domingo, 18 de setembro de 2011

TEM ACORDO NÃO...


Aparentemente, as sertanejas Francisca Maria da Silva, 89, Maria Francisca da Silva, 69, e Ozelita Francisca da Silva, 58, têm uma vida comum para quem mora no interior do Nordeste, dedicando todo o tempo para cuidar das casas onde vivem. Além do fato de serem mãe e filhas, as três dividem casa, comida e carinho com o mesmo marido há mais de 40 anos.

O agricultor aposentado Luiz Costa de Oliveira, 90, vive maritalmente com a mulher, com a cunhada e com a sogra no município de Campo Grande (270 km de Natal), e com as três teve nada menos que 36 filhos. Outros 17 vieram do primeiro casamento. Além da meia centena oficial, existem ainda outros três, dos quais ele não tem certeza da paternidade. Mas também não nega.

A filha mais nova de seu Luiz tem 13 anos, o mais velho, 54. A lista de membros da nova família Oliveira é extensa. A primeira mulher do trio, Maria Francisca, é mãe de 17 filhos. Em seguida, no segundo casamento com a irmã da esposa, Ozelita, foram mais 15. Para não perder a oportunidade, ainda fez um filho com a sogra, dona Francisca Maria. “Tempo desses apareceram mais três dizendo que ‘era’ meu, mas não tenho certeza, mas também não vou negar”, disse Oliveira.

Apesar da grande quantidade de filhos, apenas 38 estão vivos, e a maioria mora em Campo Grande. A lista de herdeiros aumenta com o número de netos. São 100 netos e 60 bisnetos.

Três mulheres

Seu Luiz conta que a relação com as três mulheres começou depois que ele ficou viúvo da primeira mulher e “se juntou” com Maria Francisca da Silva, a “Francisca Velha”. “Fiquei com 17 filhos para criar, e a ‘véia’ se prontificou a me ajudar. Logo depois começaram a vir os nossos filhos”, disse, explicando que a cunhada, Ozelita, vinha cuidar da irmã no período de resguardo e também "dava assistência” a ele.

“Não escondo que sempre fui namorador. A melhor coisa do mundo é mulher, e meu divertimento era namorar. Preferi que meus namoros ficassem em casa, e elas se entenderam. Nunca houve uma briga, pois eu lembro muito bem que dava conta de todas, além de trabalhar muito na roça para sustentar todos os meus filhos. Nunca faltou nada para ninguém”, disse.

O homem conta que o início do namoro com a sogra também aconteceu no período de resguardo da mulher e da cunhada. Ele tem apenas um filho com ela. A cunhada e “segunda mulher” de Oliveira, Ozelita, conta que o segredo de dividir o marido é a união da família e o amor por igual que ele tem. “Nunca houve distinção. O jeito conquistador dele conseguiu a paz e a união da nossa família. A gente não tem ciúme porque a gente sabe da dedicação dele por todas nós”, disse, ressaltando que as três Franciscas não aceitariam dividir com mais outra pessoa o amor de Oliveira. “Ia ter briga se ele arrumasse uma amante, com certeza.”

Duas casas

Com uma família maior que a tradicional, seu Luiz conta que vive com a mulher em uma casa e mantém a cunhada e a sogra numa outra próxima. Ele diz que tenta distribuir seu tempo para dar assistência às duas casas.

“Antes eram as três mulheres juntas. Mas como são muitos filhos, meu pai conseguiu comprar uma casa mais nova e deu para a minha tia”, disse Cosme da Silva Costa, 18, um dos filhos.

sábado, 10 de setembro de 2011

O BANHEIRO E A POLÍTICA

Em 1988, à frente de uma equipe de tevê, fui ao leste europeu realizar documentário sobre a perestroika - reestruturação político-econômica sob a liderança do russo Mikhail Gorbatchev. Em Praga, numa fábrica de automóveis, nosso repórter pergunta ao líder dos operários se a perestroika chegou ali. Ele nos aponta os banheiros: "Nas nossas latrinas a perestroika não chegou".
Eram imundas. Mas por que me lembrei disso? Ah, sim, saiu pela Agir a 2ª reimpressão do Febeapá, Festival de Besteira que Assola o País, instaurado com o golpe de 1964, do Stanislaw Ponte Preta. Num artigo, o atilado jornalista transcreve um capítulo de Encanamentos e Salubridade das Habitações, do engenheiro português João Emílio dos Santos. É a versão lusitana do Febeapá. Ensina a instalar retretes coletivas "principalmente" em grandes empresas, para evitar que "mandriões incorrigíveis" ali fiquem "além do tempo indispensável" - retrete é latrina e mandrião é malandro em Portugal.
O desequilibrado, digo, o engenheiro acusa os operários de "aproveitar a ida à retrete amiudamente para abandonar o trabalho". Dá várias ideias: porta baixa, para se ver quem está lá; barras de ferro nas paredes "que correspondam aos sovacos", para a pessoa ficar pendurada e querer livrar-se logo do suplício; tampo inclinado; uma descarga periódica de vapor quente.
Mas, explica a cavalgadura, digo, o engenheiro, o melhor mesmo é manter as latrinas "num estado de imundície tal que o cheiro afugenta dali os operários logo após satisfazer suas necessidades".
Stanislaw publicou "sem comentários, mas comentemos. A melhor referência a essa insanidade de certos patrões, a preocupar-se com o tempo gasto pelos funcionários no banheiro, está em Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin. Carlitos é literalmente moído pelas engrenagens da máquina capitalista. E quando o chefe o libera para usar o banheiro e ele aproveita para fumar um cigarrinho, surge num telão o patrão mandando-o de volta ao trabalho.
O documentário sobre a perestroika também foi ilustrativo. Editamos em Praga, última escala da viagem. Para minha surpresa, aparece na véspera da partida um "jornalista" do Partido Comunista Tcheco. Queria ver o trabalho. E, adivinhe, implicou com a menção às nojentas latrinas. Disse-me através do intérprete:
"Não tem cabimento num documentário tão bem fundamentado falar em banheiro sujo".
Sob alusões de não nos deixar sair do país, tive que tirar a fala do líder operário. Mas o colega editor, Yeken Serri, tinha feito duas cópias. Enganamos o censor e trouxemos a versão completa. Que acabou inédita: a emissora que negociou o documentário recusou-se a pôr no ar alegando "questões técnicas".

Por que se negam a considerar a limpeza de banheiros coletivos ou públicos com um dos objetivos da política?
Mylton Severiano


Instalações sanitárias (retretes coletivas):

Do original:
Na instalação de retretes coletivas nos quartéis, escolas e, principalmente, nas grandes oficinas, é necessário adotar disposições especiais, por assim dizer: disciplinares, para evitar que o pessoal ali permaneça além do tempo indispensável. É de todos conhecido que os operários menos cuidadosos com os seu deveres, aproveitam a ida à retrete ameudadamente para abandonarem o trabalho. Recorre-se por isso a diversos meios que tornam incômoda a permanência nas retretes. As portas dos sanitários devem ser baixas, para que facilmente se veja de fora quem lá está. Usam-se muito as retretes turcas, onde as pessoas se teem de acocorar para delas se servirem, mas tem-se reconhecido que nao é bastante isso, por não ser a posição incômoda para todas as pessoas.

Também se costuma colocar nas retretes desse sistema uns descansos de ferro encastrados nas paredes e que correspondem aos sovacos e onde as pessoas ficam por assim dizer penduradas para fazer as necessidades. Ainda se tem usado o tampo das retretes bastante inclinadas, para que o pessoal não fique bem sentado, mas apenas encostados, numa posição bastante incômoda, mas todos esses dispositivos são ineficazes quando se trata de mandriões incorrigíveis. Recorre-se, igualmente, à ação da água ou do vapor. Periodicamente lança-se nas retretes uma violenta corrente, que as lava, arrastando os dejetos, mas dirigida de um modo que uma parte da água molhará as pessoas que ali estiverem sentadas ou acocoradas; mas exige esta disposição que se disponha de um volume considerável de água, o que nem sempre sucederá.

Empregando as retretes do sistema Doulton já descritas, pode usar-se com o mesmo fim a descarga de vapor das máquinas, feita na canalização; a temperatura do vapor é bastante para queimar ou, pelo menos, tornar insuportável a permanência nas retretes. Um meio preconizado por industriais para evitar a permanência do seu pessoal nas latrinas, é mantê-las num estado de imundice tal que o cheiro afugenta dalí os operários logo após satisfazer suas necessidades.


Fonte: livro "Encanamentos e Salubridade das Habitações", pág. 148-149, capítulo 5, 3a. edição, Lisboa, Portugal. Autoria do engenheiro português João Emilio dos Santos Segurado. Parte da coleção da Biblioteca de Instrução Profissional.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CONCLUSÕES

“Não morreremos de velhos, morreremos das velhas feridas.”
Semion Gudzenko (1922-1953)

A guerra germano-soviética ocupou um capítulo a parte na história da Segunda Guerra Mundial, principalmente pela ferocidade com que foi travada e pelo grau inaudito de destruição que provocou. Conforme o conflito foi se estendendo por boa parte da Rússia ocidental e se prolongando por quatro anos, terminou por ganhar dimensões épicas. Stalin tentou inicialmente dar um cunho ideológico ao ataque nazista, querendo entender que se tratava primordialmente de um enfrentamento entre o comunismo e o fascismo europeu. Hitler talvez pensasse o mesmo no começo. Mas o ódio que a ocupação da Rússia despertou entre os seus habitantes e as crescentes atrocidades dos invasores fizeram com que ela descambasse para uma guerra étnico-racial. Logo os comunistas trataram de defini-la como a Grande Guerra Patriótica, procurando com isso atribuir-lhe um cunho nacional-patriótico, chamando para as suas fileiras os nacionalistas e os anticomunistas que ainda sobreviviam no país, para formarem uma poderosa frente de resistência. Não se tratava mais de comunistas contra fascistas, mas do povo russo inteiro contra o que o escritor Ilya Ehremburg chamou de a "praga de gafanhotos", os alemães. E de fato, foi em solo russo que a Alemanha perdeu mais de 70% dos seus efetivos (cerca de três milhões de baixas).


