáfia com a caricata postura de néscio.

Um pouco de conhecimento, para nos refrescar da tormenta de estupidez que assola o país.

Quem instituiu o ostracismo, como uma medida permanente contra os pretendentes à tirania, foi Clístenes. A cada ano, a assembleia votava se haveria ou não um ostracismo; se assim decidido, os cidadãos se reuniam na ágora e carregavam cacos de cerâmica (óstraka) com o nome de um político que desaprovassem ou temessem.

Para haver uma condenação, eram necessários no mínimo 6.000 (seis mil) cacos nas urnas; esta era a única ocasião em que os votos dos cidadãos eram formalmente contados. O homem que recebesse mais votos era devidamente punido com uma pena de exílio de 10 anos, embora não perdessem seus direitos de cidadão.

É sabido que o conceito de cidadão era bastante restritivo em Atenas. E também a participação nas assembleias não era nada espetacular (o julgamento de Sócrates, a título de exemplo, teve pouco mais de 500 cidadãos se manifestando). Ou seja, uma condenação dessa natureza só ocorria diante de imenso clamor. Agora, o toleirão que adora microfones querer comparar uma decisão dessas com uma sentença em único grau de jurisdição, cujo resultado se deu por maioria, num colegiado de 11 pessoas, é demais. E mesmo no ostracismo ateniense, o condenado não perdia seus direitos de cidadão, ou seja, mantinha o inalienável direito de se manifestar.

O ostracismo entrou em vigência em 487 a.C. contra o aristocrata Megaclés e outros antigos defensores da tirania e foi concebido como mais um entrave a esses elementos; assim, alguns óstraka sobreviventes trazem maldições contra uma possível vítima por apoiar os persas. O ostracismo, porém, podia ter um objetivo mais amplo na vida política ateniense. Vários anos antes, Periandro, tirano de Corinto, pedira o conselho de seu colega Trasíbulo de Mileto a cerca de como lidar com os descontentes; Trasíbulo simplesmente pôs-se a caminhar por um trigal, rompendo com o chicote os talos altos demais,  o que deixou confuso o mensageiro. Periandro, porém, compreendeu a mensagem, e os atenienses de origem nobre que se mostrassem ambiciosos demais podiam justamente temer o perigo de receber o ostracismo por ameaçarem “o consenso nacional, sobretudo por defender em público idéias ou atos que ameaçassem os valores da sociedade politica”.

Temístocles, militar que conduziu os gregos à vitória na batalha de Salamina, usou e abusou do instituto: passou a dirigir ataques contra seus próprios adversários, até obter em 482 a.C. o ostracismo de Aristides, famoso pela probidade. Logo, passou a ser o chefe indiscutível de Atenas quando teve de enfrentar o ataque das forças persas, por terra e mar, sob o rei Xerxes. Em 471 a.C., os oponentes de Temístocles, que, segundo as óstraka que nos chegaram, muitas vezes votaram contra ele no seu auge, dispunham de forças suficientes para tramar seu próprio ostracismo; nunca mais ele pode voltar a Atenas e morreu como hospede do rei da Pérsia.

Em algum momento dos anos 418/415 a.C. levaram a cabo o ostracismo do insignificante político Hipérbolo, uma farsa produzida quando os rivais Nícias e Alcibíades uniram forças; desde então o ostracismo nunca mais foi usado, até que 2.500 anos depois, um lacaio do poder tenta restabelecer a pena, deformando seu real significado.

Sugestões de leitura:

Os Gregos e a Democracia

por Voltaire Schilling

O Nascimento da Democracia Ateniense
por Chester G. Starr

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

domingo, 12 de janeiro de 2014

RIACE - CALÁBRIA - ITÁLIA

Se alguém tiver a curiosidade de digitar o nome "Riace", no google brasileiro, o primeiro resultado encontrado, antes mesmo da cidade, é referente aos "Bronzes de Riace", duas estátuas encontradas no Mar Jônico em 1972, datadas do séc. V a. C., sendo pelo menos uma delas atribuída a Fídias, considerado o maior escultor da Grécia Antiga.

Pudera, uma descoberta como essa é mais relevante que uma comuna de menos de 2.000 habitantes. Todavia, Riace conseguiu se tornar notícia novamente: na contramão do continente europeu, há mais de uma década trata com humanidade e acolhe os refugiados da África e da Ásia. A simbiose perfeita com os "homens vindos do mar", rechaçados e vistos como ameaça pelo resto da Europa, salvou o povoado da extinção.

A reportagem saiu na Deustche Welle, editoria francesa.
Link para reportagem: http://dw.de/p/1Agok

ALDEIA NA CALÁBRIA SOBREVIVE GRAÇAS A REFUGIADOS

O sol mal se levantou, e a equipe de lixeiros ecológico-tradicional já atravessa as ruas estreitas de Riace, na costa sul da Itália: dois homens e sua carroça puxada a jumento. Quebrando a tradição, contudo, só um deles é italiano.

Cerca de mil anos atrás, os ancestrais de Romano fundaram o lugarejo na Calábria – nas colinas, a cerca de oito quilômetros do mar, para se protegerem dos ataques dos piratas. O homem que acompanha Romano é um imigrante, Daniel. Ele é , como se diz aqui na região, um "homem do mar" – assim como eram chamados os piratas antigamente.

