segunda-feira, 24 de junho de 2013

RESISTÊNCIA AO GOLPE

Hoje participei de um debate com professores secundaristas, em uma escola estadual exclusivamente destinada ao ensino médio e em período integral, cuja audiência foi formada pelos estudantes de 16/17 anos, dos 2.° e 3° anos. Reforcei minhas convicções acerca de quem compõem o grosso dos protestos: os alunos que se identificaram como partícipes das marchas são providos das famigeradas boas intenções, daquelas das quais o inferno está cheio, são motivados pelo senso de manada e por uma espantosa ignorância política. Passei o vídeo do PC Siqueira diferenciando em termos elementares direita e esquerda, e depois ainda tive que esclarecer que a Globo é de direita! Ninguém realmente sabe o que é a PEC 37, e quando o debate direcionou-se para esse assunto virou uma espécie de aula ampla: disse que se eu fosse a contra a PEC 37 não sairia às ruas para defender esse ponto de vista, pois esse é o ponto de vista da Globo, e agindo assim eu estaria sendo feito de boneco de marionete, igualzinho a Globo pretendia. Na falta de profundidade ideológica, a aversão à Globo serviu-me como tábua de salvação.
Eu não passo um segundo sem me culpar por essa falta de cultura política que assola o país. Não que me sinta o portador de uma mensagem superior, mas tenho a consciência de fazer parte de uma geração que vestiu a carapuça capitalista com ardor e assumiu o cinismo de ignorar/odiar a política como atitude louvável.
Os militantes do facebook, entre outras vicissitudes, são a-históricos. O mundinho deles começou mês passado, e todas as mazelas do Brasil são culpa do atual governo, e no fim das contas, do PT. No vácuo cerebral, os movimentos sociais dos trabalhadores e setores oprimidos são apenas os legitimadores do governo petista. Dá engulhos ver como são suscetíveis às mentiras e hoaxes propalados na internet. Não tem um imbecil que cheque a veracidade dos fatos! São piores que os amentais que formam seus juízos via grande mídia, porque além de não compreenderem lhufas do contexto em que vivem são a versão acabada da maria-vai-com-as outras. Orgulhosos, se julgam os donos de uma nova realidade, que suplanta tudo que foi feito até então, e cria o novo por geração espontânea.
E o mais grave é a falta de discernimento da maioria dos professores. Um professor de história se disse "confuso" e nada mais acrescentou ao debate. Outros criticam a falta de rumo dos protestos mas não esclarecem nenhuma vírgula ao pobres estudantes. Lembrei-me da etimologia de aluno ( do latim a-lumni, o sem luz). Há ainda os que incitam os discentes a irem para os protestos, desde que bem fundamentados. Raros são os pontos fora da curva, que têm acúmulo teórico para orientar com bom senso pessoas em formação sob sua responsabilidade.





À tarde, a presidente falou novamente à nação.





O roteiro do golpe continua escancarado: tumultos, turbulência, clima de insegurança entre as pessoas. É óbvio que haverá reflexos econômicos. Pululam denúncia de abuso das forças policiais. Nesse cenário de instabilidade, as brechas jurídicas surgirão. Em condições normais, aplicaria-se o princípio da insignificância jurídica, mas no caos, o procurador-geral oferecerá denúncia e o Supremo votará o impeachment da presidenta. Filme repetido, segue os mesmo passos que vimos em Honduras e no Paraguai.
Para evitar esse desfecho já programado,  a saída republicana foi oferecida hoje: primeiro, um plebiscito autorizativo para convocar uma Constituinte com a finalidade de fazer a reforma política e eleitoral.
Os novos constituintes terão que ser eleitos, por exemplo, segundos as regras da OAB: empresas não poderão financiar políticos e pessoas físicas só poderão contribuir para um candidato até um salário mínimo. Se os constituintes forem eleitos pelas regras atuais, farão uma Constituição como se fossem pilotos de Fórmula 1: chegarão no Congresso cobertos de adesivos de seus patrocinadores. Caso contrário, a maior bancada será a da Globo (de novo). O poder emana do povo e é exercido diretamente por ele, que convoca a Constituinte. Pela fala de hoje, percebemos que é uma Constituinte unicameral: não tem distinção entre Senado e Câmara. A decisão é por maioria absoluta, simplificando o rito, e concluindo seus trabalhos no prazo de um ano, com promulgação legimitada em referendo popular.

Um comentário:

Patrick Zechim disse...

Salve, Marco. Compartilho da sua dor de ver o que está sendo gerado nos bancos escolares deste país. Não há distinção entre alunos de escolas públicas ou particulares no quesito despolitização, alienação etc. Assistimos nas escolas o triunfo do projeto capitalista de completa perda do sentido do que seja Política de fato a partir do estabelecimento da cultura de massas. O Hobsbawm trata um pouco disso no "Era dos Extremos" e a esse assunto no livro póstumo "Tempos Fragmentados", onde discute o virtual desaparecimento do programa iluminista nos diversos campos da vida humana em função da fragmentação acelerada em que vivemos.
Gostaria de comentar também que a reação ao pronunciamento da Dilma já começou e com força. O resgate dessa bandeira histórica do PT (a reforma política) que foi abandonada em virtude da tal governabilidade já está sendo chamada pela direita de golpe. No sítio da UOL, o FHC já escreveu abertamente que a proposta é de regime autoritário (olha o eco do "origens do totalitarismo aí, minha gente"); Fernando Rodrigues já deixou claro que outros presidentes se deram mal ao usar a "tática" da presidenta.
Enfim,há que se estar atento no combate às diversas formas que a direita golpita via PIG vai martelar isso tudo na cabeça desses meninos e meninas que você descreveu.