A Vitória Soviética

Depois de terem sido detidos em Leningrado (cercada durante 900 dias) e na frente de Moscou, em dezembro de 1941, duas outras batalhas colossais colocaram fim nas possibilidades de vitória nazista. A primeira delas foi travada na cidade de Stalingrado, à beira do rio Volga, que culminou na rendição do 6.º Exército Alemão, comandado pelo marechal von Paulus, no dia 1.º de fevereiro de 1943, que provocou uma perda de 300 mil homens. A segunda foi a batalha de Kursk, ocorrida no sul da União Soviética e que tornou-se maior batalha de blindados de todos os tempos, quebrando para sempre a capacidade ofensiva do exercito alemão. Dali em diante, o exército vermelho, ao preço exorbitante de cinco milhões de baixas, tomou a contra-ofensiva em toda a extensão do front, até que, finalmente, os marechais soviéticos Zuhkov e Konev entraram numa Berlim completamente destruída, em abril de 1945, obrigando a Alemanha nazista à rendição final no dia 8 de maio daquele ano mesmo.

Bandeira soviética erguida sobre o Reichstag (2 de maio de 1945)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"ESPERE POR MIM"

Um dos poemas mais comoventes que retrata a situação do soldado russo no front de guerra do ano de 1941, dilacerado pela tragédia da guerra e a esperança de um dia sair dela vivo e vitorioso, foi escrito por Konstantin Simonov. Disse ele:


Espere por mim, que eu retornarei - só espere com muito ardor;

Espere da mesma forma quando você sentia-se triste pela chegada da chuva amarela;

Espere quando o vento varrer os flocos de neve; espere no mais intenso calor;

Espere quando os outros, esquecendo-se dos seus dias anteriores, pararam de esperar;

Espere mesmo quando de longe não mais chegarem cartas para você;

Espere mesmo quando os outros já cansaram de esperar;

Espere mesmo quando a minha mãe e o meu filho pensarem que eu não existo mais;

E quando os amigos sentados ao redor do fogo brindarem à minha memória,

Espere, e não te apresses também em beber com eles pela minha memória;

Espere, pelo meu retorno, a despeito de todas as mortes;

E deixe aqueles que não me esperaram dizer depois que eu tive sorte;

Eles nunca vão entender isso, pois em meio a tanta morte,

Tu, com a tua espera, conseguiste me salvar;

Somente você e eu sabemos como eu sobrevivi –

É porque você me esperou quando ninguém mais o fazia.”




Konstantin Simonov

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

AS RAZÕES DO FRACASSO SOVIÉTICO INICIAL

Durante muito tempo, enquanto Stalin viveu, os soviéticos não procuraram esmiuçar os motivos do fracasso inicial em deter a máquina de guerra alemã. Somente depois do XX Congresso do Partido Comunista, realizado em 1956, é que começaram a procurar os detalhes daquela calamidade. Alexander Werth arrolou algumas delas: o expurgo do exército vermelho às vésperas da guerra; a propaganda exagerada sobre a invencibilidade das forças soviéticas; a falta de profissionalismo da oficialidade soviética frente aos profissionais alemães; o baixo grau do treinamento das tropas, o fracasso da indústria bélica em poder equipar as tropas com material moderno; a subestimação da eficácia da guerra relâmpago levada a efeito pelos alemães, desprezando-a como uma "teoria burguesa" de fazer a guerra, não havendo estudos de como poder romper com o cerco feitos pelos blindados, e, por último, a obediência ao dogma do "culto à personalidade" isto é, a Stalin, e os traumas psicológicos provocados pelo Grande Terror, que impediram os comandantes militares soviéticos de tomarem as iniciativas corretas no campo de batalha quando se viam atacados. (A. Werth - A Rússia na Guerra, vol. I, pág. 159/160)

Os soldados soviéticos e os guerreiros do passado

terça-feira, 23 de agosto de 2011

STALIN REAGE

Enquanto os alemães e seus aliados avançavam em toda a linha, levando as defensivas soviéticas de roldão, Stalin trancou-se num quarto do Kremlin. Durante onze dias ele se negou a receber quem quer que fosse. Enquanto isso, a nação, perplexa, estava entregue a si mesma. Os exércitos invasores, aplicando à solta os princípios da Blitzkrieg, a guerra relâmpago, cercavam e impunham a rendição milhares de soldados russos, levando a crer que a União Soviética teria o mesmo destino dos outros países que caíram logo no controle dos nazistas. Foi neste momento dramático, quando não cessavam de chegar noticias ruins do front, que Stalin recuperou-se. A sua alocução galvanizou um país estonteado:

Alocução de Stalin: 3 de julho de 1941


Esta guerra nos foi imposta, achando-se o nosso país empenhado agora numa luta de vida ou morte contra o mais pérfido e maligno dos seus inimigos, o Fascismo Alemão. Nossas tropas se batem heroicamente em situação desvantajosa, contra um adversário fortemente armado de tanques e aviões... O grosso das tropas soviéticas, equipado com milhares de tanques e aviões, somente agora começa a participar dos combates... Unido ao Exército Vermelho, todo o nosso povo se levanta para defender a Pátria.

O inimigo é cruel e impiedoso. Quer a nossa terra, o nosso trigo e o nosso petróleo. Visa a restauração do poder do latifúndio, ao restabelecimento do Czarismo e a destruição da cultura nacional dos povos da União Soviética; quer fazer-nos escravos de príncipes e barões germânicos.

Nas nossas fileiras não haverá lugar para os fracos e os covardes, para os desertores e causadores de pânico. Nosso povo será destemido na luta e combaterá com abnegação na guerra patriótica de libertação contra os escravizadores fascistas.

É preciso que coloquemos imediatamente a nossa produção em pé de guerra e que ponhamos tudo ao serviço da Frente e da preparação da derrota do inimigo. 0 Exército Vermelho, a Marinha e todo povo soviético defenderão, polegada a polegada, o solo da nossa Pátria, lutaremos até a ultima gota de sangue em cada cidade e em cada aldeia já... Organizaremos todo o tipo de ajuda ao Exército Vermelho, faremos com que as suas fileiras sejam constantemente renovadas, dar-lhe-emos tudo quanto precisar. Havemos de conseguir o transporte rápido das tropas, do equipamento e o pronto auxilio aos feridos.

Todas as empresas devem intensificar o seu trabalho e produzir cada vez mais equipamentos, de quantos tipos... iniciaremos uma luta sem quartel contra desertores e causadores de pânico... Destruiremos espiões, diversionistas e pára-quedistas inimigos...

Sempre que unidades do Exército vermelho sejam obrigadas a recuar, todo o material rodante ferroviário há de ser também retirado. Ao inimigo não se deixará uma única máquina, uma libra de pão ou uma latinha de óleo. Os kolkosianos sairão com todos os seus animais, entregarão ao estado suas reservas de cereais para o envio à retaguarda... Tudo o que não puder ser carregado será destruído, seja cereal ou ferro, combustível ou metais não-ferrosos ou qualquer outra propriedade de valor.

Nos território ocupados hão de se formar unidades de guerrilheiros... Haverá grupos diversionistas para combater as unidades inimigas, para difundir por toda a parte a luta de guerrilhas, para dinamitar e destruir as estradas e as pontes, os fios de telégrafo e os dos telefones; para incendiar as florestas, os depósitos do inimigo, os seus comboios na estrada. Nas regiões ocupadas, condições insuportáveis hão de se criar para o inimigo e seus cúmplices, que serão perseguidos e caçados a cada passo...

(...) Um Comitê de Defesa do Estado acaba de ser formado para cuidar da rápida mobilização dos recursos do país; todo o poder e a autoridade do Estado estão nele investidos. Este Comitê já começou a trabalhar e convocou todo o povo a unir-se em torno do partido de Lenin e Stalin e do Governo para o apoio decidido e abnegado ao Exército vermelho e à Marinha para a derrota do inimigo, pela nossa vitória... O imenso poder popular será empregado para esmagar o inimigo. Avante! À vitória!