DUPLA SORTE PARA REFUGIADOS

Riace, cidade da hospitalidade
Para muitos italianos, gente como o auxiliar de lixeiro continua representando uma ameaça. Numa outra aldeia calabresa, houve choques entre os antigos moradores e os trabalhadores imigrados. Mas Riace é diferente: de seus menos de 1.700 habitantes, 300 são "gente do mar".

Na verdade, Daniel vem de Gana. Cinco anos atrás, ele desembarcou em Lampedusa, a ilha mais meridional da Itália. "Três dias e três noites nós ficamos num barco. Um risco tremendo, de que nós escapamos. Mas, o que se podia fazer? A gente tinha que vir. E se você sobrevive, sobreviveu."

O imigrante de 32 anos sabe que teve sorte de conseguir chegar vivo a Lampedusa. E mais sorte ainda que exista um lugar como Riace. Enquanto o resto da Europa se defende dos refugiados com cercas e polícia de fronteiras, esta localidade os acolhe, quer apoiá-los. E hoje Daniel vive com mulher e dois filhos na cidadezinha calabresa.

SALVA DO DESAPARECIMENTO

Esta região da Itália é pobre; aqui, quem manda é a Máfia. Os jovens abandonam a região assim que têm uma chance. O mesmo aconteceu em Riace: 15 anos atrás, sua população havia se reduzido de 3 mil para menos de 800. Porém, no início dos anos 2000, o prefeito Domenico Lucano passou a acolher imigrantes, os quais, segundo ele, substituíram todos os que abandonaram a cidade, evitando assim sua extinção.

"Antes, estes prédios estavam vazios e acabados", diz Lucano, apontando para as casas em redor. "Riace já era quase uma cidade fantasma. Mas nós construímos novamente as casas. Agora, famílias moram aí, e graças a elas pudemos manter a escola em funcionamento."

Também do ponto de vista econômico, os imigrantes são importantes, ressalta o prefeito: "Eles fazem os trabalhos que os italianos não querem mais fazer", cuidam dos idosos ou trabalham no olival para a sociedade de produtores de azeite. Um somali abriu um restaurante, outros atuam como tradutores ou mantêm pequenas lojas e firmas. Um deles, por exemplo, fabrica cerâmica tradicional de Riace, decorada com finas listras coloridas.

Malteses: rechaçados pela Europa
VANTAGEM PARA TODOS

Quem indaga os clientes mais idosos do café sobre a convivência com os imigrantes, não recebe resposta: eles apenas fazem um gesto de "deixa pra lá". Só um homem bem mais jovem, que não quer ser identificado se dispõe a conversar.

"É uma coisa excelente! Riace está cheia de gente outra vez. Antes, era tão vazio aqui." Também há mais empregos, comenta o rapaz, pois os moradores podem trabalhar para a organização que apoia os recém-chegados. "No entanto, os empregos deveriam ir primeiro para os cidadãos italianos. No momento, os imigrantes têm muito mais possibilidades do que nós", ressalva.

Para a afegã Marie, o trabalho numa oficina de trabalhos em vidro é um presente de Deus. "No Afeganistão, eu só ficava em casa e não podia fazer nada, assim como as outras mulheres." Mas ela deixou o país por outro motivo: seus três filhos.

"Minha mais velha, a Mariana, começou a ter problema com os talibãs. Eles queriam casá-la à força. Mas ela só tem 12 anos!" A afegã e sua família já estão há dez meses em Riace. No momento, ela trabalha no mosaico de um jóquei a cavalo, que vai ser vendido na loja ao lado. Ela recebe 500 euros por mês do município, além dos 200 euros do serviço de asilo.

Dinheiro Local: Gandhi e Che
O FATOR HUMANO

Essa ajuda financeira acaba revertendo também para a economia local, pois Marie, Daniel e os demais gastam seu dinheiro principalmente no comércio de Riace. Mas, como muitas vezes seu pagamento chega com atraso, Riace passou a imprimir seu próprio dinheiro, com retratos inspiradores de Martin Luther King, Che Guevara e Ghandi.

As cédulas funcionam como moeda normal: os requerentes de asilo podem comprar alimentos ou roupas com elas, e oportunamente os varejistas trocam seus Ghandis por euros de verdade.

Essa evolução positiva se deve, em grande parte, aos subsídios do governo italiano e da União Europeia. Mas ela também depende muito de gente como o prefeito Domenico Lucano. Nas últimas eleições, ele se candidatou com um slogan simples: "As pessoas mais pobres do mundo vão salvar Riace – e nós as salvaremos." Simples, mas eficaz.

domingo, 29 de dezembro de 2013

BOM PRINCÍPIO

2013 entra para a história como o ano do fracasso. A se informar pelo PIG, o Brasil se arrasta miseravelmente rumo ao precipício inexorável a que é levado pelo PT, sejam os petistas do governo, fora dele e até mesmo os encarcerados. Por outro lado, o dos fatos, vimos a derrota do levante golpista, da campanha contra os médicos cubanos e do Anderson Silva.

A bem da verdade, essa lenga-lenga já encheu o saco. Nas livrarias, a blitz direitista que assolou a mídia impressa está encalhada. Todos os outros livros venderam como água, exceto os deprimentes Olavo de Carvalho e seus sequazes que entulham as prateleiras. O descolamento da realidade como visto nas manchetes de "pior" (sic) Natal dos últimos 11 anos não repercutiu nos encontros familiares. Antes tão influente, esse tipo de literatura está condenada a morrer à míngua nas páginas cada vez mais obscuras da pitonisa do apocalipse, a revista Veja.