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

UMA NAÇÃO SURPREENDIDA

A ofensiva alemã sobre o solo russo pegou de surpresa não só o povo soviético, como seu ditador, Stalin. Todas as evidências de uma vasta concentração de tropas alemães e seus aliados nas fronteiras da URSS haviam sido desconsideradas por ele. Nenhum dos avisos que chegaram ao seu conhecimento pelo serviço de espionagem (o agente Victor Sorge informara, do Japão, a data exata em que se daria a invasão) ou pelas mensagens enviadas pelos ingleses, que também o alertaram, convenceram-no da eminência do ataque de Hitler. Stalin aferrou-se ao pacto de não-agressão germano-soviético de agosto de 1939, também conhecido como Acordo Ribbentrop-Molotov, pelo qual ambos os ditadores partilharam a Polônia entre si como acertaram um intercâmbio de produtos entre ambas as potências. A Alemanha se comprometera a fornecer máquinas e equipamentos para a URSS em troca de petróleo, ferro e cereais. E eis que, de repente, Hitler virou a mesa justo quando Stalin confiava nele. O ditador soviético até então entendia as notícias de um ataque hitlerista para breve como resultado das "ações de provocação" espalhadas pelos agentes ingleses para envolver a URSS numa guerra contra a Alemanha nazista. A tal ponto levou esta crença que, quando as primeiras notícias da invasão chegaram ao seu conhecimento no Kremlin, ele ordenou que a artilharia não respondesse ao fogo e que os aviões russos não tentassem sobrevoar território alemão. Quando se deu conta da realidade, teve um colapso psicológico.

domingo, 21 de agosto de 2011

INVADIR A RÚSSIA, UM PROBLEMA HISTÓRICO

Carl von Clausewitz, um dos mais reputados teóricos da estratégia militar dos tempos modernos, oficial prussiano que participou com os russos das campanhas contra Napoleão em 1805, e novamente em 1812, escreveu no seu clássico estudo Vom Kriege (Da Guerra, 1833), que a Rússia era militarmente inconquistável. Foi de certa forma isso que fez com que Otto von Bismarck, o chanceler que unificou a Alemanha em 1871, sempre visse o imenso império czarista como um possível aliado e não como um inimigo, como Hitler o fez. Eram as dimensões territoriais daquele colosso, os vastos recursos humanos e materiais que dele poderiam extrair, é que inviabilizavam qualquer ocupação definitiva da Rússia. Carlos XII, o rei da Suécia, durante a chamada Guerra do Norte, tentara dominar a Rússia ocidental no início do século XVIII, sendo derrotado por Pedro, o Grande, em Poltava, em 1709. Um século depois, foi a vez do gênio de Napoleão Bonaparte afundar na neve russa, perdendo quase todo o Grand Armée, o grande exército, durante a retirada de 1812. No século XX, seria a vez de Adolf Hitler desbaratar 75% da imensa força militar alemã nas estepes russas.

Napoleão derrotado na Rússia em 1812

sábado, 20 de agosto de 2011

OUTROS FATORES

Além dessas observações preconceituosas em relação aos eslavos, comuns à maioria dos racistas europeus, um conjunto outro de fatores pesou na sua decisão de atacar o Leste. Além do profundo ódio ao comunismo, fruto do temor que a Revolução de 1917 causara na maioria dos europeus daquela época, ele levou em conta ainda dois outros elementos. Em 1937-8, na época dos Grandes Expurgos, Stalin simplesmente liquidara a elite militar soviética, a quem suspeitara de tentar afastá-lo do poder. Deteve e executou por traição o marechal Mikhail Tukachevski, bem como um número indeterminado de altos oficiais (alguns estimam em 33 a 40 mil encarcerados, sendo que inúmeros deles foram fuzilados). O Exército Vermelho teria ficado praticamente acéfalo nas vésperas da II Guerra Mundial por determinação do seu próprio comandante supremo! O segundo fator foi o fracasso do assalto das tropas soviéticas contra as fronteiras da pequena Finlândia, realizado no inverno de 1939/40, que se revelou num verdadeiro desastre. A conclusão de Hitler não poderia ser outra: um regime odiado, sem comandantes militares qualificados e com tropas desaparelhadas e destreinadas, a campanha da Rússia seria um pouco mais do que uma parada militar para o exército alemão. Quem lê o capitulo dedicado à questão russa no Minha Luta facilmente descarta a tese da Präventivkrieg, a guerra preventiva que, segundo seus defensores, (entre eles Paul Carell, pseudônimo de Paul Karl Schmidt, um coronel SS, ex-porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do III Reich), Hitler obrigatoriamente teve que se lançar em vista da possibilidade de um ataque soviético que se daria a qualquer hora.


O Expurgo do Exército Vermelho (*)


Número dos expurgados

Postos militares

3 dos 5

Marechais

14 dos 16

Comandantes-de-exército de I e II classe

8 dos 8

Almirantes

60 dos 67

Comandantes-de-corpos-de-exército

136 dos 199

Comandantes-de-divisão

221 dos 397

Comandantes-de-brigada

11 dos 11

Vice-comissários de defesa

75 dos 80

Membros do Soviete Militar

528 dos 783

Altos oficiais e funcionários do setor militar

De 30 mil a 40 mil

Detidos ou fuzilados (o equivalente 1/5 da oficialidade)


(*) É provável que a dimensão desse violento expurgo se devesse a um acerto de contas de Stalin com Trotski, visto que foi o seu rival quem forjou o Exército Vermelho durante a guerra civil de 1918-20. O objetivo final seria a stalinização total da organização militar, que até então ficara fora dos expurgos que abateram o partido e a polícia secreta ao longo dos anos trinta. (Fonte: Robert Conquest - O Grande Terror, pag. 478-9)


Ao expurgar o exército, Stalin atacou a si próprio

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

HITLER E A URSS

Se o plano para invasão da URSS fora urdido desde julho de 1940, a intenção de realizar a conquista militar do país dos sovietes remonta a tempos bem anteriores. Quando Hitler, então encarcerado como agitador direitista na prisão de Landsberg, na Bavária, ditou o Mein Kampf (Minha Luta), a sua obra, publicada em 1925, ele dedicou um capítulo especial à política externa a ser seguida pelo movimento nacional-socialista. Nele, ele retoma as antigas ambições alemães, insufladas pela geopolítica racista, que dizia haver necessidade da ampliação do Lebensraum, o espaço vital, para que o povo germano pudesse sobreviver no futuro. Argumentava ele que não havia uma harmonia entre o elevado número de alemães e a modesta dimensão do solo que lhes cabia na Europa. Como não reconhecia o direito histórico de nenhum povo ao território que ocupava, que não fosse consagrado pela força, Hitler não via embaraço nenhum em ir algum dia tomar de assalto as terras do Leste, as estepes russas, então nas mãos do judaico-comunismo. Além disso, insistiu que nenhuma nação é potência sem ter vastas extensões de terras sob seu domínio: o império britânico, os Estados Unidos, a União Soviética e a China eram exemplos disso. Para ele, desde que se dera a revolução de 1917, o grande império eslavo era uma instituição decadente. A revolução bolchevique, ao exterminar com a classe dirigente (o "elemento germânico organizador do Estado russo", segundo ele), entregara a administração do país aos desprezíveis judeus e à escória russa. A isso, somava-se o profundo desdém racista que ele tinha pelos eslavos, considerando-os untermensh, gente racialmente inferior, uma espécie de brancos degenerados, poluídos pelo sangue asiático, incapazes de qualquer evolução. Esses preconceitos todos o cegaram perante os perigos de invadir um território da dimensão da URSS, cuja parte ocidental era duas vezes maior do que toda a Europa. Nada disso alterou sua decisão. Como ele disse convicto aos seus generais "basta nós chutarmos a porta que a casa toda ruirá".

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

ORIGENS DO PLANO

Foi com muita surpresa, e até com apreensão, que alguns generais alemães próximos a Hitler escutaram-no dizer, em plena campanha contra Grã-Bretanha, então submetida a severos bombardeios aéreos e à intensa ação submarina, que se preparassem para invadir a União Soviética. Tudo aquilo que fizeram até ali, isto é, a ocupação da maioria dos países da Europa atlântica, assegurou-lhes o Führer, era uma manobra de despistamento. A verdadeira guerra ainda estava para ser travada. E ela se daria no Leste da Europa. Os planos para o assalto à URSS já haviam sido encaminhados por ele um ano antes, em 21 de julho de 1940, logo após a queda da França, quando encarregou o marechal de campo, Walther von Brauchitsch, então o seu supremo comandante das forças terrestres, a proceder com os primeiros estudos. Por volta de dezembro de 1940, um esboço geral dele já estava pronto, com o codinome Barbarossa. A invasão deveria ser perpetrada na primavera de 1941, mesmo com a continuidade da guerra contra Grã-Bretanha. Este risco, Hitler pretendia superar com o tempo, pois imaginou que as forças conservadoras na Inglaterra e os sentimentos anticomunistas espalhados pelo mundo fariam pressão para que suspendessem a guerra contra ele, visto que a Alemanha nazista atacava a morada da "serpente internacional"- a URSS. Era um lance de jogador de pôquer. Com a carta da invasão da URSS na mão, ele esperava que os demais envolvidos na guerra se retirassem da mesa.
Walther von Brauchitsch

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

OS TRÊS OBJETIVOS

Leningrado, Moscou e Kiev eram as cidades a ser conquistadas, tanto pelo seu valor simbólico como por sua importância estratégica. A tomada da grande capital do Norte, construída por Pedro, o Grande, em 1703, impediria a URSS de ter qualquer acesso ao Mar Báltico, tornando a sua esquadra inútil. Conquistar Moscou significava provocar um enorme impacto moral sobre a população russa, pois a capital soviética era considerada não só o núcleo do poder e da economia da Rússia, como também o seu centro espiritual e religioso. Tomar de assalto Kiev, a capital da Ucrânia, por fim, permitiria açambarcar a riqueza cerealística da União Soviética e as suas imensas estepes de fértil terra preta, onde um punhado de sementes jogadas fazia crescer maravilhas. Bem sucedida, a Operação Barbarossa, num primeiro momento, cortaria a URSS ao meio, separando o centro-norte, urbanizado e industrializado, do Sul, rico em alimentos e matérias-primas. Hitler, porém, determinou que não queria batalhas dentro das cidades. As forças soviéticas deveriam ser destruídas nos campos para que assim as cidades russas, uma a uma, caíssem no controle da Wehrmacht (o exército alemão) como uma fruta madura se desprende de uma árvore levemente sacudida.





von Leeb, von Bock e von Rundstedt

Os Grupos de Exército e suas Metas


Grupos de Exército

Divisões

Objetivos

Norte (Mal. von Leeb)

21 divisões e 1 grupo panzer (Gen. Hoepner)

Leningrado, junção com forças finlandesas

Centro (Mal. Von Bock)

32 divisões e 2 grupos panzer (Gens. Hoth e Guderian)

Moscou

Sul (Mal. Von Rundstedt)

60 divisões, 1 grupo panzer e os corpos húngaros, romenos e italianos

Kiev e a Ucrânia, rumando depois para o Caucaso


(*) Quanto ao volume do material bélico ele se compunha de 3580 tanques e carros de combate, 7.184 canhões e 5000 (1.830 na primeira fase) aviões, além de 600 mil veículos de todos os tipos e de 750 mil cavalos. (Fonte: Paul Carell- Unternehmen Barbarossa).