Só para ilustrar uma faceta, o editor do Anti-PIG, que esteve de férias nos últimos dias, cruzou de carro sete unidades da federação: DF, GO, MG, SP, RJ, PR e SC. Nunca se deparou com estradas tão bem conservadas, noves fora as rodovias privatizadas pelo estado de São Paulo, cujo valor médio de tarifas é de R$ 0,13 o km rodado, um dos mais caros do mundo, tema recorrente aqui no nosso blog. Reclamar do trânsito intenso, sobretudo em véspera de feriado, é cair no discurso do burguês incorformado com o aeroporto apinhado de gente ou com aquele não aceitava tantos pobres conseguirem ter seu próprio carro.

...

Pensamento: a viagem entre São Paulo e Florianópolis, 700 km percorridos em estradas federais tem 10 praças de pedágios com valor total de R$ 17,60 (R$ 0,025 o km). Ainda assim, optou-se pelo modelo de concessão pelo menor valor cobrado. Me lembro que, quando criança, morava em São Paulo e o pedágio era cobrado pelo DERSA. Nem se aventou a possibilidade da cobrança de pedágio ser feita pelo próprio Estado? Pode ser que haja alguma restrição legal que desconheço, mas a causa me parece ser o "custo" representado pela contratação necessária de servidores públicos para manutenção das rodovias, em oposição aos atuais prestadores de serviços sem a mesma cobertura de direitos trabalhistas bem como os contratos de empreita.

...

O fato é que o Brasil do PIG não existe. E uma impressão que estes últimos dias na estrada fizeram calar fundo é que o Brasil real já não acredita na papagaiada catastrofista do PIG. Nem mesmo no lugar mais abastado em que já estive na minha vida (Jurerê Internacional) há eco para a ladainha do contra. Foi desproporcional a repercussão entre a visita da Dilma à Floripa e o lançamento da candidatura Aécio no Café de la Music, espécie de embaixada de paulistanos rentistas em Jurerê. Não se compara, em termos de relevância e estatura moral, uma gigante e um anão.

Pobres, ricos e até a classe média, em que pese o chororô, melhoraram seu padrão de vida. Vivemos o menor desemprego já mensurado. E pleno emprego proporciona ao trabalhador maior poder de barganha junto aos patrões. Ao invés do que ocorria 15/20 anos atrás, quando o pauta era a redução de benefícios e a "empregabilidade", hoje falamos, ano após ano, em aumento real. O incremento nas vendas de shopping no período natalino de 6% (triplo da expectativa de crescimento do PIB) ilustra quais os dados concretos em que se fiar. Como escreveu o Conversa Afiada, desenvolvemos o Capitalismo com características brasileiras, que a direita e sua mentalidade colonizada é incapaz de entender.

Não se admite mais a mídia corporativa como formadora de opinião, o que é um excelente presságio para o porvir. Breno Altman, perseguido por uma súcia de psicopatas, vislumbrou o porquê. Enxergou certa direita republicana (palavras dele), que tenta vincular os êxitos do governo a eventuais ações do período administrativo anterior, com quem seria possível até certa discussão política. Já a outra manifestação, de cunho liberal-fascista (por mais que pareçam termos contraditórios, é a junção do Pinochet com a escola de Chicago e os seguidores de Ludwig von Mises), tomou conta dos grandes veículos de comunicação e empreende uma campanha de ódio, fundada no preconceito social e de cor que faria o corvo corar. São os caras que obstruem as livrarias citados acima. O guinchar dessa corja assusta até leitores conservadores, conduzindo esses meios à extinção em marcha acelerada e inevitável. Há que se considerar, porém, um tipo de Síndrome de Estocolmo na própria esquerda, que perde seu tempo falando sobre a novela. ou a capa de Veja. ou sobre o devoice.

O AntiPIG anseia dar boas notícias. Seremos a maior indústria naval do século XXI. Com o Pré-Sal, teremos a segurança econômica que alicerçará vôos maiores. O mundo renova suas esperanças na boa nova: queremos escrever sobre a comuna de Riace, na Calábria, e o projeto Agroflorestar, no Vale do Ribeira, em São Paulo. Continuaremos precavidos contra a sordidez costumeira, mas entendo que a hora é de nos apropriarmos de mais do que da agenda de debates: é hora de assumir as rédeas do nosso destino, como nação altaneira e povo autodeterminado.

Feliz 2014!

sábado, 7 de dezembro de 2013

MADIBA (1918-2013)

Os últimos anos têm nos reservados obituários difíceis de suportar. Ano passado se foram, nos últimos meses, Eric Hobsbawn e Oscar Niemeyer, o estudioso e o artista, o metódico e o gênio, o historiador e o inovador, humanistas que elevaram a dignidade da espécie a qual pertencemos.

Agora, depois do adeus a Hugo Chavez, lamentamos a passagem de Mandela. Nas palavras do presidente sul-africano Jacob Zuma, "Esta nação perdeu um grande filho". Vou além, e digo que o mundo se despediu de um gigante, talvez como os que povoaram a terra no princípio dos tempos. Um colosso em estatura moral.

(...)