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A EXTENSÃO DO FRONT

Era uma linha de guerra que partia das águas geladas de Arcangel, no Mar de Berens, estendendo-se até as águas tépidas do Mar Negro, bem ao sul, numa extensão de mais de três mil quilômetros. O maior fronte do mundo. Na vanguarda dos três grandes corpos de exército, compostos por três milhões de soldados, estavam quatro Panzergruppen com 3.300 tanques e demais tropas motorizadas, que perfaziam 7.500 veículos diversos, no comando dos coronéis-generais Hoepner, Hoth, Guderian e Kleist. Observa-se nesta composição de marechais aristocratas, cuja linhagem lembrava os antigos cavaleiros teutônicos, liderando um exército mecanizado e uma moderna aviação de combate, a dialética tipicamente alemã do chamado “modernismo reacionário”, onde a tecnologia se punha a serviço de uma causa retrógrada.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

OPERAÇÃO BARBAROSSA


O nome código escolhido por Hitler para designar a grande operação de ataque não era casual. A palavra “Barbarossa” remetia à figura de Frederico Hohentaufen, o grande imperador alemão da Idade Média, o Frederico I do Sacro Império Romano-Germano, morto em 1152. Nome lendário e respeitado entre os cavaleiros cruzados, alguém que empenhara seus recursos em favor da causa da cristandade contra os infiéis. De certo modo, Hitler via-se como a encarnação de Frederico Barbarossa (o “Barba Vermelha”, como os italianos o chamaram), liderando uma enorme operação militar para esmagar a heresia comunista que se encastelara mais ao oriente, no Kremlin de Moscou.
O General Halder, chefe da OKH (o alto comando militar alemão), o executor da operação, dividiu-a em três grandes objetivos: o grupo dos exércitos Norte, sob o comando do marechal de campo Ritter Von Leeb, tinha como meta rumar em direção à Leningrado, fazendo lá junção com as tropas finlandesas que viriam de mais ao norte, esmagando a resistência da grande cidade, atuando sobre ela como se fosse um imenso alicate; o grupo dos exércitos do centro, sob o comando do marechal de campo Fedor von Bock, tinha ao seu encargo realizar uma poderosa ofensiva direto ao centro da Rússia, rumando o mais rápido possível para Moscou; por fim, o grupo de exércitos do Sul, no comando do marechal de campo Gerd von Rundstedt, marcharia para as ricas terras da Ucrânia, tendo como meta alcançar Kiev.

domingo, 14 de agosto de 2011

A MAIOR BATALHA DE TODOS OS TEMPOS

As rádios alemãs entraram em cadeia um pouco antes das 7 horas da manhã para um comunicado especial. Numa voz emocionada e tensa, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda do Reich, leu o comunicado do Führer Adolf Hitler à nação: “Povo alemão! Neste momento está em andamento uma marcha, ela pode ser comparada na sua extensão como a maior que o mundo já viu. Eu decidi novamente colocar o destino do futuro do Reich e do nosso povo nas mãos dos nossos soldados. Possa Deus ajudar-nos, especialmente nesta luta.” Não havia nenhum exagero nessas palavras. Com a invasão da URSS, teria início a mais colossal batalha dos tempos modernos, quiçá a maior de todas elas, aquela que envolveu a Alemanha nazista e a Rússia comunista. Tudo nela foi eloqüente, não só pelas paixões ideológicas envolvidas, como pela quantidade exorbitante de vidas, de recursos e equipamentos que ela exigiu de ambas as partes. Para Hitler, tratava-se de uma cruzada para livrar para sempre o Ocidente da ameaça judaico-comunista, para os soviéticos tratava-se da sua sobrevivência, da própria causa de existir do povo russo.


Conquistando uma cidade russa

sábado, 13 de agosto de 2011

O ATAQUE NAZISTA À URSS

Há 70 anos, em 22 de junho de 1941, quando quase se completavam dois anos de guerra na Europa ocidental, o mundo foi surpreendido pela notícia de que naquela madrugada iniciara-se o ataque geral das forças armadas alemãs contra as fronteiras da União Soviética, até então neutra no conflito. Ao som ensurdecedor de mais de seis mil bocas de canhões alemães, os russos viram-se de inopino em meio ao inferno de uma guerra total. Naquele dia fatídico, Adolf Hitler ordenara a invasão e a destruição da URSS.



Cartaz nazista celebrando a vitória

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

FÉRIAS SANGRENTAS

Stalin desligou o aparelho e foi dormir. Naquela madrugada do dia 22 de junho de 1941, sete mil bocas de canhões alemães, das margens do Báltico até o Mar Negro, começaram a cuspir fogo sobre o território russo, enquanto a primeira linha de mil tanques avançava, esmagando tudo o que encontrava pela frente. Era o começo das férias de verão. Os oficiais russos, a exemplo do secretário-geral, acomodavam suas famílias para partir para um descanso, enquanto os pilotos tranqüilos deixavam os seus Yakovlyevs, Petlyakovs e Ilyushins, alinhados lado a lado, prontos para serem explodidos pelas bombas alemãs que começavam a despencar dos ares. Na manhã, ao despertar, Stalin, avisado da invasão, ainda ordenou que as defesas não respondessem de imediato e que nenhum avião soviético (àquela altura, a força aérea praticamente desaparecera, abatida no chão) penetrasse mais de 50 quilômetros em solo alemão. Ele não descartara a possibilidade de haver um mal entendido, uma provocação possível de ser contornada. Stalin, o paranóico mor do regime, aquele que mandara executar milhares de companheiros do partido acusando-os de estarem mancomunados com os nazistas, ainda assim acreditava piamente em Hitler.



Criméia: onde Stálin passava suas férias

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

GUERRA TOTAL

Lembrou aos generais que o próprio Stalin, temendo um golpe do marechal Tukachevski, aplainou-lhes o caminho ao matar, na época do Grande Terror, quase todos os comandantes russos que valiam alguma coisa daquele exército de tártaros e mongóis maltrapilhos. A guerra seria total. Os comandantes da frente teriam autonomia plena para mandar executar quem lhes parecesse suspeito sem terem que recear serem submetidos a constrangimentos legais. Nada de tribunais ou de protelações outras. Cada oficial alemão, seria assim juiz e carrasco de quem fosse seu prisioneiro. Os comissários comunistas seriam passados nas armas, assim aquela ralé russa não teria outro referencial de autoridade do que o oficial nazista da região. Tinham que desaparecer im Nacht und Nebel, “na noite e na neblina”! E, num acesso final de soberba, Hitler arrematou: “não peço aos generais que me acompanhem mas que obedeçam as minhas ordens.”



O caça soviético Yakovlyev

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O PONTAPÉ NA BARRACA RUSSA

Em 3 de março daquele ano de 1941, Hitler fizera um conferência secretíssima com seus generais mais próximos. Explicou-lhes porque iria à guerra contra Stalin. A exposição parecia um sumário feito por Maquiavel. Sendo a guerra inevitável, dada a diferença ideológica abismal que separava as duas potências, adiar ou protelar o conflito era permitir que o adversário se fortalecesse. Além disso, assegurou-lhes o Führer, a revolução judaico-comunista de 1917 decepara o elemento germanizante da elite russa, desprovendo o país de toda a gente capaz. A Rússia, dizia ele, estava em mãos de uns bandidos caucasianos como Stalin e Béria, odiados por todo mundo, “um pontapé nessa barraca apodrecida e tudo se desmoronará. Dentro de oito ou dez semanas isto estará terminado”.



Infantaria alemã no ataque

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O ENGODO DE HITLER

Para que as máquinas dos panzers não emperrassem e estivessem bem azeitadas para o dia fatal, era preciso ligá-las constantemente. Por incrível que pareça, Stalin aceitou a explicação que Hitler lhe ofereceu. Aquilo tudo, a aceleração de mais de dez mil motores de tanques, caminhões e carros de combate, não passava de uma encenação para a futura operação Leão Marinho, o ataque que ele estava programando para invadir a Grã-Bretanha. Fazia um estardalhaço no Leste para, num repente, vir jogar tudo contra Churchill no Oeste.



Cartaz nazista: o triunfo da vontade

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

UMA ANGÚSTIA CRESCENTE

Como o ditador nazista faria isso, apegou-se Stalin, se recém ele entregara, em pleno acordo com o tratado germano-soviético de agosto de 1939, um trem inteiro com tanques Skoda e preciosos instrumentos óticos para os submarinos? Não era plausível que um chefe guerreiro, pronto para atacar um colosso como a Rússia, fosse enviar antes para o seu inimigo uma carga tão preciosa. Que não o incomodassem mais. Estava em férias. Enquanto isso, no fronte ocidental, os generais soviéticos da fronteira se angustiavam com aquele contínuo ronco dos motores dos tanques alemães. Toda a noite, eles ouviam de longe aquele rugido maligno que vinha quebrar-se nas suas linhas defensivas.



O comando central civil-militar da URSS na véspera da invasão: Béria, Molotov, Stalin, Voroshilov e Timoshenko

domingo, 7 de agosto de 2011

TUDO CALMO AO OCIDENTE

“A Rússia é uma Esfinge. Na alegria e na dor, e esvaindo-se em sangue negro / Ela olha, olha, olha para ti, com ódio e com amor”





Alexander Block - Os Citas, 1918






Para mostrar ao povo russo que tudo andava a contento, Stalin resolveu tirar suas férias de verão. No dia 21 de junho de 1941, partira num vôo direto para sua dacha na Criméia, a deliciosa península banhada pelo Mar Negro. Mas eis que naquela noite mesmo, recém ele se acomodara, o telefone o perseguiu. Era Timoshenko, o comissário da defesa, um dos poucos altos oficiais soviéticos que sobrou das purgas de 1937-8 quando ele fez sangrar o Exército Vermelho de marechal a cabo.
Nervoso, ele insistiu com Stalin para que o secretário-geral desse o alarma geral, que colocasse as forças armadas soviéticas em estado de alerta, pois eram alarmantes os sinais e avisos, que desabavam sobre os diversos ministérios, de que Hitler estava por invadir o território russo a qualquer momento. Stalin o repreendeu. Que parasse de semear o pânico. Tudo aquilo, assegurou ele, nada mais eram do que provocações feitas pelos interesses reacionários europeus e americanos para que nazistas e stalinistas se engalfinhassem numa guerra de morte. Aquela gente não parava de plantar em todos os lados notícias absurdas, açuladas ainda mais por agentes provocadores, de que Hitler estava afiando as espadas para vir cortar o pescoço dos bolcheviques.



Soldado alemão livrando a Europa do dragão vermelho

sábado, 6 de agosto de 2011

1941: AS FÉRIAS DE STÁLIN



Somente depois do XX Congresso do Partido Comunista Russo, realizado em 1956, é que o real papel de Stalin, nos primeiros dias da invasão nazista da União Soviética, pôde chegar ao conhecimento do grande público. Até então, ele mantinha junto ao povo russo uma aura de sábio homem de guerra, o generalíssimo que conduzira a sua pátria a mais espetacular vitória militar de todos os tempos. O levantamento, porém, foi estarrecedor. Stalin, naqueles dias dramáticos, oscilou da irresponsabilidade à credulidade, provocando assim a destruição de quase todo o sistema defensivo do país por negar-se, devido ao culto da infalibilidade que ele mesmo propagara, a ver a evidência.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

CÍRCULO DE FOGO

Assisti pela enésima vez Círculo de Fogo (Enemy at the Gates, ao pé da letra). Apesar do elenco hollywoodiano, é uma película onde prepondera a visão européia da II Guerra Mundial. Os Estados Unidos sequer são citados.
Acho que todos os leitores deste blog já conhecem o enredo. Mesmo assim, prefiro não revelar nada além do fato de que a trama põe em confronto Vassili Zaytsev, mítico soldado soviético, forjado no cenário Sibéria, Frio, Fome, uma bala, Urso, Homem e do outro lado, o arquétipo do Übermensch alemão, preciso, frio e calculista, o Major König. O pano de fundo é a Batalha de Stalingrado, ponto de inflexão da história.
Tudo isso me inspirou a publicar, em capítulos, uma historieta sobre a batalha do socialismo contra o fascismo. Me irrita profundamente a leitura liberal da história que tenta aproximar Hitler e Stálin, e os transforma em inimigos da democracia ocidental andado de mãos dadas pelos jardins da perversidade.
Se não fosse o povo soviético em armas, o Exército Vermelho, a corda teria roído... Sabe-se-lá qual seriam as consequências...
Não me acusem de plágio. Ao longo das postagens, eu darei os créditos a quem de direito.


quarta-feira, 29 de junho de 2011

LEMBRE-SE DE ONDE VEIO

“Acho que o Palocci fez tudo dentro da legitimidade e da legalidade do status quo. Mas o PT não veio para legitimar esse status quo, em que o sujeito, pelas regras que estão aí e utilizando de espertezas e habilidades, enriquece”.

Olívio Dutra, o anti-Palocci



Link original: http://www.cartacapital.com.br/politica/confira-o-conteudo-da-edicao-impressa-de-cartacapital-7
Link de onde copiamos: http://www.viomundo.com.br/politica/olivio-dutra-o-anti-palocci.html





28 de junho de 2011 às 10:28
Lucas Azevedo, de Porto Alegre, em Carta Capital



Em um velho prédio numa barulhenta avenida de Porto Alegre, em companhia da mulher, vive há quatro décadas o ex-governador e ex-ministro Olívio Dutra. Em três ocasiões, Dutra abandonou seu apartamento: nas duas vezes em que morou em Brasília, uma como deputado federal e outra como ministro, e nos anos em que ocupou o Palácio do Paratini, sede do governo gaúcho. Apesar dos diversos cargos (também foi prefeito de Porto Alegre), o sindicalista de Bossoroca, nos grotões do Rio Grande, leva uma vida simples, incomum para os padrões atuais da porção petista que se refastela no poder.

No momento em que o PT passa por mais uma crise ética, dessa vez causada pela multiplicação extraordinária dos bens de ex-ministro Palocci, Dutra completou 70 anos. Diante de mais uma denúncia que mina o resto da credibilidade da legenda, ele faz uma reflexão: “Política não é profissão, mas uma missão transitória que deve ser assumida com responsabilidade”.

De chinelos, o ex-governador me recebe em seu apartamento na manhã de terça-feira 14. Sugeriu que eu me “aprochegasse”. Seu apartamento, que ele diz ter comprado por meio do extinto BNH e levado 20 anos para quitar, tem 64 metros quadrados, provavelmente menor do que a varanda do apê comprado por Palocci em São Paulo por módicos 6,6 milhões de reais. Além dele, o ex-governador possui a quinta parte de um terreno herdado dos pais em São Luiz Gonzaga, na região das Missões, e o apartamento térreo que está comprando no mesmo prédio em que vive. “A Judite (sua mulher) não pode mais subir esses três lances de escada. Antes eu subia de dois em dois degraus. Hoje, vou de um em um.” E por que nunca mudou de edifício ou de bairro? “A vida foi me fixando aqui. E fui aceitando e gostando”.

Sobre a mesa, o jornal do dia dividia espaço com vários documentos, uma bergamota (tangerina), e um CD de lições de latim. Depois de exercer um papel de destaque na campanha vitoriosa de Tarso Genro ao governo estadual, atualmente ele se dedica, como presidente de honra do PT gaúcho, à agenda do partido pelos diretórios municipais e às aulas de língua latina no Instituto de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “O latim é belíssimo, porque não tem nenhuma palavra na sentença latina que seja gratuita, sem finalidade. É como deveria ser feita a política”, inicia a conversa, enquanto descasca uma banana durante seu improvisado café da manhã.

Antes de se tornar sindicalista, Dutra graduou-se em Letras. A vontade de estudar sempre foi incentivada pela mãe, que aprendeu a ler com os filhos. E, claro, o nível superior e a fluência em uma língua estrangeira poderiam servir para alcançar um cargo maior no banco. Mas o interior gaúcho nunca o abandonou. Uma de suas características marcantes é o forte sotaque campeiro e suas frases encerradas com um “não é?” “Este é o meu tio Olívio, por isso tenho esse nome, não é? Ele saiu cedo lá daquele fundão de campo por conta do autoritarismo de fazendeiro e capataz que ele não quis se submeter, não é?”, relembra, ao exibir outra velha foto emoldurada na parede, em que posam seus tios e o avô materno com indumentárias gaudérias. “É o gaúcho a pé. Aquele que não está montado no cavalo, o empobrecido, que foi preciso ir pra cidade e deixar a vida campeira”.

Na sala, com exceção da tevê de tela plana, todos os móveis são antigos. O sofá, por exemplo, “tem uns 20 anos”. Pelo apartamento de dois quartos acomodam-se livros e CDs, além de souvenires diversos, presentes de amigos ou lembrança dos tempos em que viajava como ministro das Cidades no primeiro mandato de Lula.

Dutra aposentou-se no Banrisul, o banco estadual, com salário de 3.020 reais. Somado ao vencimento mensal de 18.127 reais de ex-governador, ele leva uma vida tranquila. “Mas não mudei de padrão por causa desses 18 mil. Além do mais, um porcentual sempre vai para o partido. Nunca deixei de contribuir”.

Foi como presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, em 1975, que iniciou sua trajetória política. Em 1980, participou da fundação do PT e presidiu o partido no Rio Grande do Sul até 1986, quando foi eleito deputado federal constituinte. Em 1987, elegeu-se presidente nacional da sigla, época em que dividiu apartamento em Brasília com Lula e com o atual senador Paulo Paim, também do Rio Grande do Sul. “Só a sala daquele já era maior do que todo esse meu apartamento”.

Foi nessa época que Dutra comprou um carro, logo ele que não sabe e nem quer aprender a dirigir. “Meu cunhado, que também era o encarregado da nossa boia, ficava com o carro para me carregar.” Mas ele prefere mesmo é o ônibus. “Essa coisa de cada um ter automóvel é um despropósito, uma impostura da indústria automobilística, do consumismo”. Por isso, ou anda de carona ou de coletivo, que usa para ir à faculdade duas vezes por semana.

“Só pra ir para a universidade, gasto 10,80 reais por dia. Como mais de 16 milhões de brasileiros sobrevivem com 2,30 reais de renda diária? Este país está cheio de desigualdades enraizadas”, avalia, e aproveita a deixa para criticar a administração Lula. “O governo não ajudou a ir fundo nas reformas necessárias. As prioridades não podem ser definidas pela vaidade do governante, pelos interesses de seus amigos e financiadores de campanha. Mas, sim, pelos interesses e necessidades da maioria da população”.

O ex-governador lamenta os deslizes do PT e reconhece que sempre haverá questões delicadas a serem resolvidas. Mas cabe à própria sigla fazer as correções. “Não somos um convento de freiras nem um grupo de varões de Plutarco, mas o partido tem de ter na sua estrutura processos democráticos para evitar que a política seja também um jogo de esperteza”.