Plutarco foi o criador do gênero que conhecemos como biografia. Sua monumental obra, Vidas Paralelas, traz 23 pares de relatos da vida de um grego e a de um romano. A mais conhecida é a que contrapõe Alexandre a Júlio César. Não de hoje, mas é fato que no mundo moderno, há um paralelo entre Mandela e Lula. A origem humilde, na essência de suas respectivas pátrias, a luta contra a legalidade instituída de forma iníqua, a formação de um partido político que representa o povo à margem das decisões e, o principal, a renúncia à vingança como forma de fazer política, apesar das absurdas injustiças que sofreram. Os "grandes interlocutores dos pobres", nas palavras de Bono Vox.

Um capítulo menor deste paralelo é a capacidade de preparar terreno para seus sucessores, que continuam sendo assediados pelo poder econômico: Na África do Sul, primeiro foi Thabo Mbeki, que o seguiu, rotulado ora como "radical", ora como "intransigente". Depois veio Jacob Zuma, tachado de "populista", além de impropérios mais baixos. Aqui, todos os defeitos foram imputados à Dilma Rousseff, por enquanto.

(...)

É importante aos incautos saber que Mandela tinha lado. Ou, usando uma palavra que cada vez mais se torna obscura, ele tinha ideologia. Era um socialista democrático que, quando bloqueado pela repressão, não hesitou em defender suas ideias pelos meios que estivessem à disposição. O poder branco, e todos os que legitimaram a bestialidade que ocorreu na áfrica do sul tinham em Mandela um adversário.

Reproduzimos abaixo o texto de Atílio A. Borón, do jornal Página 12, da Argentina. Foi transcrito no Conversa Afiada e traduzido pelo ANTI-PIG.



A morte de Nelson Mandela precipitou uma enxurrada de interpretações de sua vida e obra, todas as quais apresentam-no como um apóstolo do pacifismo e uma espécie de Madre Teresa na África do Sul.

Se trata de uma imagem essencial e premeditadamente errada, que ignora que, após o massacre de Sharpeville, em 1960, o Congresso Nacional Africano (CNA) e seu líder, precisamente Mandela, adotaram a luta armada e sabotagem a empresas e grandes projetos econômicos, porém sem atentar contra vidas humanas. 

Mandela recorreu a vários países da África em busca de ajuda econômica e militar para sustentar esta nova tática de luta. Caiu preso em 1962 e pouco depois foi condenado à prisão perpétua, o que iria mantê-lo relegado a um cárcere de segurança máxima, uma cela de dois por dois metros, durante 25 anos, exceto os dois últimos anos em que a formidável pressão internacional para alcançar sua libertação melhoraram as condições de sua detenção. 

Mandela, portanto, não foi um "adorador da legalidade burguesa", mas um extraordinário líder político cuja estratégia e táticas de combate foram variando conforme as diferentes condições sob as quais lutava suas batalhas. 

Dizem que foi o homem que acabou com a odioso "apartheid" sul-africano, o que é uma meia-verdade. A outra metade do mérito cabe a Fidel e a Revolução Cubana, que com sua intervenção na guerra civil angolana selou o destino dos racistas, ao derrotar as tropas do Zaire (hoje República Democrática do Congo), o Exército Sul-Africano e dois exércitos mercenários angolanos organizados, armados e financiados pelo os EUA através da CIA.

Graças à sua heroica colaboração, na qual uma vez mais se demonstrou o nobre internacionalismo da Revolução Cubana, se conseguiu manter a independência de Angola, assentar as bases para a posterior emancipação da Namíbia e disparar o tiro de misericórdia contra o "apartheid" sul-africano. Por isso, interado do resultado da crucial batalha de Cuito Cuanavale, em 23 de março de 1988, Mandela escreveu desde o cárcere que o desfecho do que foi chamado de "a Stalingrado Africana" era "o ponto de inflexão para a libertação do nosso continente, e do meu povo, do flagelo do apartheid".

A derrota dos racistas e seus mentores americanos desferiu um golpe mortal à ocupação sul-africana da Namíbia e precipitou o início das negociações com o CNA que, em pouco tempo, terminaria por demolir o regime racista sul-africano, obra conjunta daqueles dois gigantescos estadistas e revolucionários. Anos mais tarde, na Conferência da Solidariedade cubana-sul-africana de 1995, Mandela diria que "os cubanos vieram para a nossa região, como médicos, professores, soldados, técnicos agrícolas, mas nunca como colonizadores. Eles compartilharam as mesmas trincheiras na luta contra o colonialismo, o subdesenvolvimento e o 'apartheid'... Jamais esqueceremos este incomparável exemplo de desinteressado internacionalismo". É um bom lembrete para aqueles que falam da "invasão" cubana a Angola.

Cuba pagou um preço enorme para este nobre ato de solidariedade internacional que, como recorda Mandela, foi o ponto de inflexão da luta contra o racismo na África. Entre 1975 e 1991, cerca de 450.000 homens e mulheres da ilha foram parar em Angola, jogando-se nisso suas vidas. Pouco mais de 2.600 perderam-na lutando para derrotar o regime racista de Pretória e de seus aliados. A morte deste líder extraordinário que foi Nelson Mandela é uma excelente ocasião para render homenagem à sua luta e também ao heroísmo internacionalista de Fidel e da Revolução Cubana.

sábado, 23 de novembro de 2013

A DIREITA TACANHA DO DIA A DIA

Cena 1: Fico perplexo a cada postagem de Luís Nassif. Ele mantém sincera esperança de que haja no Brasil um opositor ao governo petista, no campo das ideias, com a mesma capacidade de formulação e execução de políticas públicas. Nassif imagina uma arena política onde direita e esquerda se equivaleriam em termos morais e o cidadão se comportaria como o eleitor-consumidor a escolher o melhor produto. Mais espantosa ainda é a crença de que esse contraponto possa ser feito pelo PSDB. A oposição feita pelos tucanos desde o primeiro dia de mandato do PT é negar tudo que eles fazem chegando ao ridículo de condenar quando os juros sobem e quando os juros caem.