Aproveitei a deixa: e o Palocci? “Acho que o Palocci fez tudo dentro da legitimidade e da legalidade do status quo. Mas o PT não veio para legitimar esse status quo, em que o sujeito, pelas regras que estão aí e utilizando de espertezas e habilidades, enriquece”.

E o senhor, com toda a sua experiência política, ainda não foi convidado para prestar consultoria? Dutra sorri e, com seu gestual característico, abrindo os braços e gesticulando bastante, responde: “Tem muita gente com menos experiência que ganha muito dinheiro fazendo as tais assessorias. Mas não quero saber disso”.

Mas o senhor nunca recebeu por uma palestra? “Certa vez, palestrei numa empresa, onde me pagaram a condução, o hotel e, depois, perguntaram quanto eu iria cobrar. Eu disse que não cobro por isso. Então me deram de presente uma caneta. E nem era uma caneta fina”, resumiu, antes de soltar uma boa risada.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOY LOCO POR TRI

Que me desculpem os outros colunistas deste blog, que definitivamente não compartilham dessa minha paixão, mas agora quem dá bola é o Santos.
Não farei análises táticas ou coisa que o valha, apenas alguns palpites:
1. A imprensa não deixou nem chegar a ressaca do título. Ao invés de parabenizar o Santos, as notícias são as de desmonte do elenco. O PIG da imprensa esportiva apelou, e ressuscitou um defunto para diminuir a conquista santista
2. PHA entrou numas de associar o Santos ao marketing de futebol da Globo. Acho que não merecemos isso. Vários jogos do peixe foram preteridos pela emissora, que preferiu transmitir os jogos do Vasco na Copa do Brasil e do Fluminense quando este ainda estava na disputa.
3. Os santistas estavam com os nervos à flor da pele na véspera. Imaginavam uma decisão como nos velhos tempos, do jogo sujo, catimba e pancadaria. Muricy, matreiro, saiu dessa armadilha: futebol não é guerra, e tranquilizou seus pupilos. Assim, o Brasil volta ao caminho das conquistas continentais (vale lembrar que, de 2000 para cá, foram seis derrotas em decisão, inclusive uma do Santos, contra o Boca Juniors, em 2003).
4. Por falar em Muricy, que bom que os técnicos deixaram de ser os protagonistas do jogo! Têm um papel importante, sem dúvida, mas são os jogadores que ganham - ou perdem campeonatos.
5. Apesar de reconhecer esse protagonismo, a experiência me levou a uma constatação: os craques passam, o clube fica. Quem bom que eles jogam atualmente no Santos (e que fiquem para sempre), mas eu não grito nome do jogador.
6. Menção desonrosa: o que o palmeirense Serra estava fazendo lá? Corintianos afirmam ter visto, no mesmo camarote, Gilmar Dantas - e com o agasalho do Santos!
7. Uma saudação ao renascido futebol uruguaio. Tenho mais simpatia pelo Nacional, mas tanto a celeste quanto o Peñarol conseguiram resultados expressivos.
8. Quanto bicão na festa! Quanto papagaio de pirata! Não sobrou medalha para os jogadores. Mas, dando uma de arroz de festa, também gostaria de dedicar esse título para quem me ensinou a ser santista. Já falei dela, que também me ensinou a ser petista. Aliás, me ensinou tudo que eu sei. Ela partiu no dia em que o Santos estreiou na Libertadores, num desastroso empate sem gols contra o Deportivo Táchira, da Venezuela. Eu, cujos raciocínios funcionam apenas por associações emotivas, vi o quanto os jogadores se empenharam para mais essa homenagem à sua torcedora mais ilustre, pelo menos na minha opinião.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Negociações salariais não serão ameaça inflacionária, diz Ipea

As negociações salariais de diversas categorias, que devem ocorrer no segundo semestre do ano, não representam uma "ameaça inflacionária" ao país. A avaliação é do coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), Roberto Messemberg, que apresentou nesta quarta-feira (15) o boletim Conjuntura em Foco.

De acordo com o economista, por causa da elevada taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses, as negociações de dissídios tendem a ser duras. Para ele, patrões e empregados precisarão levar em conta, no entanto, que o índice deverá cair nos próximos meses, refletindo a diminuição de preços dos alimentos in natura, de matérias-primas agrícolas, além do etanol.

"As negociações serão duras, mas acho que as empresas não terão muito espaço para repassar [os possíveis reajustes] para preços porque as companhias que tentarem fazer isso serão punidas pela demanda em desaceleração [redução no ritmo de crescimento da economia]", disse Mesemberg. "Mas esses processos de negociação são normais e não vão emperrar o país. Tampouco levar a um estouro incontrolável da inflação", completou.

Segundo o boletim do Ipea, o mês de maio foi marcado pela queda de preços das commodities no mercado internacional. No Brasil, o movimento foi sentido mais rapidamente pelo setor atacadista, mas a tendência é que a redução seja repassada para o varejo nos próximos meses, influenciando uma diminuição da inflação. "A trajetória de alta da inflação encontrará uma inflexão", diz o documento.

O boletim também aponta para uma estabilidade da taxa de desemprego no país, devido ao ritmo menor de crescimento da indústria. Com isso, o Ipea estima uma migração de trabalhadores para o terceiro setor, fazendo com que a taxa de desemprego de 2011 fique próxima à de 2010 (5,7%). "Teremos um cenário com uma taxa menos volátil nos próximos meses", afirmou Messemberg.

sábado, 11 de junho de 2011

GOVERNO EM DISPUTA

A repercussão do caso Palocci entre as hostes da blogosfera reacendeu um debate interessante: o que significa apoiar um governo? Para usar apenas a terminologia negativa, nos dividimos em duas facções: a dos manipulados pelo PIG (entre os quais fui incluído) e a dos adesistas acríticos (forma pela qual os rotulo).
Emir Sader listou em seu blog treze lições extraídas desse caso. Chamo a atenção para a última: "Fazer política, exercer o poder não é atividade técnica, nem de repartição de cargos, mas uma combinação de persuasão e força, isto é, construção de hegemonia".
É uma tese de Gramsci. Não vou descer às minúcias teóricas, apenas concordar com a afirmação. E seguindo essa linha de raciocínio, mais um embate se impõe a todos que querem ver esse governo pendendo para sua vocação social, "de esquerda": a privatização dos aeroportos.
Os aeroportuários sinalizam com a possibilidade de cruzar os braços diante de tal iniciativa. Conforme nos informa Juliana Sada, no Escrevinhador, as assembléias realizadas pela categoria durante essa semana tiraram indicativo de suspensão das atividades contra a privatização. Com toda justiça, entram na pauta também o aumento do piso salarial, a revisão do Plano de Carreira e melhoria nas condições de trabalho. Lembremos que eles, bem como militares controladores de vôo, foram massacrados quando do fatídico acidente da TAM em Congonhas.
Até dias atrás, Palocci conduzia pessoalmente esse processo. Apesar dos pesares, mais uma vez passava incólume pelas opiniões divergentes. A primeira conseqüência para os usuários seria o aumento das tarifas, variando de 30 a 100%. Os leilões começariam pelas unidades mais lucrativas: entre as 67 administradas pela Infraero, Guarulhos e Campinas, campeões de rentabilidade, seriam as bolas da vez, juntamente com Brasília. A maioria dos demais aeroportos é deficitária para remunerar o capital oriundo da iniciativa privada. Regressamos no tempo? Como nos idos FHC, “privatiza o filé e estatiza o osso?”.
E aí que está o nó górdio da questão. Para além das questões técnicas, que mostram as desvantagens da privatização, há o preço político, que é impagável. O esgoto da Veja está em polvorosa. De seus bueiros emergiram os seguintes dejetos:
Dilma Rousseff, sem ser contraditada, atravessou a temporada eleitoral enfileirando falatórios que acabou de jogar no lixo. “Eu não entrego o meu país”, disse, por exemplo, em 10 de abril de 2010. “Não vou destruir o Estado, diminuindo seu papel. Não permitirei que o patrimônio nacional seja dilapidado e partido em pedaços”. Reeditou a falácia em 7 de outubro: “Nós somos contra a forma, o conteúdo e o sentido das privatizações”.
Mais uma vez, não é preciso ser manipulado pelo PIG para enxergar que o governo está atuando de forma paradoxal, em oposição ao que foi prometido na campanha. A direita está dando as cartas, como sempre, exceto nos melhores momentos do governo Lula. Imagino que a nomenklatura do PT possua pesquisas qualitativas que apontem o peso da militância - em particular da militância digital - como desprezível na correlação de forças vigentes.
Melhor é se aliar com o PMDB.
PMDB que não tem qualquer escrúpulo com relação à privatização. Aqui em Goiás, por exemplo, o PMDB foi defenestrado do governo do Estado pelo PSDB, basicamente por dois motivos: primeiro, por tratar os funcionários públicos pior que animais (ausência de concursos, contratações regidas pelo trio apadrinhamento, compadrio e nepotismo, e os atrasos de mais de três meses no pagamento) e o segundo, pela privatização da usina de Cachoeira Dourada, responsabilizada pela falência da CELG, mesmo com a exorbitante majoração das tarifas públicas.
O editorial da Carta Maior de hoje faz interessante relação entre a privatização da eletricidade em São Paulo (que lá foi conduzida pelos tucanos) e a questão dos aeroportos: "No momento em que o governo federal oficializa a concessão de importantes aeroportos nacionais à iniciativa privada - em nome da eficiência e porque o Estado não dispõe de R$ 5 bi a R$ 6 bi para investir no setor, embora tenha reservado R$ 57 bi aos rentistas da dívida pública no 1º quadrimestre - o colapso elétrico em SP encerra lições oportunas".
E aí, o que faz quem apóia o governo?