Cena 2: Antonio Prata nos brindou com uma peça irônica, "Guinada à direita". Se infiltra nas hostes elitistas e repete a ladainha hidrofóbica contra negros privilegiados com cotas, vivandeiras do Bolsa Família, homossexuais e feministas. Apoios entusiasmados se multiplicaram nas redes sociais, pretexto para todos os bordões de menosprezo ao "crioléu, bichas, feministas rançosas e ao poderosíssimo lobby dos antropólogos". Uma semana depois, teve que se explicar: a realidade está tão grotesca que Prata foi menos "grosseiro, violento e delirante na sátira do que muitos têm sido a sério. Poucos dias antes da crônica ser publicada, um vereador afirmou em discurso que os mendigos deveriam virar 'ração pra peixe'".

Cena 3:  Meu irmão compartilhou esse meme aí ao lado na sua página do face, a partir do perfil "Um quê de Marx". Foi o suficiente para um primo nosso distante dizer que:
1.º Todo marxista sofre de falta de caráter;
2.º Parente ou não, que defende uma ideia que matou 100 mil pessoas é um tremendo canalha;
3.º Que o PT, que todo marxista adora (palavras dele), tem um acordo secreto com as FARC e que o Foro de São Paulo, fundado por Lula e Fidel Castro (palavras dele again), vai espalhar o comunismo pelo continente.

Com esse enredo, me pergunto: por que a direita é tão tacanha?

Explicações mais profundas podem ser encontradas na gênese da colônia de exploração e a utilização da escravidão. Os índios foram dizimados como um entrave ao butim dos brancos. Os negros, seres humanos da base da pirâmide social, eram objetos sem qualquer direito reconhecido. A desigualdade encontrou terreno fértil para se propagar e até hoje vivemos seu rescaldo. Aprendi isso lá pela 8.ª série e qualquer bom livro didático de história do Brasil traz o assunto. Ou trazia, pois a patrulha anti-comunista tem feito todos os esforços para retirar de circulação o material que apresente qualquer risco vermelho aos pupilos. Parte dessa estratégia está no fato da Ed. Abril controlar a distribuição de livros para os estudantes das escolas públicas do estado de São Paulo.

Tive um professor na Faculdade, oriundo da Escola Superior de Guerra (para quem não sabe, celeiro de "próceres" como Castelo Branco, Ernesto Geisel, e o Gal. Golbery do Couto e Silva), que foi o único caso de "intelectual de direita" que conheci pessoalmente: numa conferência reconheceu, à contragosto, dada sua veia militar, que o fim do capitalismo e do socialismo são o mesmo, o comunismo, a sociedade sem classes, sem carência de bens, sem poder político ou econômico dominante. A divergência está no caminho, ou nos meios.

Essa lufada de ar fresco em seu pensamento se deve, talvez, ao curso de pós-graduação em Ciência Política que fez na Universidade de Princeton. Nos EUA também há uma facção direitista tão obtusa como a nossa, representada pelo Tea Party, formado por racistas, defensores do mercado, contrários ao sistema público de saúde e demonstraram sua força na crise fiscal que quase levou o país à moratória. Todavia, em geral, a direita estadunidense é de uma racionalidade utilitária: se assim estão se dando bem, que assim prossiga.

Mas há menos resistência lá do que aqui com relação à cotas raciais e outras políticas inclusivas como bolsas de estudo, assistência social, cotas midiáticas, etc. Aliás, no mundo inteiro a resistência a essas iniciativas que objetivam a promoção da igualdade material, e cuja classificação jurídica varia da prevenção (ação afirmativa) ao mecanismo de compensação (discriminação positiva), é menor do que aqui. Porque a igualdade é um valor perseguido por quase todas as sociedades ocidentais, ao passo que aqui se tem a impressão de um anseio latente pela volta da escravidão. Não por acaso, há vários rankings que nos colocam como os campeões da desigualdade.

Na verdade, o que move nossa direita é a mais profunda ignorância. Ignorância é medo. É o medo de perder suas reservas de mercado. É o receio de ter que dividir privilégios. É o horror do aeroporto apinhado de pobretões. É a mania golpista de não aceitar as derrotas democráticas. É o temor que uma nova ordem destrua as estruturas viciadas. É a inconfessável tara pela bunda da mulata que serve como doméstica. É a fobia de ter que lavar as próprias ceroulas. É o pânico da educação popular. É a covardia de negar ao semelhante o que recebeu. É o pavor da emancipação do povo.

A mim, sinceramente, pouco importa. Enquanto a direita for guiada por Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Ali Kamel, et caterva, nenhuma ideia brotará em seu esteio. A única coisa que prolifera é o número de "entendidos" que ganham páginas nos jornais e tempo na TV para defenderem seus patrões. A segunda geração de imbecis que escrevem à soldo ideias ultrapassadas a, no mínimo, dois séculos, é ainda inferior à primeira. Para eles, igualdade social é coisa de comunista, e os comunistas comem criancinha, invadirão sua casa junto ao pessoal do MST, pintarão a bandeira de vermelho e tocarão fogo nas igrejas.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

QUANTO MAIS MEXE, MAIS FEDE

Nossos milhões de seguidores devem estar com a pulga atrás da orelha: por que um blog cujo título é uma oposição ao partido da imprensa golpista, o PIG, não toca no assunto do Mensalão e os desdobramentos da AP-470?

Resposta breve: merda, quanto mais mexe, mais fede. 
Elaborando melhor: esse blogueiro não tem vocação para mexer em latrinas.

O Anti-PIG tem lado. Na verdade, ele é profundamente influenciado por uma frase que consta no último parágrafo do prefácio do livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro:

"Portanto,
 não 
se 
iluda 
comigo,
 leitor. 
Além 
de 
antropólogo, 
sou 
homem
 de fé
 e 
de 
partido. 
Faço 
política 
e 
faço 
ciência 
movido 
por 
razões
 éticas 
e 
por 
um
 fundo
 patriotismo.
 Não
 procure,
 aqui,
 análises
 isentas.
 Este
 é
 um
 livro
 que 
quer 
ser 
participante, 
que 
aspira 
a 
influir 
sobre
 as 
pessoas,
 que
 aspira
 a
 ajudar 
o 
Brasil
 a 
encontrar‐se 
a 
si
 mesmo".



Na história das nossas 220 postagens, há varias críticas ao governo, ao PT, e até mesmo à esquerda em geral (principalmente sua falta de respostas às demandas impostas pelo mundo atual), motivadas por um viés ideológico assumido, socialista e humanista. Logo, sempre achei desnecessário dar qualquer repercussão aos escândalos midiáticos insuflados pelos grandes meios de comunicação. Francamente, se o leitor procura acusações contra o governo petista, aquelas fartamente denunciadas pela mídia fascista, de cunho direitista, não precisa vir aqui.

Também, se tiver interessado no julgamento da AP-470 sob o enfoque que o PIG deu e ao qual vários dos juízes do STF se curvaram, a página da folha da veja, e do globo e logo ali.



Se estiver disposto a sair do casulo criado pelas falsas informações, interpretamos do caso parte das seguintes premissas:

1.º Após 28 anos de carreira, um funcionário de carreira dos Correios, Maurício Marinho, vinculado ao PTB de Roberto Jefferson, que ocupava o cargo em comissão por causa da "cota" do seu partido, é flagrado se sujeitando a um suborno de R$ 3.000,00.

2.º Como soubemos posteriormente, o vídeo do achaque foi encomendado por Carlinhos Cachoeira, que agia em conluio com o araponga Jairo Martins e o jornalista Policarpo Jr., vulgo "caneta", diretor da sucursal da revista Veja em Brasília.

3.º Roberto Jefferson, cujo grupo assumiu posições na administração federal em nome da governabilidade, se sentiu fritado por essa armação e partiu para a retaliação. Em entrevista à Folha de São Paulo, denunciou um suposto esquema de compra de apoio da base do governo no congresso nacional. Daí o nome que o consagrou: "Mensalão", uma espécie de mesada, com repasses operados por Marcos Valério.



4.º José Dirceu, chefe da casa civil à época, não se esforçou em salvar Jefferson, ao contrário. Em termos pragmáticos, era interessante se livrar dessa pústula, pois seu incremento à coligação em número de votos e no parlamento não justificava a aliança. Isso o fez cair em desgraça com o petebista, que imaginou a tramóia da gravação ter sido orquestrada pelo próprio Dirceu.

5.º Na sua defesa, os advogados de Jefferson desmentem a existência do mensalão, exercício de "pura retórica", segundo a petição. Aludem a um acordo para as eleições municipais de 2004, na qual houve repasse legal de verbas do PT para o PTB, em conformidade com resolução do TSE. Em outras palavras, NEGOU a existência de uma pagamento sistemático de sinecuras para deputados da base aliada. Até porque seria paradoxal parlamentares do PT receberam propina para votar a favor do PT!

6.º Para confundir a situação e torná-la palatável como "mar de lama" lacerdista, a grana, apesar de operada por Marcos Valério, teria origem pública, através do Banco do Brasil. Na verdade, essa é uma cortina de fumaça que oculta o óbvio: quem é o agente (privado) corruptor de bancava repasses a deputados. Maior distorção ainda é entender o fundo Visanet, dinheiro de uma multinacional administradora de cartões de crédito, como dinheiro público.

Com essa "base factual" foi urdida a ação penal 470, que não merece pormenores, nem da peça acusatória, que serviu de púlpito para Roberto Gurgel demonstrar sua preferência de classe, nem do julgamento de exceção, que fez corar os juristas mais conservadores. Recordarei apenas da inicial, quando a PGR apresentou denúncia contra 40 indiciados, forçando paralelo com a história de Ali Babá (incluíram o Gushiken para completar o número cabalístico) e das vergonhosas arbitrariedades do julgamento, televisionado em dias e horários adequados ao encaixe na grade e nos interesses da Globo, cujo ápice se deu sexta-feira passada, um 15 de novembro para manchar a história republicana pátria.