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O PT E A CRISE DO MINISTRO PALOCCI

http://www.pt.org.br/o67131

Para os petistas, não sair em defesa de Palocci foi uma reação contra o risco de distanciamento do PT em relação à sua base social. Por isso estamos com a presidenta Dilma e apoiamos sua dolorosa atitude nesta hora. Mesmo tendo que perder um ministro tão importante, ou tendo que parecer vencida pela pressão das oposições, ela preferiu não perder o sentido social de seu governo.
Os petistas não contestam o direito que Palocci tinha de exercer uma atividade privada quando saiu do governo em 2006 e de ter sucesso nela. O que causou espanto e levou os petistas a não apoiarem sua permanência no governo, foi a origem de seus ganhos privados (orientar os negócios de grandes empresas), a magnitude dos resultados (dezenas de milhões de reais), e o alto padrão de vida que ele se concedeu (representado pelo investimento em moradia fora de sua própria origem de classe média).
Nós, petistas, éramos ‘de fora’ nos tornamos ‘de dentro’ do Estado brasileiro. Até hoje a elite rica ou a classe média alta de doutores não simpatiza com ver lá essa geração vinda dos movimentos de trabalhadores. Somos herdeiros dos esforços que o Partido Comunista representou ao levar em 1945 ao Parlamento trabalhadores historicamente excluídos do poder (por pouco tempo, já que logo posto na ilegalidade). Somos herdeiros daqueles que no início dos anos de 1960 ensaiaram alguma presença no Estado através de suas lideranças sindicais e de partidos socialistas nascentes (tentativa abortada com o golpe militar).
Enfrentamos com muitas dificuldades materiais as eleições. Uma após outra, elegemos homens e mulheres vereadores, deputados, prefeitos, senadores, governadores, até chegar três vezes à presidência da República. Muitos se tornaram assessores nos parlamentos, nos governos, diretores, secretários, dirigentes de empresas públicas, ministros.
Quando estávamos perto do poder ou nele, as empresas privadas ajudaram nossas campanhas e procuraram nos aproximar delas. Queremos o financiamento público dos partidos para não depender delas. Respeitamos os empresários, mas com a devida distância.
Não queremos sair do que fomos. Sabemos que as relações econômicas e as condições materiais de vida terminam moldando ideias e ações. São milenares as reflexões que alertam para isso. Vamos recordar alguns exemplos.
Lá longe, o filósofo grego Platão, em A República, dizia que os governantes das cidades-estado não deveriam possuir bens, exceto aquilo de essencial que um cidadão precisa para viver. Que deveriam ter o ouro e a prata apenas na alma, porque se fossem proprietários de terras, casas e dinheiro, de guardas que eram da sociedade se transformariam em mercadores e donos de terras, então, de aliados passariam a inimigos dos outros cidadãos.
A Revolução Francesa no fim do século 18 fez brilhar pela ação dos excluídos as ideias de igualdade, fraternidade e liberdade, contra a concentração da riqueza e do poder nos reis, na nobreza e no clero. É verdade que depois houve a restauração do Império, mas também se fortaleceram as ideias socialistas.
Marx e Engels, que buscavam a emancipação do proletariado, consideravam que, para modificar a consciência coletiva era preciso modificar a base material da atividade econômica. Não bastava, portanto, a crítica das ideias, porque o pensar das pessoas reflete seu comportamento material.
Filósofos sociais posteriores, mesmo aqueles cujas ideias deram suporte ao liberalismo, como Max Weber, falavam de estamentos sociais definidos pelos princípios de seu consumo de bens nas diversas formas de sua maneira de viver.
Já dizia Maquiavel que a política se altera no ritmo incessante das ondas do mar. Os partidos tendem a ser como estas ondas: vem de muito longe, vem crescendo, até que um dia se quebram mansamente nas praias ou mais rudemente nos rochedos. Defender vida modesta para políticos vindos da vida modesta das maiorias, é para o PT uma das condições indispensáveis para comandar um processo de distribuição da renda e inclusão das multidões excluídas, embora não a condição única. Para cumprir esta condição e nosso papel, é essencial sermos, como temos sido: fiéis, na nossa vida pessoal e política, aos milhões e milhões de brasileiros que tem votado e confiado em nós. É legítimo para nós progredir ao longo da vida, desde que todos cresçam na mesma medida em que o bem-estar do povo cresce.
Voltando ao companheiro Palocci: respeitamos suas opções, admiramos sua competência, reconhecemos seu trabalho a serviço do povo. Mas, pelas razões expostas, o PT mostrou que prefere o político de vida simples que conhecemos, ao empresário muito bem sucedido sobre o qual agora se fala.
Nesse mix de filosofias sobre a riqueza e seu reflexo no pensamento social, terminamos lembrando o imperativo categórico de Kant: aja de tal modo que a máxima de sua ação possa ser universalizada, isto é, para que todos sejam iguais a você. Por isso que, para continuarmos a ser um partido dos trabalhadores, não é bom que cultivemos o ideal de empresários.

Elói Pietá é secretário geral nacional do PT.

domingo, 5 de junho de 2011

ASSUNTOS DA SEMANA - PARTE III

Por causa de recentes acontecimentos na minha vida, havia tomado a decisão de não escrever mais textos cuja leitura inspirassem sentimentos negativos. Essa minha resolução interna em princípio vivia atormentada por uma ótica de que tal iniciativa me levaria a uma espécie de alienação das coisas mundanas, materiais.
Na verdade, esse estágio foi superado. Não imagino que o mundo se tornou um lugar melhor pelo simples fato de eu não olhar para ele. Mas é que, quando escrevemos, subentendem-se dois processos: um interno, de extravasão de idéias, e outro, externo, de recepção das tais idéias. Percebi que não tinha nenhum controle sobre essa segunda parte e que, analisando em perspectiva histórica, meus textos mais críticos, mais ácidos, em nada (ou em muito pouco, para ser bem condescendente) influíram para que seus leitores agissem para transformarem a realidade que os cerca.
Presunçoso, não?
Mas, afinal de contas, para quê escrever? E esse escrever não se reduz a um diário de memórias: está publicado e acessível ao mundo inteiro. Quando me deparei com a dimensão de "mundo inteiro" no sentido literal é que resolvi fazer algo para atingir o receptor de maneira mais eficiente.
O primeiro impacto foi de que eu teria que abandonar os assuntos políticos. Podia falar de futebol, que eu também gosto. Mas a simbiose entre futebol e política gera cada vez mais frutos corruptos e deformados. Aliás, Mino Carta discorreu com brilhantismo sobre isso. Eu acrescentaria que cada vez mais os papas da comunicação esportiva, como Milton Neves e Galvão Bueno, repetem que o futebol não é tão importante assim. "É a mais importante era as coisas menos importantes do mundo". Ao mesmo tempo, cada vez mais dinheiro é injetado na indústria do entretenimento esportivo. Entretenimento é business. Assim como deformou uma arte - o cinema - a grana corrompe os princípios norteadores da prática esportiva competitiva: o prazer, a diversão, o espetáculo, o desafio.
Poderia escrever sobre frivolidades como a eleição de Merval Pereira para a ABL, em substituição ao notável Moacyr Scliar, que deve estar revirando no túmulo. Talvez nem tanto, já que Merval fará companhia a Sarney e Pitanguy, entre outros próceres guardiões de nosso idioma. Mas o Carlos Motta já matou a pau, ao lembar da reusa de Monteiro Lobato em receber tal galardão:
"De forma nenhuma esta recusa significa desapreço à Academia, pequenino demais que sou para menosprezar tão alta instituição...Não é modéstia, pois não sou modesto; não é menosprezo, pois na Academia tenho grandes amigos e nela vejo a fina flor da nossa intelectualidade.
"É apenas coerência; lealdade para comigo mesmo e para com os próprios signatários; reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer. Pouco social que sou, a simples ideia de me ter feito acadêmico por agência minha me desassossegaria, me perturbaria o doce nirvanismo ledo e cego em que caí e me é o clima favorável à idade."
Mas nada é mais degradante do que escrever sobre a raça humana. E, na ausência de argumentos, me limito a trascrever o que li bestificado:
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/internacional/2011/06/01/policia-descobre-fabrica-de-bebes-na-nigeria-e-liberta-32-garotas-gravidas.jhtm

A polícia nigeriana descobriu uma casa, na cidade de Aba, onde garotas adolescentes eram forçadas a ter bebês que eram vendidos ou usados para outros propósitos, segundo o jornal inglês "The Telegraph".
Os policiais encontraram e libertaram 32 garotas, entre 15 e 17 anos, que estavam grávidas e prendeu o proprietário do imóvel. As adolescentes afirmaram que eram obrigadas a vender os bebês por cerca de 30.000 nairas (R$ 300), dependendo do sexo da criança.
Os traficantes, então, revendiam os bebês por até 1 milhão de nairas (R$ 10.200), de acordo com a agência estatal de combate ao tráfico humano na Nigéria.
Se for condenado, o dono da "fábrica de bebês" poderá pegar uma pena de até 14 anos de prisão.
Casos de abuso de criança e tráfico humano são cada vez mais comuns no oeste africano. Muitas crianças são vendidas para serem usadas como mão-de-obra barata em plantações, minas, fábricas e nos afazeres domésticos. Outras acabam na prostituição e há ainda as que são mortas ou torturadas em rituais de magia negra.
Na Nigéria, o tráfico humano é o terceiro crime mais comum, atrás das fraudes econômicas e do tráfico de drogas, de acordo com a Unesco.