Tive o prazer de conhecer o PT por dentro. Aprendi que não é um partido homogêneo nem centralista. É formado por tendências, que são ao mesmo tempo o que me encantam e me repelem. Me agradam porque o tornam o partido um organismo vivo, suscetível a mudanças, ao embate democrático, a correlação de forças representativas dos vários segmentos sociais que abraçam e depuram o sectarismo. E me afastam porque, como simpatizo com as correntes mais à esquerda, entraria no partido para fazer oposição a ele, o que considero uma esquizofrenia. No PED 2013, teria votado ou em Paulo Teixeira ou em Valter Pomar. Com isso, também deixo claro que Dirceu e Genoíno, mártires esquartejados na praça pública televisiva não são das tendências que eu mais aprecio.


José Dirceu foi o cérebro que fez Lula vencer a eleição para presidência, após três derrotas. É prático, e consegue resultados que assustam o poder constituído. Por isso é tão odiado. Paulo Nogueira apresentou uma tese que explica o fenômeno: ele tinha tudo para dar certo nas regras estabelecidas, mas preferiu lutar para mudar as coisas. Seu linchamento público tem o condão de apavorar futuros idealistas de classe média: nada de se meter com subversão; caso contrário, cadeia!

José Genoíno, já na curva descendente da carreira política e da existência, só foi preso porque, fortuitamente era o presidente do PT em 2005. O encarcerado seria Berzoini, José Eduardo Dutra, Rui Falcão, ou qualquer outro que estivesse no cargo. Agora, passa pelo constrangimento de provar que seu problema cardíaco não é um atestado forjado de aluno que cabulou aulas.

Henrique Pizolatto assinou um documento no qual haviam outras cinco assinaturas, mas só ele foi indiciado, e teve o mandato de prisão expedido exclusivamente por ser do PT. A justiça italiana pode expor o STF, que no caso se converteu em tribunal da inquisição, a uma humilhação internacional.

Por essas e outras, o "maior escândalo da história brasileira" se tornou uma salada indigesta. E as alternativas são excludentes. Ou se vomita essa pataquada e se repudia a farsa, ou se engole o prato do jeito que foi servido, o processa e o transforma no esterco que o PIG mexe e remexe.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

OS REAÇA DA CLASSE MÉRDIA

Um artigo bombou: "Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira", de Renato Santos de Souza, da Universidade Federal de Santa Maria, RS. Publicado em 30/10/2013, no Nassif, foi reproduzido por diversos blogs interessantes. No original, chegou a quase 500 comentários, o que ensejou a continuação: "Desvendando a espuma II: de volta ao enigma da classe média".

Além de recomendar entusiasticamente a leitura de ambos, quero expor algumas idéias relacionadas. O texto parte do espanto, e da posterior tentativa de entender os impropérios com que Marilena Chauí classifica a classe média: violenta, fascista e ignorante. Renato defende a tese verossímil de que o alicerce ideológico em que se funda o reacionarismo da classe média vem da sua particular interpretação e valoração da meritocracia.

Oras, num sistema que legitima a herança, a meritocracia é só um enfeite para a retórica mais demagoga. Na segunda geração, a proposta já está desvirtuada. Meritocracia pressupõe que, partindo de iguais condições, com as mesmas oportunidades, as pessoas alcancem resultados econômicos equivalentes aos seus esforços. Mas não estamos nesse estágio e as circunstâncias são brutalmente díspares. O "de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades"* é uma referência ao mérito não hipócrita: um vez satisfeitas as carências de todos os homens, o excedente estará disponível conforme a aptidão de cada um.

Outro problema do mérito é sua subjetividade. Esse talvez insolúvel. Depende mais do avaliador do que de quem recebe. Nos testes para habilitação, os candidatos rezam para pegar um instrutor mais condescendente, sendo que sua competência para dirigir não se altera em nada se cair com um examinador severo. Ou um professor que marque prova, sem falar qual é a matéria, qual a nota mínima para aprovação nem quais os critérios que utilizará. Quais os méritos "justos" para se valorar um sujeito perante a sociedade? Sem uniformidade total de raciocínio, que está longe de ser uma das metas da humanidade, o julgamento em que se baseia a meritocracia é inerente à moral do juíz.

Renato ressalva que não propõe a extinção dos concursos públicos, nem a volta das indicações para a ocupação dos cargos. Ele entende que um dos limites da meritocracia é justamente esse: no afã de criar critérios de aceitação universal, ela deixa de mensurar o mérito (aliás, sua conclusão é que o valor subjetivo do mérito é imensurável) e passa a verificar o desempenho. Logo, ao invés de vivermos uma meritocracia, estamos numa "desempenhocracia" e, levando-se em conta as relações sociais desiguais que perfazem a lógica do mercado e da sociedade capitalista, a outrora aceitável "ética do merecimento" se transforma na perversa "ética do desempenho".

Discussão do mérito à parte, tenho outras proposições. Na divisa entre Goiânia e Aparecida de Goiânia há um bairro em litígio, chamado popularmente de "Nem": nem Goiânia, nem Aparecida. Esquecido pelos dois poderes públicos. A classe média também se realiza nesse papel de encaixe: nem ricos, nem pobres;  nem detentores dos meios de produção, nem meras engrenagens do sistema produtivo; nem burgueses, nem proletários.

Por pressão social, a classe média é instável; por posição hierárquica é relativa e variável. Não existe "média" sem extremos e sua situação depende deles. Falamos de quem acabou de emergir dos estratos econômicos inferiores (fenômeno com que lidamos de maneira inédita, num país que incluiu 60 milhões de almas no mercado de consumo). De quem estacionou nessa faixa econômica, e não demonstra ímpeto em enriquecer. E como velhas e gordas ratazanas, parecem saciar-se com as migalhas caídas dos lautos banquetes dos poderosos. Ou ainda de quem imita e inveja o modus vivendi dos abastados, seu modelo cultural e seu padrão de enbanjamento. Então, a classe média é reacionária, mas há um erro conceitual em lhe tachar como "conservadora".

A classe média reage quando se opõe às políticas de inclusão social que podem lhe retirar o prestígio relativo de estar em posição superior aos pobres. Se estes ascenderem ao nível econômico da classe média, esta se tornará o quê? Por definição, não estará acima de ninguém. Ralé, chão, base da pirâmide social. Ser contra as cotas universitárias, médicos estrangeiros, bolsa família é o pano de fundo de defesa de uma posição, marcação de território. Mas nada calou tão fundo, no dia a dia da classe média, quanto a garantia dos direitos trabalhistas às empregadas domésticas. Era nessa relação suserano-vassalo que se manifestava de maneira mais evidente a supremacia classista sobre os miseráveis.

Já entre os que estão na classe média a algum tempo, ou se preparando para escalar os paredões do alpinismo social, o reacionarismo está na questão de se aferrar em privilégios históricos que constituem o ideal de vida. Desmontar a estrutura de regalias e benefícios que estão arraigados na sociedade pelo menos desde Cabral, agora que eles estão "chegando lá", seria uma injustiça desmedida. Eles também querem desfrutar da boquinha. É o que Veblen chamou de emulação pecuniária: indivíduos se comparam uns aos outros de forma a determinar quem é o melhor, ou quem é o vencedor, a disputa de egos e poder na arena econômica.

Para obter a estima de seus pares, não é suficiente a mera posse de poder ou riqueza. Há que se por em evidência e mostrá-las, como os fiscais da prefeitura de São Paulo apanhados em delito. Esta pantomima simbólica se materializa através da posse de certos bens, cujos anseios são infinitos, pois uma vez saciados todos os desejos, é inerente ao prórpio sistema a criação de necessidades artificiais. Como dizia a assinatura da marca Diesel, temos que buscar “The Successful Living”: o sucesso ou o poder são expressos pela posses de bens e marcas de prestígio, raras e pouco acessíveis. O status é algo tão irracional que bagunça qualquer teoria econômica pressuposta na razão.

A faculdade particular é o exemplo mais bem acabado desta realidade. Para ampliar o número de alunos e diminuir os problemas de inadimplência, decidem baixar os preços. O efeito é o reverso: a redução dá a entender que a qualidade caiu, junto com o prestígio da escola em si, causando uma queda correspondente na procura. Por outro lado, quando aumentam as mensalidades, cresce o número de matrículas. No entanto, há o problema prático de acessibilidade. A solução adotada por muitas instituições é incrementar simultaneamente o preço do ensino e a disponibilidade de auxílio financeiro e descontos para alunos carentes, o que permite que a instituição amplie o número de alunos matriculados, reforce seu “revestimento” de qualidade e pareça benevolente ao oferecer mais auxílio e descontos para os alunos. (…) essas táticas devem ser usadas com cuidado, pois os programas de auxílio ou descontos excessivamente abundantes minam o efeito.

Assim como as casas noturnas prediletas da classe média. Quanto mais cara, singifica melhor e mais bem frequentada, pois quem tá lá é quem teve grana/contato para entrar. E tem coisa melhor do que cair na night rodeado de gente rica e bonita? Ainda bem que nem todos pensam assim...




* "Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades" Karl Marx, Crítica ao Programa de Gotha, 1875.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SEMIÓTICA

Atribui-se a Confúcio a máxima de que uma imagem vale mais que mil palavras.


Marshall McLuhan deixou como frase à posteridade "o meio é a mensagem". Não caberia explicação, mas o meio a que se refere encampa o conjunto de expressões que uma linguagem midiática pode decodificar ao ser apropriada por outro usuário.


O termo ideologia foi criado por Antonie Destutt, o Conde de Tracy. Seu significado logo foi deformado quando Napoleão  chamou o conde e seu séquito de "ideólogos", enfatizando o carater de deformadores da realidade.


Marx abre uma senda na ideologia, como concepção de uma consciência falsa, oriunda da divisão do trabalho entre os manuais e os intelectuais. Logo, geraria a inversão (ou camuflagem) da realidade, obviamente em favor da classe dominante.


Chegamos ao estágio onde a reprodução da ideologia dos senhores, de linhagem econômica, alcança cada cidadão ininterrupta e sistematicamente. O governo, que tem o condão de contrapor a política à dominância, abastece as burras de seus adversários. Os desvalidos da história seguem assimilando o discurso do opressor, a subjetividade do patrão em seu próprio prejuízo. E meia dúzia de intelectuais (ou ideólogos, na primeira acepção do verbete) acendem o rastilho de uma quixotesca disputa, no pandemônio da www.


O que é possível?

Subverter a ordem?
Democratizar os meios de comunicação?
Escrever um artigo com quatro fotos?