Cheguei a essa surreal notícia via Esquerdopata, que ainda teve sarcasmo para intitular: "Ingerência Estatal atrapalha Livre Iniciativa". Nós mesmos já havíamos mostrado a ligação que existe entre a bandeira da desregulamentação dos mercados, lá no início do liberalismo, com a escravidão, que era vigente, mais então se tornou exponencial.
Mas, como continuam me faltando palavras, recorrerei a um verdadeiro imortal do nosso idioma, citado pela minha prima Ana: transcrevo o trecho do Saramago, que está no seu diário Cadernos de Lanzarote, que ele escreveu no dia em que assistia pela TV ao extermínio dos croatas pelos sérvios em Sarajevo: “Chorei enquanto as imagens terríveis se sucediam, chorei por aqueles desgraçados, chorei por mim mesmo, por esta impotência, pela inutilidade das palavras, pela absurda existência do homem. Só me consola saber que tudo isto acabará um dia. Neste derradeiro instante o último ser humano vivo poderá dizer enfim: ‘Não haverá mais morte.’ E terá de dizer também: ‘Não valeu a pena termos habitado este lugar do universo’.”

ASSUNTOS DA SEMANA - PARTE II

Me interessa muito mais do que o desfecho da patranha em que se meteu o Ministro Chefe da Casa Civil, os desdobramentos da greve dos bombeiros do Rio de Janeiro. Assisti perplexo as imagens pela TV. Me emocionou a cena em que eles, de joelhos, cantavam o hino da corporação enquanto mais de 400 companheiros eram levados em cárcere. O direito à greve, decantado em verso e prosa, ainda não faz parte da realidade deles, amarrados ao estatuto militar nesse caso. Nesse caso, porque quando o assunto é a equiparação salarial, a coisa muda de figura.

Transcrevo uma postagem, extraída de:
http://profflavioborges.blogspot.com/2011/06/revolta-da-chibata-e-os-bombeiros.html

A Revolta da Chibata e os Bombeiros

A Revolta da Chibata foi um movimento social ocorrido, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 22 de novembro de 1910. Neste período, os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. No Rio de Janeiro em 2011 os bombeiros são punidos com bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e tiros de fuzil disparados pelo Batalhão de Operações Especiais da polícia militar (BOPE). Em 1910, as faltas graves eram punidas com chibatadas (chicotadas). O que gerou uma intensa revolta entre os marinheiros. No entanto o início da revolta ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega da Marinha com uma navalha, após ter sido delatado por levar uma garrafa de cachaça para dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro e a punição, que ocorreu na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta de mais de 2.400 marinheiros. Em 2011 os bombeiros negociavam desde março um aumento salarial, e após várias negativas do governador Sérgio Cabral mais de 2.000 manifestantes decidiram ocupar o quartel do comando-geral dos bombeiros na praça da República no centro do Rio. Em 1910 o motim se agravou e os revoltosos chegaram a matar o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo. O líder da revolta, João Cândido (conhecido como o Almirante Negro), inclusive homenageado na música de João Bosco e Aldir Blanc ( O mestre-sala dos mares ) redigiu uma carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os revoltosos ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro. Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações, o presidente solicitou a expulsão de alguns revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras. O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta. Já em 2011 os bombeiros que sempre salvaram vidas, agora pedem socorro.

O deputado Brizola Neto, a quem admiro muito, assumiu uma posição mediadora. Ou melhor, quis dar uma de bombeiro para arrefecer os ânimos. Não retira a legitimidade do movimento, mas condena a invasão ao quartel:
http://www.tijolaco.com/bombeiros-tem-razao-mas-nao-em-tomar-o-quartel/

Na mesma linha de argumento se manifestou a OAB seccional RJ (que parece não ser golpista, ao contrário do presidente nacional Ophir Cavalcante):
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/925658-oab-vai-acompanhar-situacao-dos-439-bombeiros-presos-no-rio.shtml

De minha parte, tristeza. Desilusão. Falta de esperança. Será que isso tudo vale a pena?


ASSUNTOS DA SEMANA - PARTE I

E o tal de Tony Palocci (ou Malocci) continua na crista da onda. Assim como no primeiro governo Lula, faz o Executivo patinar, imerso em uma série de denúncias, de mesma natureza das anteriores: a mistura indigesta entre exercer um mandato público e suas lucrativas atividades particulares.
Acho que a postagem do PHA sobre o assunto é taxativa. Mas eis que surge uma voz dissonante: Eduardo Guimarães, lá do excelente Blog da Cidadania, faz a leitura de que a militância caiu em histeria, manipulada pela grande mídia. Deixei meu comentário no texto "Palocci, a ‘psolização’ do PT e o poder da direita midiática", e travei uma diálogo interessante com outra leitora, que transcrevo aqui:

Eu, hoje, às 12:19:
Palocci não é da “esquerda”. Muito menos representa o projeto político pelo qual nós lutamos pela continuidade. Apesar das “pressões internacionais”, basta ver que, quando ele se afastou do governo, a política econômica se tornou muito mais inclusiva, os juros baixaram, o crédito foi facilitado. Foi quando o governo Lula realmente deixou um legado do qual nos orgulhamos. Palocci é apenas o “fiador” do PT junto ao “mercado”. Uma historieta: nos idos de 2002. Lula liderava as pesquisas, com relativa folga, enquanto Serra e sua brutal máquina de campanha massacrava seus adversários do campo direitista. Assim que detonou a Roseana, e depois o Ciro Gomes, ia virando as canhoneiras para Lula, um alvo até mais “fácil” em termos ideológicos. Nisso, o Palocci faz uma viagem à Nova York, mas precisamente a Wall Street, entrega seus protocolos de intenção e “acalma o mercado”. Pronto, o Brasil não seria mais uma nova Argentina. Palocci entrou no PT já na cúpula, oriundo da Libelu, numa das alianças mais esquisitas da história do partido. E carrega esse perfil dirigista, que faz com que todos os militantes da esquerda tenham aversão à suas posturas. Se o PIG alimenta essa contradição, só o faz porque o governo atual, que foi eleito graças ao trabalho maciço destes mesmos militantes “manipulados”, forçou sua indicação indo contra os protocolos assumidos em campanha. Faça uma rápida enquete entre os leitores e veja: quem aqui faria campanha pró Palocci, independente desse caso? Não me venha com o argumento de que TODOS estão iludidos… Não sou contra um homem público se tornar privado. Mas que fique nessa esfera, e não transitando entre as duas, conforme as conveniências. Na verdade, esse é um homem público que deveria ir pra privada, isso sim… E, por favor, não retire a verdadeira importância dos questionamentos éticos. Existe uma diferença entre o que é legal e o que é moral. Isso não é conversa de botequim. “Se você não puder dizer como fez, não faça” – aprendi isso como as minhas professoras do primário e carrego como princípio até hoje.

Andrea Serpa, em seguida, às 13:42:
Eu não faria campanha para o Palocci, tampouco sou a favor de derruba-lo sem provas. Ele ou qualquer pessoa. Isso além de uma questão legal também é uma questão moral. Não gostar do Palocci, não querer ele no governo por não ser de esquerda e outros motivos, é uma coisa que não tem nada a ver com a acusação que está sendo feita no momento. Acusar sem provas só é errado quando se trata de pessoas que nos são simpáticas?

Minha replica, 16:07:

Tudo bem, Andrea. Reconheço que a ojeriza a um indivíduo que atráves de várias ações políticas elencadas pelo PHA no post “Dilma a Lula: toma que o filho (Palocci) é teu”, se mostrou contrário aos anseios da militância que lutou para eleger um governo dos trabalhadores turva um julgamento isento. Ações realizadas dentro dos limites legais, frise-se. De qualquer forma, reduzindo-se todas as circunstâncias e ideologias a zero, ainda assim não existiriam julgamentos imparciais. Talvez no mundo das idéias de Platão. Mas sou obrigado a rebater um argumento seu: derrubar “sem provas”. Como assim, sem provas? O fato do patrimônio dele ter se multiplicado muito além do razoável a um integrante do poder legislativo, já constituiu o indício. A chance de se explicar ao público – pois é um homem público (que ele reservou com exclusividade a Globo) – foi dada. Nela, ele negou nomes e números, num abstrativismo que só o compromete. E a manutenção de uma empresa de consultoria a outras empresas com negócios com o governo é a óbvia prova de que há sim tráfico de influência. Como eu disse, ele transitou entre o público e o privado, conforme interesses de difícil apreciação. Não dá para aceitar isso. Não admito como desculpa o fato de não haver legislação que proíba isso. É aí que encontramos a ética e a moral. Como disse Kant, “age de tal maneira que a máxima da tua vontade possa valer sempre, ao mesmo tempo, como princípio de legislação universal”. Numa linguagem mais singela, foi o que eu aprendi no primário. Não isento as empresas “corruptoras” de culpa. E também admito que preferia que o Palocci saísse por opção política da Presidenta. Mas acho salutar esse contraditório, nesse nível de debate. Aprenderemos a fazer uma política melhor dessa forma.

Tréplica da Andrea, 17:17:
Também me agrada debater assim. Já foi tudo analisado pela CGU e pelo MPF antes dele ser ministro e não foi encontrado nada ilegal. As empresas estão listadas aqui mesmo no post, todos já sabem. O alvo é o governo Dilma, assim que derrubarem o ministro partiram com toda força para cima de outro.

A conversa foi positiva, mostra que, mesmo defendendo pontos de vista opostos, as pessoas podem ter boas intenções e procurar um objetivo comum. Contudo, continuo acredito que seria melhor para o Brasil se afastar de Palocci, como escreveu Marco Aurelio Mello, do DoLaDoDeLá. Até porque, a questão nunca foi jurídica; foi política desde a sua gênese. A "governabilidade" que ancorava Palocci já não existe mais. E se continuarmos a defender um governante suspeito, ainda que sem as ditas "provas irrefutáveis", teremos que reconduzir Collor ao Planalto.